As caixas

Ricardo

O porteiro não me chama pelo nome.

Isso me acerta antes mesmo de eu perceber. Uma “boa tarde, senhor” neutro, profissional, como se eu fosse apenas mais alguém atravessando aquele saguão que durante anos respondeu ao som da minha voz.

— Vim buscar algumas caixas — digo.

A frase soa estranha na minha boca. Não pelo conteúdo, mas pela posição que ela me coloca. Eu nunca vim buscar nada. As coisas sempre estiveram onde eu estava.

— O apartamento do senhor… — ele começa, e corrige no meio da frase. — Do doutor Vitor, não é?

Assinto.

Ele confere no sistema. Não pergunta quem empacotou. Não pergunta por quê.

— Pode subir — diz. — Já estão separadas.

Separadas.

O elevador sobe em silêncio. Não penso no prédio. Não penso em quem mora ali agora. Não penso em nada além da palavra caixas, repetindo na minha cabeça como um inventário seco.

Quando a porta se abre, Vitor não está.

Eu já esperava por isso.

A porta do apartamento está destrancada. Entro apenas o suficiente para cumprir o traj
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