Capítulo 5

Não sei se ele esperava me deixar constrangida ou desconfortável, mas apenas o observo de cima a baixo, ainda desconfiada.

Depois dou de ombros.

— Certo. Só um momento. Vou chamá-la.

Saio e deixo a porta aberta, mas não o convido para entrar. Ele permanece do lado de fora, o que, honestamente, prefiro.

Quando chego ao quintal, as crianças estão rindo de alguma coisa que pintaram juntas. A cena enche meu peito de um alívio inesperado; ver Amelie rindo ainda me causa esse tipo de sensação. E, por um instante, achei que a notícia de que o pai estava ali, por ela, talvez a deixasse ainda mais feliz.

Mas eu estava errada.

— Amelie, querida — chamo, e ela se vira para mim no mesmo instante, com um sorriso pequeno e bonito iluminando o rosto. — Seu pai está aqui para buscar você.

Achei que ela fosse se alegrar. Que fosse correr para a porta. Que, no mínimo, se animasse.

Em vez disso, o sorriso foi desaparecendo devagar, à medida que ela processava minhas palavras. A alegria se apagou do rosto dela e deu lugar a uma expressão confusa, quase triste.

— Meu pai? — perguntou, como se não tivesse certeza de ter ouvido direito.

— Sim, ele está na porta esperando por você. Vamos? — incentivei, tentando soar leve, embora eu mesma já não me sentisse tão tranquila assim.

Ela se levantou e limpou as mãozinhas na roupa. Usava uma blusa velha do Thomas por cima da própria roupa, para brincar com tinta sem se preocupar. Veio até mim, e eu lhe dei passagem, seguindo logo atrás enquanto caminhávamos até a frente da casa.

Ela ainda parecia descrente. Até avistar o homem parado na porta.

Houve reconhecimento, sim, mas não felicidade.

Amelie não correu para ele. Não sorriu. Não se moveu em sua direção nem mesmo quando o homem abriu um sorriso largo, claramente feliz por vê-la depois de tanto tempo.

— Oi, filha. — A voz dele soou genuinamente contente.

Mas aquilo não provocou efeito algum nela.

Amelie permaneceu parada do lado de dentro da casa, observando-o como se não quisesse ir. E essa reação me fez questionar, por um segundo incômodo, se aquele homem era mesmo quem dizia ser. Então ela falou:

— Posso ficar aqui?

Foi a primeira coisa que disse. Sem “oi, papai”. Sem sorriso. Sem qualquer vestígio da alegria que eu esperava ver. A pergunta me pegou completamente desprevenida.

O sorriso do homem também desapareceu aos poucos, como se nem ele soubesse muito bem o que fazer com aquela recepção.

— Como assim, querida? Você quer ficar aqui... na casa da vizinha? — ele perguntou, visivelmente surpreso.

Amelie assentiu.

— Eu ainda não comi meu bolo de aniversário — explicou, deixando-me ainda mais sem reação.

Eu nem sabia que ela tinha descoberto. Achei que faríamos surpresa, mas, considerando que sou mãe do Thomas, eu realmente deveria saber a essa altura que segredos não são o forte dele.

— Bolo de aniversário? — o homem repetiu, e só então o olhar dele saiu da filha e veio parar em mim.

— Er... — desta vez, fui eu quem ficou sem jeito. — Bom, meu filho me pediu para fazer um bolinho para comemorar. Eu sempre faço para ele nos aniversários e, como não sabíamos que você viria...

Minha voz foi sumindo antes que eu dissesse algo mais inconveniente. Quase deixei escapar que ninguém esperava a presença dele no aniversário da própria filha.

O homem alternou o olhar entre mim e Amelie, claramente entendendo o cenário. Respirou fundo e então deu um passo à frente, entrando em minha casa sem hesitação. Pela altura e pelo porte, sua presença pareceu ocupar espaço demais de uma só vez.

Ele se agachou até ficar na altura da menina e passou o polegar com delicadeza pelo rosto dela.

— Eu sei que não foi o ideal viajar tão perto do seu aniversário, mas estou aqui agora, querida. Vim para comemorar com você. Podemos fazer o que você quiser hoje.

A culpa e o arrependimento em sua voz pareciam sinceros. Era a tentativa clara de reparar um erro que ele sabia que tinha cometido.

Amelie permaneceu em silêncio por um instante. Talvez ponderando. Talvez ainda magoada. Talvez as duas coisas.

Então disse algo que, por um momento, quase fez meu coração parar:

— Então a gente pode passar meu aniversário aqui?

A pergunta saiu com a honestidade desconcertante de uma criança. Sem cálculo, sem malícia — apenas aquela provocação inocente que nasce quando uma criança quer muito uma coisa e ainda não entende completamente o peso disso para os adultos ao redor.

E, sem perceber, ela acabara de fazer exatamente o tipo de pedido que todo pai teme ouvir.

Pedir a um desconhecido algo que talvez ele nem quisesse conceder.

Adrian Clark

Pensei que Amelie pudesse estar chateada comigo por eu ter viajado tão perto do aniversário dela, mas não a esse ponto.

Ela sempre esteve acostumada com a nossa tradição de viajar durante a semana do aniversário dela e passar alguns dias só nós dois. Desde pequena, ela gostava desses momentos, e eu também. Era um tempo nosso, longe de tudo, em que eu conseguia senti-la mais leve, mais aberta, mais parecida com a criança que ela deveria ser o tempo inteiro. Mas já fazia dois anos que eu não conseguia manter essa tradição. Dois anos em que falhei com ela de formas diferentes, ainda que tentando compensar de outras maneiras.

Mesmo assim, eu não esperava por aquilo.

Amelie havia acabado de completar sete anos, e eu não imaginei que ela preferiria ficar na casa da vizinha a ir comigo. Agora eu estava ali, parado no meio de uma cozinha que não era minha, tentando não parecer deslocado enquanto observava a jovem mulher se mover de um lado para o outro com aparente tranquilidade. Só aparente. Bastava olhar um pouco mais para perceber que a calma dela não chegava aos olhos. Ela estava desconfortável com a situação, e eu não podia culpá-la por isso. Eu também estava.

Amelie havia voltado para o quintal logo depois que eu entrei, indo brincar com Thomas, o garoto com quem fui apresentado de maneira rápida demais para realmente guardar qualquer impressão além do básico. Ainda assim, a impressão que ficou foi clara: ele também não parecia muito satisfeito com a minha presença. Antes de sair correndo com Amelie, me olhou algumas vezes, alternando entre mim e a mãe, como se tentasse entender quem eu era naquela cena e o que deveria pensar a meu respeito.

— Desculpe, o bolo ainda não está pronto — disse a mulher, que eu já sabia se chamar Eloise. Havia um tom de constrangimento na voz dela enquanto despejava uma cobertura sobre o bolo. — Ele ainda precisa ficar na geladeira por uma hora, e como eu e a Cris estávamos planejando cantar parabéns depois do almoço...

Ela deixou a frase em aberto, mas não era difícil completar o restante sozinho. Aquilo tinha sido organizado sem me incluir em nenhum momento, e eu não tinha como reclamar. Na prática, era exatamente isso que tinha acontecido. Elas tinham planejado o dia da Amelie sem contar comigo, e com razão. Eu não estava ali. Não até aquele momento.

Ainda assim, eu devia ter recusado quando Amelie pediu para passar o aniversário ali.

Eu era o pai. Eu deveria tomar as decisões.

Mas, no instante em que a vi no quintal, correndo, rindo e brincando de um jeito espontâneo que eu não via havia muito tempo, entendi por que não consegui dizer não. Havia algo naquele ambiente que a deixava à vontade, algo que eu não tinha conseguido oferecer a ela nos últimos tempos, por mais que me doesse admitir.

Respirei fundo e abri um sorriso educado para Eloise, que me observava com uma mistura mal disfarçada de apreensão e cautela.

— Tudo bem, não precisa ter pressa. Podem seguir da forma que planejaram.

— Certo — respondeu ela, ainda desconfiada, antes de levar a travessa com o bolo até a geladeira. Depois se virou novamente para mim. — Aliás, não precisa ficar em pé. Pode se sentar no sofá ou no balcão. — Fez uma breve pausa, como se reconsiderasse a própria sugestão. — Ou, se quiser, pode ficar lá fora com a Amelie e o Thomas.

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