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Capítulo 5 — Conta Demo

JADE

A pesquisa começou às dez da manhã de uma terça-feira.

Jade estava na mesa da cozinha com o notebook aberto e o café esfriando ao lado. Não queria entender nada. Queria achar uma brecha. Uma saída. Alguma coisa que fizesse a cláusula 12 parecer menos real do que o número dizia.

Digitou:

Tigrinho fraude.

Os resultados carregaram em dois segundos.

Não era um fórum obscuro.

Era Reclame Aqui com mais de mil reclamações.

Era Reddit com threads no topo da busca.

Era um vídeo no YouTube com centenas de milhares de visualizações e thumbnail de homem desesperado segurando a cabeça.

Jade abriu o primeiro link.

Perdi R$2.300 em dois dias. O saque nunca processa.

Sem resposta da empresa.

Não resolvido.

Abriu o seguinte.

Meu marido apostou R$6.000 esse mês. Não dorme mais. Como cancela a conta?

Depois outro.

Conta demo. Procurem esse termo. O dinheiro dos vídeos não existe.

Jade parou nesse.

Leu duas vezes.

Conta demo.

Ela conhecia o termo. Claro que conhecia. O celular do estúdio. O saldo falso. A interface laranja e preta piscando na mão dela enquanto Henrique mandava repetir o sorriso.

Desceu mais.

O Reddit tinha uma thread com centenas de comentários.

O terceiro nome da lista era o dela.

Abaixo, o thumbnail do vídeo.

GANHEI R$5.000 EM 3 MINUTOS 🐯🔥

O sorriso que Henrique tinha mandado segurar um segundo a mais.

Os comentários abaixo do nome dela:

"Essa aqui fez três vídeos já. Tá recebendo bem."

"Alguém tem o contato dela?"

"Destruiu minha família."

Esse último não tinha resposta.

Não precisava.

Jade fechou o notebook.

Ficou olhando pro tampo da mesa sem realmente ver nada.

Depois abriu de novo.

Dessa vez não foi para continuar lendo comentário. Foi para procurar saída.

Digitou:

advogado contrato digital São Paulo.

Os resultados vieram cheios de escritório bonito, foto de homem sorrindo de terno, páginas com promessa de “análise estratégica”, “consultoria jurídica personalizada”, “urgência em casos empresariais”.

Abriu um.

Fechou.

Abriu outro.

Fechou.

Os valores estavam todos ali, escancarados. Consulta, retorno, parecer, hora técnica. Coisa demais pra quem tinha R$50 mil na conta e uma mãe em tratamento. Coisa demais pra quem tinha acabado de descobrir que a empresa sabia onde ela estava antes mesmo de ela terminar de pensar.

Jade respirou fundo pelo nariz.

Abriu o Street View do endereço que aparecia no contrato.

O prédio estava lá.

Só que não.

A fachada existia. A placa não. A recepção não. O movimento de gente não. A firma que tinha falado com ela na tarde da proposta cabia inteira numa imagem bonita demais para ser útil.

Ela fechou a aba.

Abriu de novo.

Pesquisa diferente.

CNPJ Tiger Bet.

endereço empresa não encontrada.

consultar contrato multa 5 milhões.

Cada resultado parecia menos uma resposta e mais uma parede.

Jade ficou de pé sem perceber quando tinha levantado.

A cadeira raspou no piso.

O ventilador que Rayssa deixou ligado no quarto fazia um ruído baixo, contínuo, vindo do corredor. A porta dela continuava fechada.

Jade abriu outra aba.

Procurou o nome do advogado.

Nada que prestasse.

Procurou o escritório.

Nada.

Procurou o telefone do contrato.

Caixa postal.

Mandou e-mail.

Resposta automática em menos de um minuto:

Este endereço não existe mais neste domínio.

Ela ficou olhando para a frase.

Não era possível ser tão limpo.

Tão rápido.

Tão vazio.

Abriu o celular. Procurou outro número. Outro contato. Outra saída. Não encontrava nada que parecesse caminho real. Só homens de terno em foto de banco de imagem e promessas de atendimento em horário comercial.

Fechou o celular com força demais.

A tampa do notebook tremia um pouco quando ela abriu de novo.

O barulho de uma obra subia da rua, entrando pela janela da cozinha, martelando o prédio do outro lado sem parar.

Jade digitou de novo.

Não mais como quem busca prova. Como quem tenta provar para si mesma que ainda existe alguma coisa do lado de fora da armadilha.

Quando o resultado do Street View apareceu outra vez, ela encarou o prédio vazio como se ele fosse responder.

Nada.

Fechou o notebook.

Abriu de novo.

Pesquisa seguinte: advogado especialista em contrato digital São Paulo.

Um nome apareceu com valor de consulta logo abaixo.

Jade leu.

Fechou a aba.

Abriu de novo.

Leu o número outra vez.

Fechou.

O estômago apertou.

A mãe tinha terminado a segunda sessão de quimioterapia na semana anterior e mandado áudio dizendo que a médica estava satisfeita com os resultados.

O aluguel estava pago.

Ela tinha cinquenta mil na conta.

E isso tudo continuava longe demais de cinco milhões.

O celular vibrou na mesa.

Número do escritório.

Jade atendeu sem pensar.

— Sra. Moraes.

A voz era a mesma.

Calma.

Educada.

Cara.

— Percebo que está tentando contato com a empresa.

Jade não respondeu.

— Quero aproveitar para um lembrete de rotina. A cláusula 12 prevê multa rescisória de cinco milhões de reais em caso de quebra das obrigações de confidencialidade e não-divulgação. Isso inclui declarações públicas, contato com imprensa e qualquer comunicação que prejudique a reputação da contratante.

Jade olhou pro notebook aberto.

O terceiro nome da lista ainda era o dela.

— Só um lembrete — ele repetiu. — Tenha um ótimo dia.

A ligação encerrou.

Jade colocou o celular sobre a mesa.

Olhou pro notebook.

Depois pro café frio.

Cinco milhões.

Ela tinha cinquenta mil na conta.

Fechou o notebook.

O apartamento continuou menor do que precisava ser.

O celular ficou entre ela e a xícara esquecida na mesa.

O mesmo número tinha ficado fora de serviço dez minutos antes.

E mesmo assim sabia exatamente o que ela tinha pesquisado.

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