Ricardo
Fico de pé por alguns segundos depois que Natália e Vitor se afastam. Não é uma escolha consciente; é um atraso físico, uma falha de comando entre o meu cérebro e os meus músculos. Meu corpo ainda tenta acompanhar algo que já acabou, algo que se dissolveu no ar frio da noite como fumaça. A música do salão volta a preencher o espaço, alta e indiferente, zombando do silêncio absoluto que se instalou dentro de mim.
Sento-me de novo, desajeitado, sentindo-me desalinhado com o mundo ao meu redor. A cadeira raspa no chão de mármore, e o som ecoa como um grito agudo no meio daquela elegância abafada. O café que eu segurava agora está frio. Intocado. Olho para a xícara como se ela pudesse me devolver alguma ordem, alguma dignidade perdida. Mas ela não devolve nada. É apenas porcelana vazia, tão oca quanto eu me sinto agora.
Passo a mão pelo rosto, depois pela nuca, tentando dissipar a tensão. O terno pesa; ele me sufoca. Sempre usei essa roupa como uma armadura, uma segunda pele de po