Mundo de ficçãoIniciar sessãoJade Moraes assinou o contrato sem ler a cláusula doze. Cinquenta mil reais por mês. A mãe em quimioterapia. O aluguel atrasado. Ela não tinha escolha — ou pelo menos foi o que se disse enquanto a caneta ainda tremia. Só descobriu o tamanho do erro quando tentou sair: multa de cinco milhões. Vídeos falsos com o próprio rosto. Meio Brasil apostando porque confiava nela. E um homem que ela nunca tinha visto antes sabendo o nome da oncologista da mãe dela. Rafael Lima não existe na internet. Sem foto, sem rede social, sem histórico. É o único nome que ninguém no país conseguiu colocar em rosto e quando a Operação Tigre cercou o prédio, foi exatamente esse homem que apareceu na porta dela dizendo que precisavam conversar. Agora estão presos num cobertura em São Paulo. A polícia no andar de baixo. O ex dela usando a investigação como arma. E uma HD com evidências que podem destruir os dois ou salvar. O problema é que ele já sabia tudo sobre ela antes de ela saber o nome dele. Que a mãe estava doente. Que a melhor amiga estava apostando. Que ela assinou sem ler a cláusula doze. E que mesmo assim ela não tinha ido embora quando teve a chance. Ele controla o jogo. Ela mudou as regras. O Dono do Tigrinho — Apostas do Coração, Livro 1
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O e-mail chegou às 23h47. Jade só viu porque o notebook ainda estava aberto na cama, iluminando o quarto com aquela luz azul. O cabelo estava preso de qualquer jeito, o tipo de rabo de cavalo que não organiza nada, só finge que sim. Na tela, a planilha continuava aberta: seguidores, alcance, propostas recusadas, propostas aceitas, contas a pagar. Ela tinha parado de atualizar essa última coluna há três semanas. O número era o mesmo. Os boletos não eram. O assunto do e-mail era simples: Proposta de parceria — Tiger Bet. Ela deixou a mensagem aberta alguns segundos antes de clicar. Era um contrato em P*F. Dezesseis páginas, fonte doze, linguagem de advogado. Jade leu a primeira página devagar. A segunda um pouco mais rápido. A partir da quinta, Jade já não estava lendo como leitura. Estava procurando o que importava. Dinheiro. E encontrou. R$50.000 por mês, conforme discutido e confirmado por telefone com o advogado que ela havia conversado naquela tarde. Ela não chegou à página doze. A empresa tinha CNPJ. Tinha escritório no Faria Lima; ela tinha ligado para o número do rodapé naquela mesma tarde, e uma recepcionista atendeu no segundo toque, voz profissional, "Tiger Bet, boa tarde, como posso ajudar?", e Jade tinha pedido para falar com o responsável pelo contrato de influenciadores e o responsável tinha atendido em noventa segundos, sem hesitar, sem fazer ela sentir que estava pedindo demais. Tinha advogado com OAB no cabeçalho. Tinha cláusulas que ela reconhecia de outros contratos de exclusividade, direitos de imagem, prazo de entrega, rescisão. Parecia legítimo da forma que as coisas legítimas pareciam quando ela queria que fossem. Tinha a cláusula 12. No meio da página onze. Em fonte idêntica às outras, sem destaque, sem aviso. Rayssa estava no sofá com o celular na mão, a tela iluminando o rosto na sala escura. Jade saiu do quarto com o notebook debaixo do braço, sentou na mesa da cozinha. Nenhuma das duas comentou nada. Pensou no print que a mãe tinha mandado duas semanas antes, o resultado do exame, o nome do médico no canto, o valor da próxima sessão destacado em azul pelo aplicativo do hospital. Azul, não vermelho, como se a cor fosse fazer diferença. Lembrou da fatura do aluguel em aberto. Lembrou que tinha recusado três propostas em dois meses porque as três tinham algo errado; produto duvidoso, cláusula estranha, empresa sem histórico e que recusar tinha sido o certo a fazer, e que recusar tinha custado caro. Mas não dava pra continuar recusando. R$50.000 por mês. Jade leu o contrato pela segunda vez. — Você vai aceitar isso? Jade não respondeu de imediato. Passou os olhos pela tela como se ainda estivesse em análise. — Ainda tô vendo. Quando levantou os olhos, Rayssa já tinha voltado pro celular. Voltou pro contrato. Tudo seguia dentro do esperado. Nada fora do padrão suficiente pra justificar um “não”. Terceira leitura. Mais devagar dessa vez, cláusula 7 em diante. Exclusividade de plataforma: não podia promover concorrente direto pelo período de doze meses. Normal. Prazo de entrega de conteúdo: dez vídeos por mês, formato especificado, aprovação prévia da contratante. Um pouco engessado, mas nada fora do padrão. Obrigações de divulgação nos stories e no feed, frequência mínima de três posts semanais, link na bio durante toda a vigência. Ela foi marcando mentalmente o que era padrão e o que precisava de atenção. Havia multa por rescisão antecipada, o advogado tinha passado por cima disso rápido demais, mas todo contrato tinha multa, e R$50.000 por mês deixava qualquer multa aceitável. Era o tipo de raciocínio que faz sentido quando você precisa que faça. Página onze. Ela rolou a tela. O celular vibrou na mesa. A mãe. Uma foto tirada no corredor do hospital, a luz fria do teto, a legenda em letras pequenas: boa noite minha filha. A médica disse que tô respondendo bem ao tratamento ❤️ Jade ficou olhando pra foto. Pro corredor. Pro emoji de coração. Fechou o celular. Voltou pro contrato. Passou pela cláusula 12, o título denso, cheio de remissões, o tipo de coisa que parecia mais burocrática que importante. Rolou pra última página. A assinatura eletrônica era um campo simples. Nome completo, CPF, data. O sistema gerou automaticamente: 23 de outubro, 23h47. Jade digitou o nome. Digitou o CPF. Ficou dois segundos com o dedo sobre o trackpad. Tinha prometido pra si mesma, aos dezoito anos, na rodoviária de Fortaleza com uma mochila e R$300 na carteira, que nunca ia depender de ninguém pra pagar conta de hospital. Que nunca ia vender a própria imagem pra coisa que não acreditava. Que ia escolher com cuidado, sempre com cuidado, porque escolher errado custava caro e ela já sabia como era pagar esse preço. Tinha prometido isso. Clicou em confirmar. A confirmação chegou trinta segundos depois. P*F assinado anexado, cópia pro e-mail cadastrado, primeira parcela liberada em até quarenta e oito horas úteis. Jade estava fechando o notebook quando viu a última linha da mensagem. Não se preocupe com a cláusula 12. Ela abriu o contrato de novo. Rolou pra página onze. Leu. A mão parou antes de ela mandar o cérebro parar."...multa rescisória no valor de R$5.000.000,00 (cinco milhões de reais)..." Cinco milhões. Ela tinha R$847,23 na conta. Tinha mãe em tratamento. Tinha aluguel atrasado. Tinha assinado trinta segundos atrás. O apartamento continuou igual. Rayssa continuou no sofá. Lá fora, um caminhão de lixo roncou na rua, engatou a ré, fez aquele bipe repetido que ninguém na cidade escuta mais. Jade fechou o notebook. Não se mexeu. O apartamento continuou escuro. O bipe do caminhão tinha ido embora. O apartamento estava em silêncio e ela ainda não tinha piscado."Não se preocupe com a cláusula 12."POV: RAFAEL O chiado estático do rádio cortou o ar abafado da cozinha. A mão de Rafael saiu do rosto de Jade no mesmo instante. O calor da pele dela ainda estava na ponta do polegar quando o resto do corpo já tinha voltado pro modo de combate. Deu um passo pra trás, zerando a proximidade que quase tinha engolido os dois, e desceu a mão direita pra empunhadura da submetralhadora presa na bandoleira. Do outro lado do galpão, Igor já estava de pé. O ombro recém-costurado repuxava a postura dele pra frente, o rosto branco e suado sob a luz fraca, mas a Glock firme na mão direita. — Câmera três cortou, Rafael — Igor repetiu, a voz áspera, mastigando a dor pra continuar funcional. — O alarme de ruptura da corrente da estrada disparou logo depois. Alguém forçou o perímetro. Rafael não respondeu. Foi até a mesa central e puxou o tablet de monitoramento. As quatro câmeras externas estavam em visão noturna termal. A lente três só mostrava chuvisco cinza. A quatro, apontada pra trilha de
POV: JADE Acordei com as costas inteira doendo. O nylon áspero da cama de armar tinha marcado minha pele por cima da roupa. O bunker não tinha manhã. Sem janela pra avisar que o sol tinha nascido lá fora, sem barulho de trânsito. Só o relógio digital do gerador e o zumbido do ar circulando pelos dutos do teto. O cheiro de cimento frio, poeira e iodo grudava em tudo. Igor ainda roncava baixo no canto, deitado de barriga pra cima, o braço esquerdo imobilizado sobre o peito. A respiração dele estava mais limpa que na noite anterior. O analgésico ainda segurava a dor. Rafael já estava de pé. Sem paletó, sem a jaqueta tática manchada de sangue. Só a camisa preta de manga curta, o curativo branco evidente contra a pele do braço direito. Estava na bancada perto do fogareiro, organizando latas de suprimento com uma economia de movimento que já me irritava. O telefone via satélite continuava em cima da mesa, exatamente onde ele tinha deixado de madrugada. Fui até a pia de lata en
POV: RAFAELO estrondo metálico vibrou no piso de cimento queimado do esconderijo.Igor fechou os olhos e apoiou a nuca na parede, recusando-se a virar o rosto pro fundo do galpão. Jade recuou meio passo, a mão esbarrando na borda da mesa, o corpo inteiro travando pra receber o impacto de uma invasão que não veio.Rafael não sacou a arma.Terminou de fechar o curativo no próprio antebraço, alisou a fita microporosa sobre a pele e baixou a manga rasgada da camisa preta.— É o duto de exaustão — disse, no tom plano de sempre. — A pressão interna muda quando a porta principal é selada com as trancas hidráulicas. O ar do galpão empurra a chapa de contenção lá no fundo.Jade continuou olhando pra estrutura de ferro no final do bunker.— Parecia alguém forçando a entrada com um pé de cabra.— Se alguém forçasse a entrada por ali, a gente já estaria soterrado. Atrás daquela parede tem quarenta metros de rocha sólida.Ele caminhou até o fundo do galpão. O olhar de Jade acompanhou as botas del
POV: JADE Igor encostou a cabeça na parede de concreto cru e fechou os olhos. A respiração ainda sibilava pelo nariz, puxando o ar devagar pra não forçar o ombro recém-costurado. Engoliu dois comprimidos a seco, jogou a cartela amassada em cima da mesa e não disse mais nada. Rafael cortou o resto do fio de nylon. Jogou a agulha suja no lixo plástico e começou a limpar a mesa com a gaze de iodo. O cheiro do bunker era pesado. Cimento velho, poeira, álcool, ferrugem, sangue. Grudava no fundo da garganta. Fiquei parada do outro lado da mesa, braços cruzados pra minhas mãos não tremerem. Acompanhei Rafael guardando os restos de curativo na caixa verde com uma eficiência mecânica. Foi aí que eu vi. O sangue escuro na jaqueta e no paletó dele não estava todo seco. No antebraço direito, o tecido brilhava diferente sob a luz amarela. Úmido. Uma gota grossa desceu pelo punho, escorregou pela luva tática e pingou no cimento. Uma. Duas. — O seu braço — falei, e minha voz saiu mais alta





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