O Homem que Eu Não Deveria Querer
O Homem que Eu Não Deveria Querer
Por: JulyPSQ
Epilogo

Adrian Clark

Ela é linda.

É só nisso que consigo pensar.

Na beleza da minha filha.

Passei a vida acreditando que dinheiro e tecnologia eram suficientes para dobrar a vontade da natureza. Que, com os recursos certos, com os nomes certos, com os procedimentos certos, qualquer risco podia ser neutralizado, qualquer falha podia ser corrigida, qualquer desvio podia ser previsto. Mas, diante daquela incubadora de acrílico, entendi uma verdade simples e brutal: oito meses não bastam para fabricar uma vida perfeita. O médico chamou de prematura tardia, uma escolha semântica quase elegante demais para encobrir o fato objetivo de que minha filha tinha vindo cedo demais.

O primeiro problema era a respiração. Os pulmões ainda imaturos não produziam surfactante suficiente para se manterem abertos sozinhos, e por isso cada lufada de ar parecia uma batalha silenciosa travada por um corpo pequeno demais, delicado demais, novo demais. Os monitores ajudavam, os aparelhos sustentavam, os profissionais controlavam, mas nada disso apagava o fato de que ela estava lutando por algo que, para a maioria, acontece sem esforço.

Havia também a termorregulação. Sem a camada de gordura que deveria ter acumulado nas últimas semanas de gestação, o corpinho dela não conseguia reter calor. Dependia por inteiro do aquecimento artificial daquela cápsula para não ceder ao frio. Era estranho perceber como a vida, no início, podia ser reduzida a funções tão básicas e ainda assim tão frágeis: respirar, manter-se aquecida, continuar.

O fígado, ainda em formação, não processava a bilirrubina como deveria. O resultado era o tom amarelado na pele — a icterícia —, combatido com banhos constantes de luz azul. Mas, entre tudo aquilo, o que mais me perturbava era a letargia. O reflexo de sucção, que deveria ser instintivo, ainda não sabia trabalhar em harmonia com a deglutição e a respiração. Minha filha simplesmente não sabia como se alimentar. E foi assim que a sonda nasogástrica entrou em cena, não como um detalhe técnico, mas como mais uma lembrança de que ela ainda não estava pronta, de que seu corpo seguia terminando um trabalho que a vida havia interrompido cedo demais.

Ela era um sistema complexo, preciso, admirável — e incompleto. Uma máquina delicada de alta precisão, cujas peças finais ainda estavam sendo moldadas sob a luz fria e impessoal da UTI neonatal.

E, mesmo assim, nada em mim conseguia responder a ela com medo primeiro.

Eu olhava para minha menina e tudo o que vinha era alegria.

Uma alegria imensa. Limpa. Quase absurda.

Eu me sentia sortudo. Sortudo por tê-la. Sortudo por ter construído uma vida que, embora não fosse perfeita, ainda era extraordinária. Sortudo por estar ao lado da minha melhor amiga. Sortudo por nós dois termos trazido ao mundo uma filha linda que, apesar das dificuldades, ficaria bem.

Tudo ficaria bem.

Pelo menos foi nisso que acreditei.

Já fazia uma semana desde o nascimento da nossa filha. Minha rotina havia sido reduzida ao essencial: sair do hospital, ir para casa, voltar para o hospital, repetir. Não existia mais nada além disso. Meu mundo se limitava a Mary, à bebê, ao cheiro esterilizado daqueles corredores e ao som constante de máquinas registrando aquilo que antes eu jamais havia pensado que precisaria ser contado em números. Minha noiva precisou permanecer em observação por causa do parto de risco, o que fazia com que toda a tensão parecesse vir em dobro. Eu me dividia entre as duas sem jamais realmente sair daquele estado de alerta.

Passei tanto tempo olhando para aquele ser minúsculo, perdido em pensamentos sobre o quanto minha vida havia dado certo, sobre o quanto eu tinha sido favorecido pelo destino, que quase não percebi a aproximação da enfermeira.

— Com licença, você é Adrian Clark? — perguntou uma voz feminina, com uma hesitação leve, mas perceptível.

Virei o rosto e encontrei uma mulher um pouco mais velha, segurando uma prancheta e um envelope pardo. Meu olhar desceu automaticamente para o cartão azul-marinho preso abaixo do crachá, onde se lia, em letras brancas e impessoais: RN — NURSE MANAGER. Abaixo da fotografia de uma mulher sorridente, o nome Elena brilhava sob a luz fluorescente da unidade.

Elena não vestia o branco quase simbólico dos hospitais antigos.

Usava scrubs azul-marinho impecáveis, de um tecido tão limpo e preciso que parecia repelir até a poeira daquele ambiente estéril. Sobre os ombros, uma jaqueta de fleece da Patagonia, com o emblema do hospital bordado em fios prateados, deixava clara sua posição de comando. Nos pés, tênis de corrida caros — pensados para absorver o impacto de turnos longos demais — deslizavam sem ruído sobre o piso de linóleo. Ela era a imagem exata da eficiência moderna: funcional, técnica, contida, desprovida de qualquer adorno que não tivesse utilidade clínica. Exceto por um pequeno pin em forma de girassol preso à gola — a única nota de cor naquele uniforme de guerra travada diariamente contra a morte.

— Sim, sou eu. Aconteceu alguma coisa? — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava, mas carregada de tensão. Meus olhos foram imediatamente para a incubadora.

— Com a pequena lutadora, está tudo dentro do esperado. Ainda não há atualizações. Mas precisamos falar com o senhor sobre outra coisa.

Franzi a testa, confuso. Se não era sobre minha filha, então...

— Mary... — comecei, já dando um passo na direção do quarto dela.

Elena se moveu rápido e bloqueou meu caminho.

Ergui os olhos para ela, agora tomado por uma confusão crescente e por aquele tipo de pânico que ainda não explodiu, mas já se instalou no peito.

— Senhor Clark, por favor. Preciso que me escute, sim? A senhorita Walker está bem. Na verdade... ela recebeu alta há pouco.

Soltei o ar devagar, num reflexo imediato de alívio. Pelo menos uma das duas poderia ir para casa.

Mas a sensação morreu quase no mesmo instante.

O rosto de Elena não tinha nada de tranquilizador.

— Certo... imagino que eu precise assinar a papelada da alta dela? — perguntei, já sentindo alguma coisa se apertar dentro de mim.

— Ela mesma assinou. E já foi embora.

Fiquei em silêncio por um segundo.

Um segundo inteiro, imóvel, olhando para ela sem entender.

— Como assim foi embora? Por que ela iria embora sozinha? Ela teria me avisado...

Elena abriu a boca, hesitou e tornou a fechá-la. Então, por fim, estendeu o envelope que trazia nas mãos.

Peguei aquilo quase sem pensar, já com a sensação nítida de que alguma coisa estava profundamente errada — e, pior, com a certeza instintiva de que eu não queria descobrir o que era.

— Ela pediu para lhe entregar isso. Disse que aí está tudo explicado. — Fez uma pequena pausa antes de me oferecer alguns papéis. — Também precisamos que o senhor preencha os documentos de registro da sua filha. Precisamos enviá-los ao setor responsável. Mas... antes, por favor, leia a carta da senhorita Walker.

Olhei para Elena. Depois, para os papéis nas minhas mãos.

Apenas assenti.

Quando ela se afastou, sentei devagar e abri o envelope. Respirei fundo antes de começar a ler.

Foi ali que eu entendi o quão cruel o universo podia ser.

Minutos antes, eu era o homem mais feliz do mundo.

No instante seguinte...

Eu estava prestes a me tornar um pai sozinho, responsável por uma criança com possíveis dificuldades de desenvolvimento e problemas respiratórios.

Sozinho.

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