Mundo de ficçãoIniciar sessãoEloise Campos
Já se passaram duas semanas desde que Amelie veio aqui em casa fazer a lição e, desde então, praticamente todos os dias, depois da aula, ela acaba vindo para estudarem juntas, terminarem o projeto e passarem um tempo na companhia um do outro.
Pelo que parece, os dois se entenderam. Thomas deve ter pedido desculpas pelo que disse naquele dia, e a amizade voltou ao normal com a rapidez típica das crianças. Brigam, se acertam e, no dia seguinte, já estão lado a lado como se nada tivesse acontecido.
Com Amelie vindo aqui todos os dias, comecei a notar algumas coisas sobre ela.
Nós não conversamos tanto assim — ela continua muito tímida —, mas passou a me chamar de tia Eloise, ou apenas de tia, o que eu acho sinceramente adorável. Não me incomoda nem um pouco, mesmo eu tendo só vinte e cinco anos. Na verdade, às vezes até eu me esqueço de que tenho apenas vinte e cinco. Algumas coisas me obrigaram a amadurecer muito mais cedo do que eu gostaria, tudo para que meu filho pudesse ter a infância mais leve e bonita possível.
Amelie, por outro lado, me dá a impressão contrária.
Ela parece velha demais para a própria idade.
É uma menina muito educada, mas de um jeito que não combina com a espontaneidade infantil. Não é a educação natural de uma criança que aprende a pedir licença, agradecer e dizer por favor nos momentos certos. Thomas, por exemplo, é educado à maneira dele, como toda criança bem orientada costuma ser — de forma simples, pontual, quase automática. Já Amelie tem uma educação rígida, ensaiada, quase robótica. Usa palavras difíceis para pedir as coisas, agradece por absolutamente tudo e se desculpa até quando não fez nada de errado. E isso, em vez de soar apenas bonito, acaba causando certo desconforto. Nela, em mim, no ambiente inteiro.
Também comecei a notar algumas estranhezas em situações banais.
Thomas não tem celular.
Amelie, por outro lado, tem um aparelho de última geração.
No dia em que ela perguntou a ele se usava algum aplicativo para organizar os estudos, Thomas respondeu com a maior simplicidade do mundo:
— Eu não tenho celular.
A voz dele saiu leve, desinteressada, como se aquilo não tivesse importância nenhuma.
— Não tem? — Amelie perguntou, claramente surpresa. — Mas a sua mãe não trabalha com tecnologia também?
Eu adoraria saber a quem mais ela estava se referindo quando falou em alguém que “também” trabalha com tecnologia, mas me contive e continuei fingindo que estava concentrada no notebook, ali na cozinha, enquanto ouvia os dois conversando na sala.
— Trabalha, mas ela me ensinou a fazer as coisas no papel, aí eu não preciso ficar dependendo de aparelho — ele respondeu, com a mesma naturalidade despreocupada.
Soou exatamente como algo que eu mesma disse a ele anos atrás, quando começou a me pedir um celular. Quase ri.
— Ah... — Amelie ficou em silêncio por um instante antes de perguntar: — E como você anota as suas coisas?
— Na minha super agenda. — Ele respondeu com orgulho, levantando a agenda personalizada do Homem-Aranha, seu personagem favorito nessa atual fase obcecada por heróis. — Quer ver?
Disse isso já abrindo o caderno.
Quando ergui os olhos, os dois estavam inclinados sobre a agenda, olhando as anotações dele com toda a seriedade do mundo. Amelie não comentou mais nada sobre o assunto, mas a surpresa continuou pairando no ar.
No dia seguinte, ela apareceu com uma agenda nova e pediu que Thomas a ajudasse a organizar suas coisas “igual ele fazia”. Era pequena, colorida e personalizada com algum desenho infantil que eu não consegui identificar direito à distância.
Amelie também sempre observa, com uma atenção quase silenciosa, minhas interações com Thomas. Os resmungos dele na hora do banho, a implicância com a lição de casa, a forma como eu preciso insistir para ele sentar e prestar atenção. No começo, ela ficava mais quieta, no canto dela, assistindo à cena enquanto eu tentava ajudar meu filho — que, quando quer, consegue ser teimoso em níveis impressionantes.
Quando me ofereci para ajudá-la também, ela recusou duas vezes.
Na terceira, porém, estava realmente com dificuldade e acabou pedindo ajuda, o rosto tão vermelho de vergonha que meu coração chegou a apertar. Mantive a maior naturalidade possível e simplesmente a ajudei, como faria com qualquer criança.
Com o passar dos dias, algumas reações dela começaram a se parecer mais com as de uma menina de sete anos. Pequenos gestos. Pequenas falas. Pequenas distrações. Era como se, aos poucos, Amelie relaxasse o bastante para permitir que a criança aparecesse.
Mas tudo o que é bom dura pouco.
Hoje estou trabalhando na cozinha, como quase sempre faço. Thomas não foi para a aula. Pediu para ficar em casa porque Amelie não iria à escola. Tentei argumentar que ele não podia faltar só porque a amiga não iria — por mais que eu entendesse o motivo, continuo sendo mãe antes de qualquer outra coisa —, mas ele explicou que era aniversário dela e que ela passaria o dia sozinha, já que os pais estavam viajando a trabalho.
Eu não consegui dizer não.
A ideia era que ela viesse para cá e os dois passassem o dia brincando e também adiantando o projeto da feira de ciências, que aconteceria dali a um mês.
Não me importei nem um pouco. Inclusive, conversei com Cris, e ela concordou na mesma hora. Mais do que isso: deu a entender que seria ótimo para Amelie não passar o dia inteiro trancada do outro lado da rua.
Eu e Cris até trocamos telefone dias atrás, para qualquer eventualidade. Apesar de Thomas nunca ir à casa deles, às vezes ela buscava as duas crianças na escola, assim como em outras ocasiões eu também buscava os dois. Acabou virando uma espécie de parceria silenciosa entre nós.
Em mais de uma ocasião, tive vontade de perguntar sobre os pais de Amelie.
Mas me contive em todas.
Até hoje, no aniversário da menina.
Eu sei que não é da minha conta.
Ainda assim, era impossível não perceber que ela estava triste, mesmo brincando com massinha e pintura no quintal dos fundos junto com Thomas. Meu filho fazia de tudo para distraí-la e, como bom amigo que é, veio me perguntar se eu não podia fazer um bolinho de aniversário igual aos que costumo fazer para ele todos os anos.
Não consegui negar.
Fui até a vendinha da região, comprei velinhas, e agora o bolo está assando. Enquanto isso, sigo trabalhando do balcão da cozinha, de onde consigo observar os dois pela porta aberta que dá para o quintal.
Ainda são 11h.
Estou pensando em cantar parabéns depois do almoço. Vou chamar a Cris também e, sinceramente, tenho esperanças de que isso deixe o dia da Amelie um pouco melhor.
Era isso que eu pensava.
A campainha toca, e tudo o que me passa pela cabeça é que deve ser a Cris chegando com a chicken pot pie para o almoço ou, quem sabe, alguma encomenda da A****n.
Pensei em várias possibilidades de quem poderia estar do lado de fora da minha porta.
Menos naquela.
Quando abro, dou de cara com um homem muito alto, de pele clara, levemente bronzeada, cabelos pretos e olhos escuros. Ele veste roupas formais demais para uma sexta-feira, às onze da manhã: calça social preta, camisa polo branca e, por cima, um blazer azul-escuro.
Absurdamente bonito.
Bonito até demais para o meu gosto.
— Bom dia? — digo, mais em forma de cumprimento do que de certeza, tomada por uma confusão imediata. Será que ele errou de casa?
— Olá, bom dia. — A voz dele é rouca e fria na medida certa, amenizada apenas por uma educação que parece genuína. — Desculpe incomodar. Estou aqui para buscar a Amelie.
Franzo a testa no mesmo instante.
Não sei se Cris chegou a me mandar alguma mensagem avisando que alguém viria buscá-la — eu não havia olhado o celular —, mas normalmente é ela mesma quem vem.
— Certo. Desculpe a pergunta, mas, por cuidado... quem é você? — pergunto sem rodeios, deixando muito clara a minha desconfiança.
O homem parece surpreso.
Por um segundo, quase aturdido pela minha reação.
E então me parece — só me parece — que um leve sorriso de canto ameaça surgir em seus lábios, rápido demais para que eu tenha certeza.
— Sou o pai dela — responde, com um tom que mistura ironia, humor seco e algo quase provocativo.
Não sei se ele esperava me deixar constrangida ou desconfortável, mas apenas o observo de cima a baixo, ainda desconfiada.
Depois dou de ombros.
— Certo. Só um momento. Vou chamá-la.
Saio e deixo a porta aberta, mas não o convido para entrar. Ele permanece do lado de fora, o que, honestamente, prefiro.
Quando chego ao quintal, as crianças estão rindo de alguma coisa que pintaram juntas. A cena enche meu peito de um alívio inesperado; ver Amelie rindo ainda me causa esse tipo de sensação. E, por um instante, achei que a notícia de que o pai estava ali, por ela, talvez a deixasse ainda mais feliz.
Mas eu estava errada.
— Amelie, querida — chamo, e ela se vira para mim no mesmo instante, com um sorriso pequeno e bonito iluminando o rosto. — Seu pai está aqui para buscar você.
Achei que ela fosse se alegrar.
Que fosse correr para a porta.
Que, no mínimo, se animasse.
Em vez disso, o sorriso foi desaparecendo devagar, à medida que ela processava minhas palavras. A alegria se apagou do rosto dela e deu lugar a uma expressão confusa, quase triste.
— Meu pai? — perguntou, como se não tivesse certeza de ter ouvido direito.
— Sim, ele está na porta esperando por você. Vamos? — incentivei, tentando soar leve, embora eu mesma já não me sentisse tão tranquila assim.
Ela se levantou e limpou as mãozinhas na roupa. Usava uma blusa velha do Thomas por cima da própria roupa, para brincar com tinta sem se preocupar. Veio até mim, e eu lhe dei passagem, seguindo logo atrás enquanto caminhávamos até a frente da casa.
Ela ainda parecia descrente.
Até avistar o homem parado na porta.
Houve reconhecimento, sim.
Mas não felicidade.
Amelie não correu para ele. Não sorriu. Não se moveu em sua direção nem mesmo quando o homem abriu um sorriso largo, claramente feliz por vê-la depois de tanto tempo.
— Oi, filha. — A voz dele soou genuinamente contente.
Mas aquilo não provocou efeito algum nela.
Amelie permaneceu parada do lado de dentro da casa, observando-o como se não quisesse ir. E essa reação me fez questionar, por um segundo incômodo, se aquele homem era mesmo quem dizia ser.
Então ela falou:
— Posso ficar aqui?
Foi a primeira coisa que disse.
Sem “oi, papai”.
Sem sorriso.
Sem qualquer vestígio da alegria que eu esperava ver.
A pergunta me pegou completamente desprevenida.
O sorriso do homem também desapareceu aos poucos, como se nem ele soubesse muito bem o que fazer com aquela recepção.
— Como assim, querida? Você quer ficar aqui... na casa da vizinha? — ele perguntou, visivelmente surpreso.
Amelie assentiu.
— Eu ainda não comi meu bolo de aniversário — explicou, deixando-me ainda mais sem reação.
Eu nem sabia que ela tinha descoberto. Achei que faríamos surpresa, mas, considerando que sou mãe do Thomas, eu realmente deveria saber a essa altura que segredos não são o forte dele.
— Bolo de aniversário? — o homem repetiu, e só então o olhar dele saiu da filha e veio parar em mim.
— Er... — desta vez, fui eu quem ficou sem jeito. — Bom, meu filho me pediu para fazer um bolinho para comemorar. Eu sempre faço para ele nos aniversários e, como não sabíamos que você viria...
Minha voz foi sumindo antes que eu dissesse algo mais inconveniente. Quase deixei escapar que ninguém esperava a presença dele no aniversário da própria filha.
O homem alternou o olhar entre mim e Amelie, claramente entendendo o cenário. Respirou fundo e então deu um passo à frente, entrando em minha casa sem hesitação. Pela altura e pelo porte, sua presença pareceu ocupar espaço demais de uma só vez.
Ele se agachou até ficar na altura da menina e passou o polegar com delicadeza pelo rosto dela.
— Eu sei que não foi o ideal viajar tão perto do seu aniversário, mas estou aqui agora, querida. Vim para comemorar com você. Podemos fazer o que você quiser hoje.
A culpa e o arrependimento em sua voz pareciam sinceros. Era a tentativa clara de reparar um erro que ele sabia que tinha cometido.
Amelie permaneceu em silêncio por um instante. Talvez ponderando. Talvez ainda magoada. Talvez as duas coisas.
Então disse algo que, por um momento, quase fez meu coração parar:
— Então a gente pode passar meu aniversário aqui?
A pergunta saiu com a honestidade desconcertante de uma criança. Sem cálculo, sem malícia — apenas aquela provocação inocente que nasce quando uma criança quer muito uma coisa e ainda não entende completamente o peso disso para os adultos ao redor.
E, sem perceber, ela acabara de fazer exatamente o tipo de pedido que todo pai teme ouvir.
Pedir a um desconhecido algo que talvez ele nem quisesse conceder.







