Mundo ficciónIniciar sesiónEloise Campos
Dias depois Hoje era um daqueles dias em que eu não precisava me preocupar tanto com a rotina. Sexta-feira: pouca demanda, Thomas sem aulas extras ou qualquer atividade depois da escola. Além disso, nas últimas duas semanas, ele vinha insistindo em ir e voltar de ônibus escolar — aparentemente para fazer companhia à sua nova amiga —, o que me rendia algumas horas a mais de liberdade. Fui para a academia um pouco mais tarde, terminei com calma o site do cliente, enviei dois contratos de serviço e ainda consegui entrevistar duas garotas para a vaga de assistente. Não que eu tivesse gostado de alguma delas. Em certo momento do dia, cheguei até a cogitar chamar minha melhor amiga, Monique, que ainda está no Brasil, para vir trabalhar comigo aqui. Ela é solteira, não tem filhos e nada realmente a prende lá, exceto seu instinto de sobrevivência absurdamente dramático, que a faz acreditar que vai morrer a qualquer momento dentro de um avião. Preciso pensar em alguma maneira de convencê-la. O dia seguiu relativamente tranquilo até as 15h, quando meu filho entrou em casa. Eu estava na sala, tomando chá enquanto lia um artigo sobre empresas que estavam desenvolvendo um novo software, mas, para minha surpresa, Thomas não estava sozinho. — Mãe, cheguei! — anunciou ele ao passar pela porta. Logo atrás, a garotinha entrou, um pouco encolhida, carregando a mochila em um ombro, o ursinho apertado contra o peito e a timidez quase visível no jeito de andar. — A Amelie veio também. A gente vai fazer um trabalho da feira de ciências. Coloquei a xícara sobre a mesa de centro e me levantei para ir até os dois. — Oh, olá. Acho que ainda não fomos devidamente apresentadas — falei em um tom formal de propósito, mas leve o bastante para parecer brincadeira. — Prazer, Amelie. Eu sou Eloise, mãe do Thomas. — Oi... prazer — ela respondeu baixinho. A voz era fina e suave, mas não estridente como a de algumas crianças. Havia doçura ali. Uma delicadeza que combinava com o jeito cauteloso com que ela me observava. — Tem problema a gente fazer o trabalho aqui, mãe? A Dona Cris falou que não tinha problema eu trazer a Amelie e que ela vem buscar ela às cinco. Pensei por um instante, tentando associar o nome, até me lembrar da senhora que eu havia visto dias antes. Olhei para os dois. Thomas parecia totalmente à vontade, como se tivesse acabado de trazer uma colega qualquer para casa. Já Amelie mantinha os ombros um pouco tensos, como se ainda não soubesse exatamente quanto espaço podia ocupar ali. Eu definitivamente não seria a pessoa a tornar aquilo mais difícil para ela. — Não tem problema nenhum, desde que esteja tudo bem para os responsáveis dela — respondi, sorrindo de um jeito acolhedor. Isso pareceu fazê-la relaxar um pouco. — Aliás, vocês estão com fome? — Muita! — disse Thomas imediatamente, já começando a tirar a mochila e os sapatos com a clara intenção de largar tudo no primeiro lugar possível. — Nem pensar. — apontei para ele com firmeza. — Leve suas coisas para cima, tire o uniforme e depois desça. Enquanto isso, eu e a Amelie vamos preparar alguns sanduíches na cozinha. Thomas soltou um suspiro dramático, mas obedeceu. Antes de subir, olhou para Amelie e disse: — Já volto. Então saiu correndo escada acima. — Thomas, sem correr na escada! — repreendi, antes de voltar minha atenção para a menina à minha frente. Amelie continuava segurando o ursinho com força. Sozinha comigo, parecia um pouco mais nervosa. — Fique tranquila, querida, pode se sentir à vontade. Quer deixar suas coisas no sofá e me ajudar na cozinha? E, se não quiser, tudo bem também. Pode esperar o Thomas sentado no balcão. O que você prefere? Ela pensou por alguns segundos, olhando primeiro para a escada por onde Thomas havia sumido e depois para mim. — Quero ajudar — respondeu, tímida. Então, mais baixo ainda: — Mas eu não sei fazer. Mantive o tom natural, o mesmo que usaria com Thomas, sem fazer disso um problema. Aos poucos, ela parecia se sentir menos acuada. — Tudo bem. Eu te ensino. Pode deixar suas coisas no sofá. Segui para a cozinha enquanto ela deixava a mochila na sala. O ursinho, no entanto, continuou em seus braços. Não perguntei nada. Não era da minha conta, embora eu confessasse para mim mesma uma curiosidade silenciosa sobre aquele apego. — Que tipo de sanduíche você gosta? Com frios, patê, geleia...? — perguntei assim que ela entrou na cozinha, enquanto eu tirava o pão de forma e alguns ingredientes do armário. Ela me observou por um instante, como se organizasse a coragem antes de falar. — Com patê... é aquele que você mandou pro Thomas na segunda? Lembrei do sanduíche de frango, o favorito dele. Pelo visto, não só dele. — Ah, sim, aquele mesmo. Mas tem outros também: de atum, de frios... e alguns mais diferentes, com vegetais ou queijos. Mas o favorito do Thomas é o de frango — expliquei com cuidado, tentando perceber se havia alguma restrição alimentar que ela ainda não tivesse me contado. Ela pensou por mais alguns segundos. — Pode ser de frango? O Thomas me deu um pedaço aquele dia e eu gostei muito. O jeito doce e contido com que ela disse aquilo despertou em mim uma vontade imediata de acolhê-la. E, ao mesmo tempo, de fortalecê-la, como se eu quisesse impedir desde já que o mundo pudesse machucá-la. Controlei esse impulso. — Claro que pode. Por sorte, fiz frango desfiado no almoço — respondi, abrindo a geladeira para pegar o pote e os outros ingredientes. — Quer aprender como faz? Dessa vez, ela assentiu com uma animação bem mais visível. Não chegou a sorrir abertamente, mas seus olhos brilharam de um jeito fácil de notar. Nos quinze minutos seguintes, mostrei as quantidades e expliquei como misturar a maionese, o requeijão, a cenoura ralada, a salsinha, a cebolinha e o milho. Conversamos pouco. Amelie claramente não era uma criança falante, então respeitei o ritmo dela. Thomas voltou quando estávamos passando o patê nos pães, já banhado e vestido com roupas leves, apropriadas para o dia ensolarado de San Francisco. Os dois comeram os sanduíches na sala, tomando suco enquanto pesquisavam no tablet ideias para a feira de ciências. Levavam o trabalho com uma seriedade quase engraçada, daquele tipo que só crianças conseguem ter quando acreditam que um projeto escolar é a coisa mais importante do mundo. Resolvi deixá-los em paz e permaneci na cozinha, por perto, caso precisassem de ajuda. Por volta das 17h05, a campainha tocou. Era a senhora do outro dia. Ela sorriu com gentileza assim que me viu. — Olá, boa tarde. Sou a Cris, babá da senhorita Amelie. Vim buscá-la. — Ah, claro. É um prazer conhecê-la. Eu sou Eloise, mãe do Thomas — respondi, estendendo a mão. Ela a apertou com educação. — Vou chamá-la. Só um instante. Deixei a porta aberta e fui até a sala, onde as crianças conversavam e começavam a se implicar por causa de alguma parte do trabalho. Nenhum dos dois parecia ter notado a hora. — Amelie — chamei com suavidade. Ela ergueu os olhos no mesmo instante. Já não parecia tão encolhida quanto havia chegado. — Sua babá veio buscar você. Ela soltou um suspiro pequeno e assentiu, começando a juntar as coisas. Em poucos instantes, tudo já estava organizado. Thomas ajudou a separar o material, e os dois se apressaram como se quisessem ganhar mais alguns minutos. Amelie veio na minha direção, mas, antes de chegarmos à porta, virou-se para Thomas e disse, com uma firmeza surpreendente para alguém tão tímida: — Você vai ficar com a parte de pintar. — Mas você não vai conseguir apresentar, Amelie — ele respondeu com a certeza direta e sem filtro típica de uma criança de sete anos. Lancei um olhar de repreensão para ele no mesmo instante. Thomas me olhou de volta, confuso. — O quê? Amelie pareceu se abalar. Seus dedos apertaram o ursinho, e por um momento achei que ela fosse responder. Ela até abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Em vez disso, apenas se virou e foi em direção à porta. Suspirei e a acompanhei. Na saída, Amelie não disse nada para a babá, mas segurou a mão dela com firmeza assim que se aproximou. — Obrigada por ficar com ela esta tarde — Cris agradeceu, sempre muito gentil. — Imagina. Eles precisavam fazer o trabalho. Se quiser deixá-la vir para cá até terminarem, por mim está tudo bem. Eu trabalho em casa e isso não me atrapalha em nada — respondi em tom amistoso. — Com certeza. Ajuda muito morarmos em frente uma da outra — ela comentou, em tom leve, e eu soltei uma pequena risada. Então ela olhou para a menina. — Não vai se despedir, senhorita Amelie? Amelie me encarou por um instante e então disse, educadamente, num tom quase ensaiado: — Tchau, senhorita Eloise. Obrigada pelo lanche e por deixar eu ficar aqui. — De nada, Amelie. Pode voltar sempre que quiser. Ela balançou a cabeça, embora sem parecer totalmente convencida de que faria isso com naturalidade. As duas se despediram com um aceno e seguiram pela calçada, atravessando a rua em direção à casa luxuosa. Assim que fechei a porta, voltei para a sala e encontrei meu filho sentado no sofá, olhando para mim com a expressão típica de quem já sabe que fez alguma coisa errada e está só esperando descobrir o tamanho do estrago. Soltei um longo suspiro, sentei ao seu lado e organizei com cuidado as palavras que queria usar. — Você parece gostar bastante da Amelie, filho. Vocês têm uma amizade bonita — comecei, com calma. — Ela é legal — respondeu ele, com a simplicidade objetiva de uma criança. — Mas gostar muito de alguém não dá o direito de decidir o que essa pessoa consegue ou não fazer — continuei, indo direto ao ponto. Ele franziu a testa, frustrado. — Mas eu não decidi, mãe. A Amelie não fala na frente da turma. Ela não gosta quando tem muita gente olhando. Ela já tentou apresentar trabalho antes e passou mal. Aí eu falei porque achei que ia ser melhor. Parei para pensar no que ele estava me dizendo. Eu não sabia exatamente o que significava aquele “passou mal”, mas o simples fato de uma menina de sete anos já demonstrar esse nível de ansiedade me pareceu triste demais. — Entendo, meu amor. Mas já pensou que talvez ela não queira ser assim? Que talvez ela não queira precisar que alguém fale por ela? — perguntei, mantendo a voz suave. — Às vezes, a gente acha que está ajudando, mas acaba escolhendo no lugar da outra pessoa. Se ela quiser tentar apresentar, o que você pode fazer como amigo é apoiar. E, se der errado, aí sim você ajuda, fica do lado dela e mostra que ela pode tentar de novo quando estiver pronta. É isso que os amigos fazem. Thomas não respondeu. Ficou quieto, pensando. Ele sempre faz isso quando alguma coisa o atinge de verdade: se cala, processa, guarda tudo com cuidado e só depois, às vezes horas ou dias mais tarde, me devolve alguma conclusão. Por isso, deixei que ficasse em silêncio. No fim da noite, fiquei parada à janela do meu quarto, observando a escuridão silenciosa do cômodo onde, dias atrás, eu havia visto Amelie entrar. Continuei me perguntando se aquele era mesmo o quarto dela, se naquela noite alguém leria uma história antes de ela dormir, e desejei, em silêncio, que ela continuasse firme.






