Mundo de ficçãoIniciar sessãoRAYSSA
Rayssa já tinha perdido o controle da noite fazia tempo. O problema era que o corpo não aceitava isso de primeira. Continuava mexendo o celular, abrindo tela, fechando tela, fingindo que ainda existia alguma chance de a coisa virar. Como se o dedo tivesse mais fé do que a cabeça. A sala estava escura. Jade dormia no quarto. O apartamento inteiro parecia suspenso num tipo de respiração curta, com a única luz vindo do celular apoiado na coxa dela. A tela branca cortava a penumbra e deixava tudo com cara de coisa errada. Rayssa olhou de novo para o saldo.Zero. O número não mudou porque ela encarou. R$8.000. Sumidos em uma noite. A garganta travou num ponto seco. Ela engoliu e passou a mão pelo rosto uma vez, devagar, como se esse gesto resolvesse alguma coisa. Não resolveu. A parte pior não era o valor. Era a sensação de já ter passado por isso antes e mesmo assim continuar apertando os botões como se estivesse fazendo estratégia. Como se fosse disciplina. Como se ainda houvesse uma linha de raciocínio limpa em algum lugar daquela bagunça. Não havia. Ela abriu o vídeo que Jade tinha mandado mais cedo. O rosto da amiga apareceu sorrindo demais, cabelo bem posto, voz treinada no ponto exato entre entusiasmo e convite.“GANHEI R$5.000 EM 3 MINUTOS!” Rayssa sentiu um ódio surdo subir primeiro no estômago, depois atrás dos olhos. Não era só com o vídeo. Era com a cara de quem falava aquilo sem piscar. Com o jeito como parecia fácil. Com a parte de Jade que sabia vender qualquer coisa sem parecer venda. Com o fato de a amiga estar dormindo no quarto enquanto ela encarava um saldo zerado na sala. Ela minimizou o vídeo antes que a própria cara mudasse demais. Mexeu o queixo de um lado para o outro, os dentes pressionando por dentro. O dedo desceu para outro app. Não era o Tigrinho desta vez. Outro nome. Outra interface. Outra promessa. O mesmo buraco. A tela pediu depósito. Rayssa fez sem pensar o suficiente para chamar de decisão. R$200. Mais um pouco. Só pra recuperar o que perdeu hoje. A frase veio automática, velha, feia, conhecida demais. Saiu da cabeça com a mesma facilidade de quem já falou isso em outros dias, em outros meses, em outras noites que terminaram do mesmo jeito. Ela odiou o fato de ter pensado exatamente assim e, no segundo seguinte, empurrou a culpa para cima do aplicativo como se o aplicativo tivesse puxado a mão dela. A barra carregou. Ela prendeu a respiração sem perceber. Quando o depósito entrou, a tela ficou viva de novo. Promessa de rodada. Promessa de virada. Promessa de que o número zero era só uma curva e não o fim da linha. Rayssa ficou olhando para os botões com uma dureza no rosto que não tinha nada de coragem. A porta do quarto se mexeu. Ela minimizou o app num reflexo rápido demais para ser tranquilo. Jade apareceu na sala com a cara meio amassada de sono, segurando a parte da frente da camiseta como quem ainda estava voltando para o próprio corpo. Parou no corredor entre os dois quartos e olhou para a sala escura. — Tá tudo bem? — perguntou. A voz veio baixa, rouca de sono, sem desconfiança nenhuma. Só aquela preocupação automática de amiga que viu movimento demais na sala e veio checar se estava tudo inteiro. Rayssa ergueu o rosto devagar. O celular continuava iluminando a coxa dela. O coração bateu um pouco mais rápido, mas não o suficiente para denunciar tudo. Ela abriu um sorriso. Não bonito. Treinado. O mesmo sorriso de câmera que aparecia quando precisava esconder o resto. — Tudo, amiga. Jade ficou olhando por um segundo a mais do que o normal, como se tivesse tentado ler algo no rosto dela e não encontrado. Depois assentiu, sonolenta, e voltou para o quarto. A porta fechou. Rayssa ficou sozinha de novo. A sala voltou a ser só escuridão e tela acesa. Ela soltou o ar que vinha prendendo e olhou para o app aberto. O saldo ainda estava na cabeça dela como uma humilhação viva. Não dava para chamar de azar. Não dava para chamar de excesso de confiança. Já tinha virado outra coisa. Uma necessidade ruim. Uma resposta corporal antes mesmo de ser vontade. Rayssa tocou em “jogar”. A rodada começou. A interface girou, as figuras correram, os números mudaram de lugar sem mudar de verdade. Ela não percebeu o momento exato em que começou a sentir mais raiva do próprio vazio do que do aplicativo. Não percebeu quando a vontade de recuperar o que perdeu virou só vontade de não admitir que tinha perdido. Quando o segundo saldo caiu, ela nem fechou o app. Só ficou olhando para a tela como se o problema fosse a tela estar sendo sincera demais. Depois riu uma vez. Sem humor. Baixo. Feio. E abriu outra aposta. Porque parar naquela altura já não seria estratégia. Seria aceitar.






