Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 5...
Ayla Santana
— Minha tia está doente. - eu consegui dizer, juntando forças para manter minha voz firme. — Ela tem crises graves. Toma remédios caros. Eu trabalho em três lugares. Eu… Eu não posso simplesmente desaparecer. Elas precisam de mim.
Ele ficou em silêncio. Não do tipo cruel, mas do tipo avaliador. Seus olhos percorreram meu rosto como se estivesse escutando cada palavra.
— Doença? - ele repetiu, lentamente. — Idade?
— Cinquenta e nove.
Ele assentiu com um leve movimento de queixo.
— Alguém cuida dela quando você não está?
— Narin. - respondi. — Mas você está levando ela.
— Então contratamos alguém pra cuidar da velha. - ele disse simplesmente.
Eu arregalei os olhos.
— Eu… O quê disse?
— Você ouviu. - aproximou o rosto mais ainda, de modo quase íntimo, quase proibido.
— Você trabalha pra mim. Eu cuido do resto.
Aquilo não era bondade. Não era compaixão.
Era… Controle. Total. E ainda assim, meu corpo sentiu um alívio indecente. Vergonhoso.— Quer sua irmã viva. - ele continuou. — Então mantenha sua palavra. Disse que faria qualquer coisa – inclinou a cabeça para mim, mirando minha boca.
— Eu mantenho. - respondi. — Mas quero saber do que se trata antes. – ele sorriu — Tenho o direito de saber no que estou me metendo, não tenho?
— Isso depende.
— De que?
— De mim, é claro – segurou uma mecha de meu cabelo.
— Você disse que a opção seria eu pagar pelo que minha irmã viu... Eu disse que pago.
— Ótimo. - murmurou.
Sua mão subiu até meu queixo. Não apertou. Não machucou. Mas segurou firme o suficiente para que eu sentisse cada batida do meu coração ecoar no pescoço.
Ele me obrigou a olhar diretamente nos olhos dele. E ali, por um instante, algo quente passou pelo olhar dele. Um brilho. Um interesse. Em que, eu não sei.
— Você tem uma coisa que eu não vejo faz tempo. - ele disse, quase em um sussurro grave.
— O quê? - eu mal respirei.
Ele aproximou os lábios do meu ouvido, sua voz roçando minha pele.
— Fogo.
Um arrepio inteiro percorreu minha coluna. Ele afastou o rosto lentamente, como se quisesse ver minha reação. Depois se virou de costas e começou a andar na direção de Narin novamente.
— Emir! - um dos homens chamou. — O que fazemos com a garota?
Ele levantou a mão, interrompendo qualquer ação, sem nem olhar para trás.
— Soltem ela. – ordenou — Ela agora pertence à família Navarro.
Meu estômago afundou. Narin soluçou, sem entender nada. Eu dei um passo à frente, mas parei quando ele virou levemente o rosto na minha direção.
— Amanhã cedo. - ele disse. — Eu vou buscar você.
— O quê? - minha voz falhou.
Ele olhou direto nos meus olhos.
— Amanhã. Cedíssimo. Esteja pronta e não tente fugir. Nem pense em falar com alguém e menos ainda com a polícia. Me entendeu? – eu engoli em seco — Não vai gostar do que farei com vocês, se me traírem.
— N-não vamos falar com ninguém.
— Acho bom, para sua saúde – fez um gesto com a mão e os homens soltaram Narin. Ela tropeçou, correu até mim e caiu nos meus braços chorando.
Eu a abracei com força, sentindo o cheiro dela, o tremor dela, quase igual ao meu. Quando ergui o rosto vi a expressão dele diferente.
— Vai nos deixar ir agora?
— Meu homem vai levar vocês – apontou para um meio careca com cara de cobra — Vão para casa. Amanhã conversaremos mais sobre os detalhes.
***** *****
Eu sentia o peso daquele olhar queimando minhas costas enquanto eu puxava Narin pela mão, quase arrastando, tentando manter meu corpo firme para que ela não desabasse no chão de tão fraca que estava.
O homem do meio fio abriu a porta do carro sem dizer nada. Empurrei Narin para dentro e entrei logo atrás. Ela caiu contra mim no banco traseiro, soluçando, as mãos geladas agarradas na minha blusa.
A porta bateu. Só então o carro começou a andar. O homem no banco da frente, o “cobra”, virou só o rosto, sem mexer o corpo.
— Caladas - avisou. — Até chegar. Qualquer chorinho alto demais, eu paro o carro e as duas voltam pra lá. Entenderam?
Puxei Narin mais para o meu peito.
— Fica quietinha - murmurei no ouvido dela. — Não olha pra ele. Só respira.
Ela escondia o rosto no meu pescoço, o choro abafado contra a minha pele. Eu passava a mão no cabelo dela, tentando controlar meu próprio tremor. A cada ruído do carro, ela se encolhia mais.
O “cobra” dirigia rápido, sem música, sem GPS, sem nada. Só o som do motor e o choro engolido de Narin. Quando parou na frente da nossa casa, ele não desligou o carro. Virou o rosto de novo.
— Amanhã, sete da manhã. Nada de sumir. Nada de papo com vizinho, polícia, padre, cachorro, ninguém. Boca fechada, porque minha paciência é curta. Aprontem-se cedo e não cometam nenhuma bobagem.
— A gente não vai… Não vamos fazer nada - respondi, a voz falhando.
— Espero que não - ele sorriu torto, sem humor. — O chefe foi gentil demais hoje. Sorte de vocês.
Abriu o vidro do passageiro, olhou pela rua como se avaliasse riscos e depois fez um gesto com a cabeça.
— Podem descer.
Abri a porta com a mão trêmula e puxei Narin para fora.
O carro arrancou antes que eu fechasse totalmente a porta atrás de mim. A rua inteira parecia comprimida, silenciosa, como se tivesse visto tudo.Entrei com Narin agarrada no meu braço.
Fechei a porta. Tranquei. Encostei as costas nela e respirei uma vez, curta, ruim, como se o ar tivesse ficado estreito demais.— Vai… Vai dar o remédio da tia. Vai - pedi, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela.
Ela assentiu rápido, ainda soluçando, e correu pelo corredor até o quarto da tia. Eu caminhei até o meu. Joguei meus sapatos para qualquer canto, apaguei a luz e desabei sentada na beirada da cama, com as mãos no rosto.
O cheiro de rua, de medo, de suor frio grudado no corpo. Os dedos latejando do quanto eu os apertei. Minutos depois, Narin entrou devagar. Os olhos dela estavam vermelhos, a respiração curta.
— Ayla… - ela fechou a porta atrás de si e escorregou até o chão, sentando com as pernas cruzadas como quando era pequena. — Ayla, eu… Eu vi ele… Ele deu um tiro… O homem caiu no chão…
A voz quebrou. Fui para o lado dela e a puxei para um abraço forte.
— Tá tudo bem, você tá aqui. Fala devagar, tá? - pedi, segurando o rosto dela entre minhas mãos.
— Eu tava voltando da farmácia… - começou a falar rápido, chorando — E eu ouvi um barulho. Eu achei que fosse briga de rua, mas… Ayla… Ele puxou o homem pelo colarinho… e… E o outro segurava uma arma. Eu fiquei parada porque eu não sabia se corria… E aí o tiro… - ela levou as mãos aos ouvidos. — Ayla, eu ouvi o barulho tão perto…
Aproximei ela mais de mim.
— Shh, tá tudo bem, eu tô aqui. Continua.
— O homem caiu no chão… O outro… O de terno… Mandava neles... O outro empurrou o corpo pra dentro da caminhonete. Eu fiquei travada. Aí um deles me viu. Eles olharam pra mim como se eu fosse um… Um bicho. Eu achei que ia morrer, Ayla. Eu achei que ia morrer ali mesmo.
As lágrimas caíam no meu pescoço, esquentando minha pele.
— Calma, amor. Calma.
— A gente precisa chamar a polícia - ela disse, de repente, agarrando meu braço. — Ayla, aquilo foi assassinato. Assassinato! Ele matou um homem, Ayla! A gente tem que falar com alguém!
— Não! - a palavra saiu antes de eu pensar. — Narin, não. Não podemos. De modo algum.
— Como não? - ela se afastou um pouco, encarando meu rosto. — Eles vão ficar soltos? Eles vão continuar matando gente? Eu vi, Ayla! Nós sabemos da verdade.







