O que vem agora

Parte 4...

Ayla Santana

O cais estava quase deserto quando cheguei. Só o som da água batendo nas pilastras e das luzes tremendo por causa do vento. Meu peito ardia de tanto correr, minhas pernas tremiam, mas eu não parei. Olhei em volta, desesperada, procurando qualquer sinal dela.

Foi quando vi.

— Narin… - o nome saiu num fio de voz.

Ela estava ajoelhada no cimento, as mãos presas atrás do corpo, a cabeça baixa. A arma encostava na têmpora dela, segurada por um dos homens. Ele nem piscava. Só mantinha o cano grudado na pele da minha irmã como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

Meu coração deu um pulo.

— NARIN! - gritei sem pensar.

Dei três passos antes de uma mão grande agarrar meu ombro por trás e puxar meu corpo para trás com força suficiente para cortar meu ar. Antes que eu pudesse reagir, a outra mão dele fechou completamente sobre minha boca, abafando meu grito.

— Quietinha. - a voz quente soprou atrás da minha orelha.

Eu me debati, tentei empurrá-lo, tentei morder sua mão, mas ele me segurou ainda mais forte, colando meu corpo ao dele como se eu fosse nada.

— Não faz isso. - ele avisou, e a firmeza da voz parou minhas pernas. — Eles estão nervosos. E se você gritar de novo… Atiram.

Minha respiração virou puro pânico. Meus olhos ardiam olhando para Narin. Ela levantou a cabeça ao ouvir meu grito abafado, os olhos vermelhos, enormes, cheios de terror.

Tentei chamá-la, mas só consegui um som falho contra a mão dele.

Ele me arrastou para trás, me tirando da linha de visão dos outros homens, me empurrando até uma pilastra mais afastada. O vento frio batia no meu rosto, mas o calor da mão dele que tampava minha boca parecia fogo.

— Olha pra mim. - ele ordenou.

Virei o rosto, mesmo tremendo. Os olhos dele eram escuros, como se não refletissem nada.

— Eu disse meia hora. - ele continuou, sem elevar a voz. — Você chegou por pouco.

Tentei falar, implorar, qualquer coisa, mas ele só apertou minha boca mais um pouco.

— Não se preocupa. - murmurou perto demais. — A gente vai conversar primeiro.

Minha pele arrepiou de terror, não de toque. De ameaça. Ele tirou a mão devagar, mas manteve a outra em minha nuca, segurando como se eu fosse fugir.

— Se gritar, se correr, se fizer qualquer coisa que eu não gosto… - ele inclinou a cabeça para o lado, os olhos fixando em Narin sendo segurada pela arma. — É ela quem paga. Entendeu?

Meus lábios tremeram.

— S-sim… Por favor… - consegui sussurrar. — Não machuca ela… Eu faço o que você quiser… Mas não encosta nela…

Ele segurou meu queixo entre os dedos, levantando meu rosto sem nenhuma delicadeza.

— Ótimo. – vi um sorriso de canto. — Então vamos conversar.

Ele me puxou pelo braço, me guiando com força para outro canto escuro do cais, longe o bastante para que eu só visse a silhueta de Narin e o brilho metálico da arma.

O som das ondas batendo tomou o resto. O que viria agora era por mim. E eu não sei se tenho como sair dessa.

***** *****

Ele me empurrou contra a parede úmida do cais, não com violência cega, mas com um controle assustador. Suas mãos eram grandes, firmes, quentes demais para aquela noite fria. Eu sentia o cheiro dele, algo amadeirado, escuro, que contrastava com o cheiro de óleo e água salgada ao redor.

Eu tremia. Mas meu corpo não sabia diferenciar medo de choque, de raiva, de presença. Eu ainda não me acordei para o que está acontecendo aqui.

Ele ficou perto demais. A sombra do rosto dele quase tocava a minha.

— Vamos lá. - ele falou, a voz baixa, grossa, segura. — Você queria falar comigo. Fale.

— Solta a minha irmã. - minha voz saiu rouca, mas firme. — Ela não fez nada. Ela só… Só passou no lugar errado. Não tem o direito de fazer isso.

Ele inclinou levemente a cabeça, como se estivesse avaliando cada detalhe do meu rosto. Não piscava. Não respirava fundo. Nada nele era humano o bastante para parecer afetado.

Mas seus olhos tinham algo. Algo quente por baixo do gelo. Ou eu estava desesperada demais e vendo coisas que não existiam.

— Ela viu o que não devia - ele disse. — E quem vê, paga.

— Eu pago! - explodi, empurrando seu peito sem pensar. — Eu sou a mais velha – ergui o queixo.

Ele me prendeu de volta contra a parede no mesmo segundo, um braço travado ao lado da minha cabeça, o corpo próximo suficiente para meu coração perder o ritmo.

Se quisesse, ele poderia quebrar meu pescoço. Mas não quebrou. Graças a Deus.

Ele só ficou ali. Olhando. Como se eu tivesse chamado sua atenção. Como se eu tivesse feito algo que ninguém fazia com ele. Respirei fundo várias vezes. Sinto todo meu corpo elétrico.

— Você tem coragem demais pra alguém que está nas minhas mãos. - ele murmurou, os olhos descendo para minha boca.

Meu estômago revirou. O ar ficou pesado. Minha pele ficou quente. E eu quis odiar isso. Eu odiava isso.

— Não é coragem. - sussurrei. — É desespero. É minha família. – limpei a garganta, querendo tossir.

O olhar dele mudou por um segundo. Um segundo. Como se a palavra “família” tivesse apertado alguma coisa dentro dele. Mas ele rapidamente fechou o rosto novamente.

— Então vamos à negociação. - passou a mão pelo meu braço e me puxou um passo para frente, obrigando meu corpo a segui-lo. — O que você oferece?

— Qualquer coisa. - falei, quase sem voz e sem pensar direito. — Qualquer coisa que não destrua Narin, e nem minha tia.

Ele aproximou o rosto do meu, tão perto que eu senti sua respiração quente tocar minha pele.

— É perigoso dizer “qualquer coisa”. - disse, e seu olhar percorreu meu rosto devagar. — Homens como eu levam isso ao pé da letra.

Meu coração disparou, mas meus pés ficaram firmes no chão.

— Então leve. – falei dom medo e raiva. — Mas deixe ela ir. Tenho certeza de que pode fazer isso.

O sorriso dele foi pequeno. Quase imperceptível. Mas estava lá. Um sorriso curto, torto, puxado por apenas um lado.

— Você me intriga. - ele disse.

Eu estremeci.

Ele soltou meu braço, mas não se afastou. Pelo contrário, a falta do toque pareceu pior, como se algo tivesse ficado preso entre nós.

— Você vai trabalhar para mim. - ele anunciou, a voz dura de novo. — Para minha família. Vai morar onde eu mandar. Vai seguir minhas regras. Vai obedecer. Sempre.

Minha garganta fechou. Trabalhar para ele. Servir a família dele. Eu… Presa. Narin… livre.

Era isso.

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