Capitulo 2

Eloise Campos

Como eu já havia previsto, o dia foi longo e cansativo.

Depois de levar Thomas ao pediatra para uma consulta de rotina, segui com ele para a escola. Só o deixei lá depois de conversar com a diretora e apresentar o atestado, comprovando que ele realmente havia passado pelo médico naquela manhã.

A escola em que matriculei Thomas é uma instituição particular prestigiada e, por mérito, ele conseguiu uma bolsa de cinquenta por cento. Não foi integral apenas porque este ainda é o seu segundo ano e seu inglês não é totalmente fluente, mas, mesmo assim, sinto um orgulho imenso pelo desconto que ele conquistou. A San Francisco Day School é uma escola de elite, e saber que meu filho tem acesso a um ensino de tanta qualidade me tranquiliza mais do que eu costumo admitir.

Depois disso, fui direto para a academia.

Fiquei lá por cerca de uma hora e meia, fazendo treino de ombro. Quando voltei para casa, tomei outro banho rápido, vesti roupas confortáveis — um moletom e um short — e fui para o escritório no primeiro andar. O cômodo fica em uma sala com janelas voltadas para o jardim da frente. A vista é bonita, tranquila até, mas, na prática, quase nunca consigo apreciá-la de verdade. Assim que me sento para trabalhar, tudo o que existe para mim passa a ser a tela do computador.

Passei o restante do dia programando e finalizando o desenvolvimento de um site completo para um cliente local. Não era um projeto particularmente complexo; o prazo original era de até dois meses, mas eu já estava perto de concluir tudo. Ao mesmo tempo, também fazia orçamentos para outros dois clientes — um da região e outro do exterior —, além de cuidar de alguns trabalhos avulsos na área de publicidade.

Quatro reuniões com clientes, três orçamentos e dois projetos entregues dentro do prazo em apenas cinco horas de trabalho.

Às vezes, até eu me impressiono com a minha capacidade de fazer tanta coisa em tão pouco tempo.

Assim que o relógio marcou 14h, parei tudo para ir buscar meu filho. Ele sai às 14h30, e de lá eu o levo direto para a natação. Enquanto Thomas está na piscina, fico por ali esperando. Como não posso participar das aulas, aproveito para trabalhar parcialmente pelo celular, organizando minha agenda, respondendo contatos e ajustando o que consigo sem precisar abrir o computador.

Isso só me faz lembrar, mais uma vez, de que eu preciso urgentemente contratar uma secretária.

Quando Thomas sai da piscina, espero por ele na porta, como as outras mães. Assim que ele vem até mim, eu o levo para o banho, para tirar o cloro do corpo. Durante todo esse tempo, ele fala sem parar, animado, contando cada detalhe do próprio dia: o experimento na aula de ciências, o início do aprendizado sobre medidas, tempo e dinheiro, e até a aula no laboratório de informática da escola — na qual, segundo ele, se saiu muito bem por já estar acostumado com computadores por minha causa.

Essa última parte ele conta se gabando, o que me faz rir.

O trajeto de volta para casa segue no mesmo ritmo: Thomas narrando cada acontecimento com a seriedade importante das crianças, e eu respondendo com o maior entusiasmo, saboreando cada palavra como se fosse um presente.

Thomas é uma criança bastante extrovertida, assim como eu costumava ser, mas a vida me deixou um pouco amarga.

Por isso, hoje em dia, é difícil eu conseguir ser assim com qualquer pessoa. Na verdade, só sou com ele e com meus amigos mais próximos — que são poucos e, infelizmente, estão todos no Brasil.

Antes de irmos para casa, passo no mercadinho da região para comprar algumas coisas para o jantar. Ainda são apenas 16h, mas gosto de deixar tudo pronto para que Thomas jante às sete da noite e esteja na cama até as oito.

Desta vez, estaciono o carro dentro da garagem para facilitar o transporte das compras. Faço Thomas levar suas mochilas para dentro enquanto eu fico com as sacolas, que deixo sobre o balcão da cozinha.

— Certo, mocinho — digo, vendo meu filho tirar os sapatos e começar a largar as coisas pela casa. — Leve suas mochilas e os sapatos para cima, tire o uniforme e faça o dever de casa. Se terminar antes do jantar, deixo você jogar videogame ou brincar. Você escolhe.

Ele suspira, contrariado, mas se anima na mesma hora com a possibilidade do videogame. Então pega tudo e sobe para o quarto.

Eu volto para o escritório. Ainda tenho mais duas horas para adiantar o que puder antes do dia seguinte.

Horas depois, estou colocando meu filho na cama. Com certa luta — porque ele não queria largar o videogame —, cubro seu corpo pequeno com o cobertor favorito. Thomas ainda gosta de histórias antes de dormir, então estamos terminando de ler A Teia de Charlotte. Leio dois capítulos todas as noites e, antes de sair do quarto, sempre beijo sua testa.

É o tipo de gesto simples que eu sempre quis ter recebido da minha própria mãe.

E não falo das leituras de clássicos, mas do beijo de boa-noite.

Thomas é muito apegado a mim e, se eu passo um único dia sem lhe dar esse beijo, ele fica genuinamente chateado. Mesmo quando já está dormindo, às vezes parece saber quando eu não o beijei.

Olho para ele por um instante mais demorado: os cabelos loiros e lisos começando a ficar compridos demais, o rosto relaxado, tranquilo, livre de qualquer preocupação.

Sinto uma felicidade silenciosa por poder lhe proporcionar tudo isso.

Sei que, muitas vezes, ele sente falta de alguém que nunca chegou a conhecer. Tenho certeza de que ver as outras crianças com seus pais o machuca de alguma forma, e faço tudo o que posso para que essa ausência não ocupe um espaço ainda maior dentro dele. Eu sei que essa falta nunca vai desaparecer por completo, mas tento, pelo menos, amenizar a dor.

Faço o possível.

Fecho a porta do quarto e sigo para a sala, aliviada por aquele dia finalmente ter chegado ao fim. Começo a desligar as luzes e a fechar as cortinas do andar de baixo. Depois, subo e vou direto para o meu quarto. Antes de trocar de roupa, aproximo-me da janela para fechar as cortinas e, enquanto faço isso, algo na casa do outro lado da rua chama minha atenção.

Um carro estava saindo da garagem — um modelo caro, aliás — enquanto uma pequena figura de cabelos longos e escuros observava tudo da sacada do andar superior, segurando um ursinho e um livro.

Eu não conseguia ver seu rosto com clareza por causa da escuridão e das sombras, mas havia algo em sua postura, em sua quietude, que parecia carregar tristeza.

Também não consegui enxergar quem estava no carro, mas não precisei de muito para entender a situação.

Meu coração afundou no mesmo instante.

Por um momento, meu instinto e minha razão travaram uma pequena batalha silenciosa sobre o que eu deveria fazer, embora eu soubesse, no fundo, que aquilo não era da minha conta. No instante seguinte, a senhora que eu havia visto pela manhã apareceu, segurou a menina pelos ombros e disse alguma coisa que a fez concordar antes de entrar com ela para dentro.

Era uma cena triste. Profundamente triste.

Há pessoas que simplesmente não deveriam ser pais. Nem todo o dinheiro do mundo é capaz de comprar o amor de um filho.

Solto um suspiro, com esse pensamento ainda girando na minha mente, enquanto termino de fechar as cortinas.

Quando finalmente me deito, só consigo pensar no contraste entre o rostinho triste da garotinha e a expressão calma e relaxada do meu filho.

Acabo adormecendo entre pensamentos difusos, sonhos inquietos, uma menina de cabelos pretos e um homem sem rosto.

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