Ricardo
O dia começa errado.
Não há atraso. Não há problema concreto. Nada falha objetivamente. Ainda assim, tudo parece ligeiramente deslocado, como um quadro torto que ninguém mais percebe.
Chego cedo à filial. Reuniões, planilhas, decisões. Minha voz sai firme. Minhas ordens são cumpridas.
Mas o corpo não acompanha.
O café tem gosto metálico. Deixo a xícara quase cheia. O estômago aperta sem razão clara. Apoio a mão na mesa mais vezes do que o necessário.
— Está tudo certo? — o gerente pergunta.
— Está — respondo.
Não está.
Abro o whatsapp. Nenhuma mensagem nova. Abro de novo, como se isso pudesse mudar. Fecho.
Sigo.
Durante a tarde, o incômodo cresce. Não vira dor. Não vira crise. Fica ali, constante, como um alarme que não dispara por completo.
Penso nela sem querer.
No jeito como respondia rápido demais. No silêncio recente. Na palavra minha que ficou ecoando desde a última mensagem.
Minha vida.
Como se eu tivesse sido retirado do centro sem aviso.
No fim do expediente, fico soz