Capítulo 5

Adrian Clark

Pensei que Amelie pudesse estar chateada comigo por eu ter viajado tão perto do aniversário dela, mas não a esse ponto.

Ela sempre esteve acostumada com a nossa tradição de viajar durante a semana do aniversário dela e passar alguns dias só nós dois. Desde pequena, ela gostava desses momentos, e eu também. Era um tempo nosso, longe de tudo, em que eu conseguia senti-la mais leve, mais aberta, mais parecida com a criança que ela deveria ser o tempo inteiro. Mas já fazia dois anos que eu não conseguia manter essa tradição. Dois anos em que falhei com ela de formas diferentes, ainda que tentando compensar de outras maneiras.

Mesmo assim, eu não esperava por aquilo.

Amelie havia acabado de completar sete anos, e eu não imaginei que ela preferiria ficar na casa da vizinha a ir comigo. Agora eu estava ali, parado no meio de uma cozinha que não era minha, tentando não parecer deslocado enquanto observava a jovem mulher se mover de um lado para o outro com aparente tranquilidade. Só aparente. Bastava olhar um pouco mais para perceber que a calma dela não chegava aos olhos. Ela estava desconfortável com a situação, e eu não podia culpá-la por isso. Eu também estava.

Amelie havia voltado para o quintal logo depois que eu entrei, indo brincar com Thomas, o garoto com quem fui apresentado de maneira rápida demais para realmente guardar qualquer impressão além do básico. Ainda assim, a impressão que ficou foi clara: ele também não parecia muito satisfeito com a minha presença. Antes de sair correndo com Amelie, me olhou algumas vezes, alternando entre mim e a mãe, como se tentasse entender quem eu era naquela cena e o que deveria pensar a meu respeito.

— Desculpe, o bolo ainda não está pronto — disse a mulher, que eu já sabia se chamar Eloise. Havia um tom de constrangimento na voz dela enquanto despejava uma cobertura sobre o bolo. — Ele ainda precisa ficar na geladeira por uma hora, e como eu e a Cris estávamos planejando cantar parabéns depois do almoço...

Ela deixou a frase em aberto, mas não era difícil completar o restante sozinho. Aquilo tinha sido organizado sem me incluir em nenhum momento, e eu não tinha como reclamar. Na prática, era exatamente isso que tinha acontecido. Elas tinham planejado o dia da Amelie sem contar comigo, e com razão. Eu não estava ali. Não até aquele momento.

Ainda assim, eu devia ter recusado quando Amelie pediu para passar o aniversário ali.

Eu era o pai. Eu deveria tomar as decisões.

Mas, no instante em que a vi no quintal, correndo, rindo e brincando de um jeito espontâneo que eu não via havia muito tempo, entendi por que não consegui dizer não. Havia algo naquele ambiente que a deixava à vontade, algo que eu não tinha conseguido oferecer a ela nos últimos tempos, por mais que me doesse admitir.

Respirei fundo e abri um sorriso educado para Eloise, que me observava com uma mistura mal disfarçada de apreensão e cautela.

— Tudo bem, não precisa ter pressa. Podem seguir da forma que planejaram.

— Certo — respondeu ela, ainda desconfiada, antes de levar a travessa com o bolo até a geladeira. Depois se virou novamente para mim. — Aliás, não precisa ficar em pé. Pode se sentar no sofá ou no balcão. — Fez uma breve pausa, como se reconsiderasse a própria sugestão. — Ou, se quiser, pode ficar lá fora com a Amelie e o Thomas.

A sugestão me fez olhar imediatamente para o quintal. Amelie e Thomas corriam em volta da babá dela, rindo sem parar, enquanto Cris tentava acompanhá-los com uma torta de frango nas mãos, já tendo chegado alguns minutos antes, um pouco sem jeito. A cena era simples, doméstica, comum até, e justamente por isso me pareceu tão estranha. Eu não sabia como entrar nela sem parecer um corpo estranho.

Tive a sensação incômoda de que minha presença ali só atrapalharia.

— Estou bem aqui — respondi, sentando-me em uma das banquetas da pequena ilha da cozinha, em tons de verde-escuro e mármore claro.

Eloise piscou devagar, como se não entendesse completamente a minha escolha. Olhou para fora por um instante, depois suspirou e pareceu desistir de tentar interpretar o que eu estava fazendo.

— Gostaria de beber alguma coisa enquanto espera? Café, água, suco ou chá?

— Tem whisky? — perguntei, num impulso.

No segundo seguinte, me arrependi.

Era provavelmente a pior resposta possível, e a expressão dela confirmou isso. Eloise franziu a testa em evidente reprovação.

— Não, não tenho — respondeu com uma paciência contida.

— Foi o que imaginei — murmurei baixo demais para ser elegante e alto demais para passar despercebido.

Ela ouviu. Pela breve careta que fez, ficou claro que ouviu.

Antes que resolvesse me dar algum tipo de sermão silencioso com o olhar, completei, no tom mais educado que consegui:

— Água, então. Por favor.

Ela me lançou um olhar rápido, avaliador, e foi buscar o copo.

— Gelada ou natural? — perguntou, abrindo o armário.

— Gelada.

Enquanto ela se movia pela cozinha, tentei manter os olhos em qualquer outro ponto do ambiente. Não foi tão fácil quanto deveria. Mesmo usando uma calça simples e uma blusa sem qualquer intenção de chamar atenção, Eloise tinha um corpo bonito demais para passar despercebido. Era jovem, atraente e, ainda assim, se vestia de um jeito prático, quase sóbrio demais para a própria idade. Talvez fosse o efeito da maternidade. Talvez fosse escolha. Talvez as duas coisas. O sotaque denunciava que ela não era dali. Havia algo de estrangeiro nela que não desaparecia, por mais adaptada que parecesse ao lugar.

E eu não estava ali para ficar reparando na minha nova vizinha.

Além de inadequado, isso tinha potencial para me arrastar para uma complicação desnecessária, o que me fez pensar em algo que talvez explicasse melhor a firmeza com que ela conduzia a própria casa.

— Seu marido não se incomoda com essa visita repentina? — perguntei, tentando soar casual, no momento em que ela colocou o copo de água diante de mim.

Ela tornou a franzir o cenho, mas dessa vez a reação pareceu mais carregada, como se eu tivesse tocado em alguma coisa que não devia.

— Eu não tenho marido — respondeu com simplicidade. Não havia humor, provocação ou qualquer traço de malícia na voz dela. Era apenas uma resposta objetiva. — E, mesmo se tivesse, ele não teria autoridade para me proibir de receber alguém na minha própria casa.

— Entendo.

Foi tudo o que eu disse antes de levar o copo à boca.

Mãe solo, então.

Ainda assim, a aliança no dedo dela continuava me chamando a atenção. Parecia uma aliança de casamento, e aquilo abriu algumas possibilidades na minha cabeça. Separada? Divorciada? Viúva? Ou talvez apenas alguém que não havia se dado ao trabalho de tirar o anel.

Ela me deu as costas e voltou ao fogão. Eu não insisti.

No momento seguinte, aproximou-se da porta que dava para o jardim e chamou com a mesma educação quase excessiva de antes:

— O almoço está pronto. Cris, pode me ajudar a levar as crianças para se limparem?

A voz dela saiu como um pedido genuíno, não como uma ordem.

— Claro, vamos, pequenos — respondeu Cris, entrando na casa com as duas crianças logo atrás.

Thomas veio primeiro. Amelie entrou em seguida e, ao passar por mim, me lançou um olhar mais leve, com um brilho que me deu a impressão de que talvez já não estivesse tão chateada comigo quanto antes. Não era muito, mas foi o suficiente para aliviar um pouco a tensão no meu peito.

Enquanto isso, Eloise começava a arrumar a mesa, pegando pratos nas prateleiras mais altas com pressa e prática. O movimento acabou deixando suas curvas ainda mais evidentes, o que me obrigou a desviar o olhar outra vez.

— Precisa de ajuda? — perguntei por educação.

— Não — respondeu, com uma indiferença tão bem controlada que parecia ensaiada. — Está tudo bem. Vou só colocar os pratos e as panelas na mesa. Se quiser, já pode escolher o seu lugar.

Ela não dava ordens diretamente. Sugeria. Conduzia. Organizada, segura e acostumada a ter tudo sob controle, fazia parecer que as decisões tinham partido dos outros quando, na verdade, ela já havia organizado o ambiente inteiro ao redor da própria vontade. Talvez isso viesse do hábito de resolver tudo sozinha.

Como eu estava na casa dela, não via motivo para contrariá-la.

Levantei-me e fui até a sala de jantar conjugada com a cozinha, um espaço simples, acolhedor e bem aproveitado, com uma mesa retangular para seis lugares. Sentei-me em uma das pontas, deixando duas cadeiras livres ao meu lado.

As crianças apareceram quando Eloise terminava de colocar os pratos, deixando apenas um lugar ainda sem arrumar.

— Quer ajuda, mamãe? — perguntou Thomas, com uma prontidão que me chamou a atenção.

Eloise sorriu para ele.

— Quero, amor. Pode colocar os talheres e os guardanapos na mesa?

O que me surpreendeu foi a reação de Amelie. Ela observou os dois com um interesse imediato, quase ansioso, e então perguntou:

— Posso ajudar também?

Eloise olhou para ela primeiro, depois para mim, numa checagem rápida que denunciava certa insegurança sobre qual seria a minha reação. O problema é que eu mesmo não sabia qual deveria ser.

— Querida, hoje é seu aniversário. Você não precisa fazer nada. Não quer se sentar com a Dona Cris e esperar só um pouquinho?

— Não, tia Eloise. — Amelie balançou a cabeça. — Eu quero ajudar.

Eloise hesitou por um instante, tornou a me olhar e depois suspirou, rendendo-se com um sorriso gentil.

— Tudo bem. Thomas, mostra para a Amelie como arrumamos a mesa?

— Tá bom — respondeu ele, dando de ombros.

Amelie foi imediatamente para perto dele, prestando atenção em cada gesto com uma seriedade que me apertou o peito de um jeito estranho. Ela observou Thomas posicionar os talheres em um dos lugares, depois atravessou a mesa e veio até mim para repetir o mesmo gesto ao lado do meu prato. Quando terminou, levantou o rosto e me encarou com expectativa.

— Ficou muito bom, querida. Ótimo trabalho — eu disse, inclinando-me para beijar sua testa.

Ela soltou um risinho satisfeito e foi para o próximo lugar.

Naquele momento, qualquer comentário que eu pudesse ter feito perdeu completamente o sentido. Minha filha tinha acabado de sorrir para mim, e isso, por si só, já desarmava qualquer resistência.

Quando ergui os olhos, vi Eloise colocando uma panela no centro da mesa, enquanto Thomas posicionava os guardanapos ao lado do meu prato de um jeito nada meticuloso, apenas prático, quase como se estivesse me entregando algo. Ele me lançou um olhar rápido antes de se afastar.

Definitivamente, o garoto não parecia simpatizar muito comigo.

Pouco depois, todos estávamos sentados. Amelie ficou entre mim e Cris. Eloise e Thomas se sentaram do outro lado da mesa — ela de frente para Amelie, ele de frente para mim.

O homem da casa.

O almoço correu de forma tranquila. Thomas e Amelie foram os que mais falaram, puxando assunto o tempo inteiro. Pela primeira vez naquele dia, Amelie falou comigo com mais naturalidade e começou a me contar sobre o que vinha fazendo com Thomas, sobre a escola, sobre o projeto da feira e algumas pequenas aventuras dos dois, tudo isso entre discussões infantis cheias de convicção sobre assuntos que, para eles, pareciam enormes.

Depois do almoço, de fato cantaram parabéns para Amelie, e o brilho no rosto dela valeu o constrangimento de toda a situação. As crianças comeram bastante bolo, enquanto Eloise conversava com Cris sobre algum assunto cotidiano e eu permanecia sentado no sofá da sala — uma das salas mais simples e acolhedoras em que eu já tinha estado —, esperando o tempo passar sem saber muito bem onde encaixar as mãos ou o pensamento.

Quando o relógio se aproximou das quatro, veio aquela sensação inevitável de fim. O tipo de silêncio que se instala quando todo mundo entende, sem precisar dizer, que o dia precisa acabar.

Foi então que chamei Amelie para irmos embora.

Dessa vez, ela aceitou com tranquilidade. Tirou a blusa do Thomas que estava usando por cima da roupa e a devolveu a Eloise, agradecendo por tudo. Mas não foi o agradecimento automático e polido de sempre. Foi genuíno.

Eloise piscou algumas vezes, como se também tivesse percebido a diferença, antes de se agachar e abraçar minha filha.

— De nada, querida. Feliz aniversário, pequena.

Amelie retribuiu o abraço, o que também me surpreendeu. Ela raramente deixava alguém se aproximar assim com tanta facilidade. Era tímida, reservada, pouco dada a contato. Mas com aquela mulher, havia deixado.

Não consegui evitar a pergunta silenciosa. Por quê?

Amelie então veio para perto de mim na porta, ao lado de Cris. As duas passaram por mim e ficaram esperando na escadinha que levava até a rua. Olhei para Eloise, fiz um aceno curto com a cabeça e disse:

— Obrigado por nos receber.

A frase saiu formal e educada, e bastou isso para fazê-la revirar os olhos com uma expressão de descrença.

— Agora entendi por que a Amelie fala desse jeito.

— O que quer dizer com isso? — perguntei, confuso.

Ela fez um gesto vago com a mão, como se não valesse a pena explicar.

— Não precisa me agradecer. Foi um prazer fazer algo por ela. Tenha um ótimo dia, Sr. Clark.

A dispensa veio direta, formal e educada na medida exata para deixar claro que a conversa havia terminado. E, por algum motivo, tive a impressão de que aquela indiferença toda era um pouco calculada demais.

— Tenha um ótimo dia, Srta. Eloise.

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