Mundo de ficçãoIniciar sessãoSete anos depois
Eloise Campos Acordo antes mesmo de o despertador tocar e fico deitada, olhando para o teto, frustrada. Ainda não consegui me acostumar com a nova casa, com o fuso horário ou com a nova rotina. Achei que, aos vinte e cinco anos, a adaptação seria simples, quase automática, mas não está sendo tão fácil quanto eu gostaria. Viro o rosto para a janela de cortina semiaberta, e os primeiros raios de sol me lembram imediatamente que hoje é segunda-feira — o dia mais agitado da semana em todos os sentidos. Quando olho para o relógio, ele marca 6h22. Respiro fundo e me espreguiço devagar, decidida de que, se é para me estressar, então que seja com calma. Levanto e sigo para o banheiro do meu quarto. Felizmente, as casas nos Estados Unidos costumam ser bem completas, por um valor até mais acessível do que eu imaginava, e, graças ao meu emprego, consigo manter aquela casa sem aperto. Depois da higiene, aproveito para tomar um banho rápido. Em seguida, visto minha roupa de academia e prendo meus longos cabelos castanhos avermelhados — tingidos, embora quase ninguém perceba — em um rabo de cavalo. Faço isso bem a tempo de o despertador tocar, sinalizando que também já está na hora de acordar a minha pequena ferinha. Caminho pelo corredor de paredes creme e piso de madeira até a última porta. Abro-a devagar e fico observando, por um instante, meu pequeno e lindo filho dormindo tranquilamente. Só essa cena já basta para me fazer sentir que todo o perrengue que passei valeu a pena. Aproximo-me da cama, sento na beirada e passo a mão por seus cabelos loiros escuros, com carinho. — Thomas, querido, está na hora de acordar. Ele se mexe, resmunga e vira para o outro lado. — Só mais cinco minutos, mamãe... — choraminga, com a voz rouca de sono. Solto uma risadinha. É cômico viver agora, do outro lado, uma cena tão parecida com as que eu costumava protagonizar com a minha mãe. Claro que a resposta dela era bem diferente da minha. Às vezes, chegava a ser quase criminosa. — Não dá, meu amor. Hoje temos muitas coisas para fazer. Preciso que você levante para organizar suas coisas da natação, sim? E temos uma consulta antes de eu te deixar na escola, então preciso mesmo que você se levante. — explico, enquanto me ergo e vou até o interruptor para acender a luz do quarto. Ele resmunga mais um pouco, mas acaba se sentando na cama, esfregando os olhinhos esverdeados com preguiça. — Droga... — reclama, sem perceber que deixou escapar um palavrão. — Olha como fala. E pode parar de dizer essa palavra, ou vai ficar de castigo. — digo, firme, encarando-o com repreensão. Ele se encolhe um pouco, imediatamente envergonhado. — Desculpa, mãe. Não vou falar mais. — Muito bem. — suspiro, começando a sair do quarto. — Vou preparar o café. Não demora, tudo bem? — Tudo bem, mamãe. — responde ele, levantando-se da cama com a lentidão típica de quem ainda queria estar dormindo. Saio do quarto, fecho a porta e desço para a cozinha. Mesmo morando em San Francisco há alguns meses, ainda não consegui me acostumar com muitos dos hábitos alimentares daqui. E Thomas já deixou bem claro que prefere o nosso café da manhã brasileiro. Então preparo pão com frios para ele, corto algumas frutas e, como ele gosta mais de suco do que de leite pela manhã, deixo um copo de suco de laranja pronto na mesa, à sua espera. Também aproveito para organizar sua lancheira: um sanduíche com patê de frango, pedaços de manga cortada, um bolinho de chocolate, um Danone de morango e um suco de maçã. Thomas aparece justamente quando fecho a lancheira. Ele se senta na cadeira de sempre, deixando a mochila da escola e a bolsa da natação na cadeira ao lado. Aproveito para me sentar à sua frente, com minha grande xícara de café com leite nas mãos, e empurro a lancheira na direção dele. — E aí, já decorou suas aulas? — pergunto, antes de dar um gole no café. — Sim. — ele responde, pensando por um instante. — É um pouco diferente a forma como eles dão aula aqui em comparação com o Brasil, mas consegui me adaptar. Sorte a dele. — Que maravilha, filho. E as aulas de leitura? Ainda estão difíceis? — pergunto, mais preocupada do que gostaria de parecer. Às vezes, Thomas chegava em casa cabisbaixo por perceber que sua pronúncia era um pouco diferente da das outras crianças. Ainda assim, ele já sabia muito inglês para a idade. Sempre fiz questão de incentivar isso desde que ele começou a falar, porque, no fundo, minha ideia sempre foi vir para os Estados Unidos. Mesmo assim, a convivência dele com o português sempre foi muito maior, e isso naturalmente dificultou parte do processo. O que ajudou bastante foi o fato de ele ter estudado em uma escola europeia, onde o inglês era estimulado desde o pré-escolar. Por isso, ele consegue se comunicar bem, ainda que com alguma dificuldade aqui e ali. — Um pouco, mas estou me sentindo mais confiante a cada aula. — diz ele, com um orgulho discreto que me faz sorrir. — Fico feliz, filho. Toma seu café rapidinho, sim? Você vai entrar um pouco mais tarde na escola hoje, mas sua consulta é às oito, e não é tão perto. Ele concorda com a cabeça e começa a comer com a calma de quem claramente entendeu a minha fala como você tem todo o tempo do mundo. Preciso me segurar para não rir. Depois do café, pego minha bolsa e ajudo o homenzinho a carregar as coisas até a garagem. O carro já estava do lado de fora, porque eu não o guardei na noite anterior. Abro a porta de trás e coloco a lancheira e a mochila de Thomas no banco. Quando me viro para pegar a bolsa da natação, vejo meu filho sorrindo e acenando para a frente. Sigo seu olhar. Do outro lado da rua, uma garotinha de cabelos pretos sorri e acena de volta. Observo a cena com certa curiosidade. Não me lembro de ter visto sequer uma vez alguém sair daquela casa desde que nos mudamos para cá. E, de repente, há uma menina acenando para o meu filho e uma senhora — que, por algum motivo, me parece estranhamente familiar — parada no gramado. A garotinha percebe meu olhar e sorri, um pouco sem jeito, antes de acenar para mim também. Retribuo, ainda ligeiramente atônita. — Aquela é a Amelie, mamãe. Ela é minha amiga da escola. — diz Thomas, finalmente esclarecendo a situação. — Ah, uma amiga, é? Finalmente fez amigos. E por que não me contou antes que estava fazendo amigos? — pergunto, pegando a bolsa da natação e colocando-a dentro do carro. — Ah, porque eu esqueci... e não estou fazendo amigos. É só ela. — ele dá de ombros, entrando no carro pelo mesmo lado em que eu estava. Bufo, fechando a porta, e olho outra vez para onde a menina estava. Agora, ela já entrou no carro, e eu não consigo ver direito seu rosto, mas ainda a percebo pela janela traseira, olhando em nossa direção com a curiosidade típica das crianças. Aceno rapidamente para ela antes de dar a volta e entrar no banco do motorista, deixando minha bolsa no banco do passageiro. Pelo retrovisor, vejo Thomas já pegando o tablet para assistir a um pouco de desenho durante o trajeto, como gosta de fazer. — Pronto? — pergunto. Ele balança a cabeça, animado. Então engato a marcha e saio com o carro.






