Mundo ficciónIniciar sesiónRAFAEL
5h03 da manhã.
SP ainda estava naquele roxo sujo de antes do amanhecer, o céu indeciso, os carros na Faria Lima mais espaçados, o silêncio com textura de coisa que respira.
Rafael estava no terraço com o café.
Sempre o mesmo: coado na hora, sem açúcar, xícara branca de uma linha descontinuada que a mãe usava quando ele tinha onze anos e ela ainda achava que podia comprar coisas bonitas. Ele tinha achado o modelo num sebo online três anos atrás e comprado doze. Nunca tinha contado isso pra ninguém porque não havia nada pra contar, era só uma xícara.
Sem celular. Sem notebook. Sem Igor.
Seis minutos por dia em que Rafael Lima não existia pra ninguém.
Igor entrou às 5h09 sem bater.
Nunca batia. Rafael tinha parado de reclamar disso por volta de 2022.
Colocou a pasta fina na mesa do terraço ao lado da xícara, acendeu o cigarro antes de falar, o que significava que a notícia não era urgente, só relevante.
— A influenciadora assinou.
Rafael não respondeu imediatamente. Tomou o último gole do café. Olhou pra cidade por dois segundos. Depois pegou a pasta.
Relatório padrão: nome completo, CPF, endereço, histórico profissional, métricas dos últimos doze meses. Foto do I*******m no topo; sorriso de câmera, cabelo cacheado, expressão que prometia algo sem dizer o quê.
Jade Moraes. 23 anos. Fortaleza, CE. Mora em SP desde os dezoito.
Rafael abriu o celular. Tinha a conta dela salva desde a semana passada, quando o nome apareceu na lista que Igor montou. Cento e oitenta mil seguidores. Taxa de engajamento acima da média. Audiência entre vinte e trinta e dois anos, maioria feminina, perfil B e C.
Exatamente o que o algoritmo precisava.
Ele foi no primeiro vídeo.
Ela estava numa academia. Legging preta, camiseta cortada, cabelo preso de qualquer jeito. Falava com a câmera com a naturalidade de quem faz isso há tempo suficiente pra não pensar mais em fazer; receita de proteico, rotina de treino, "ficou boa dessa vez, juro, não tô mentindo não", e ria no final da frase de um jeito que parecia que ela mesma não esperava a própria graça.
Rafael passou pro próximo.
Esse era mais antigo. Luz quente, qualidade ruim, ela num corredor de apartamento pequeno. Não era conteúdo profissional, era pessoal. Jade tinha acabado de voltar de Fortaleza, a voz ainda um pouco embargada. "Minha mãe terminou a primeira sessão. A médica disse que foi bem." Ela sorriu. O sorriso não chegou nos olhos. "É isso. A gente se fala."
O vídeo tinha 47 segundos.
Ela não postou mais nada sobre a mãe depois disso.
Rafael fechou o app.
Ela tem os olhos da minha mãe, o pensamento apareceu antes de ser convidado.
Ele ignorou.
Não eram os vídeos do Tiger Bet que importavam, esses ele nem precisava assistir, sabia exatamente o que iam mostrar porque a equipe seguia roteiro fechado, banca fria, conta demo, ganhei em três minutos, link na bio. Padrão. Funcionava.
Eram os outros. Os confessos. As frestas.
Igor estava encostado no batente da porta do terraço, fumando, olhando pro horizonte com a expressão de quem não estava prestando atenção em nada.
O que significava que estava prestando atenção em tudo.
— Ela tem mãe com problema de saúde — Rafael disse, sem tirar o olhar do celular. — Mora com uma amiga em Pinheiros. Ex-namorado na indústria de criadores. Conta no vermelho há pelo menos quatro meses.
— Eu sei. Tá no relatório.
— Eu sei que tá no relatório.
Igor deu uma tragada longa. Soltou a fumaça devagar. Não perguntou mais nada o que era, à sua maneira, uma forma de perguntar tudo.
Rafael fechou o celular. Pegou a pasta e abriu na última página, campo de confirmação, assinatura digital gerada às 23h47.
Jade Moraes.
— Libera a produção. E me manda a agenda completa dela.
Igor saiu.
Rafael ficou no terraço mais cinco minutos, fora do padrão, o padrão era fechar a pasta e ir trabalhar. O céu tinha mudado pra laranja sujo nas bordas. SP acordando lá embaixo, o barulho crescendo devagar.
Ele levantou. Pegou a pasta. A xícara.
Antes de entrar, parou.
Abriu o celular de novo. O vídeo dos 47 segundos, a voz embargada, o sorriso que não enganava ninguém.
Assistiu até o final.
Fechou.
Foi trabalhar.
Às 5h47, Igor estava no corredor do décimo sétimo andar sozinho.
O elevador demorava. Ele aproveitou.
Tirou o segundo celular do bolso, o que Rafael não sabia que existia. Capa preta fosca, nenhum aplicativo de rede social, só contatos. Digitou rápido.
Ela assinou. Fernanda vai querer saber.
Mandou. Guardou no bolso interno do paletó.
O elevador chegou.
Três andares acima, Rafael estava de frente pro monitor com os números da noite rodando na tela. A pasta de Jade Moraes continuava aberta sobre a mesa, ao lado da xícara que ele ainda não tinha guardado.
Pegou o celular.
Abriu o I*******m dela.
Dessa vez não foi nos vídeos profissionais. Nem nos pessoais antigos.
Foi no último post. Uma foto da janela do apartamento, sem legenda. Só a imagem. Postada às 00h03; dezesseis minutos depois de assinar o contrato.
Rafael ficou olhando por cinco segundos.
Fechou o app.
A pasta de Jade Moraes continuou aberta sobre a mesa até o amanhecer.
Ele não pensava mais na influenciadora de Fortaleza com os olhos que não deviam ter importado.
Só que sim.







