Natália
Estamos na sala da Ana. O ventilador de teto gira em um ritmo monótono, cortando o ar quente com um ruído rítmico que tenta, sem muito sucesso, dissipar o mormaço da tarde. A janela está escancarada para um fim de tarde preguiçoso demais, tingido por um laranja que parece calmo demais para carregar qualquer tipo de tragédia pessoal. Clara está sentada no chão, as costas apoiadas no estofado do sofá, os dedos deslizam freneticamente pela tela do celular. Ana, por sua vez, é um rastro de movimento inquieto; ela vai e volta da cozinha com uma taça de vinho na mão, destilando reclamações ácidas sobre um cliente insuportável que parece ter decidido arruinar o seu dia.
Eu não escuto direito. As palavras delas chegam até mim como se estivessem sendo filtradas por uma camada espessa de água.
— Você está aí, Nati? — Ana pergunta, surgindo subitamente no batente da porta, a taça erguida como um ponto de interrogação.
— Tô — eu respondo rápido demais, a palavra saindo automática, desprov