Mundo de ficçãoIniciar sessão
JADE
O e-mail chegou às 23h47. Jade só viu porque o notebook ainda estava aberto na cama, iluminando o quarto com aquela luz azul. O cabelo estava preso de qualquer jeito, o tipo de rabo de cavalo que não organiza nada, só finge que sim. Na tela, a planilha continuava aberta: seguidores, alcance, propostas recusadas, propostas aceitas, contas a pagar. Ela tinha parado de atualizar essa última coluna há três semanas. O número era o mesmo. Os boletos não eram. O assunto do e-mail era simples: Proposta de parceria — Tiger Bet. Ela deixou a mensagem aberta alguns segundos antes de clicar. Era um contrato em P*F. Dezesseis páginas, fonte doze, linguagem de advogado. Jade leu a primeira página devagar. A segunda um pouco mais rápido. A partir da quinta, Jade já não estava lendo como leitura. Estava procurando o que importava. Dinheiro. E encontrou. R$50.000 por mês, conforme discutido e confirmado por telefone com o advogado que ela havia conversado naquela tarde. Ela não chegou à página doze. A empresa tinha CNPJ. Tinha escritório no Faria Lima; ela tinha ligado para o número do rodapé naquela mesma tarde, e uma recepcionista atendeu no segundo toque, voz profissional, "Tiger Bet, boa tarde, como posso ajudar?", e Jade tinha pedido para falar com o responsável pelo contrato de influenciadores e o responsável tinha atendido em noventa segundos, sem hesitar, sem fazer ela sentir que estava pedindo demais. Tinha advogado com OAB no cabeçalho. Tinha cláusulas que ela reconhecia de outros contratos de exclusividade, direitos de imagem, prazo de entrega, rescisão. Parecia legítimo da forma que as coisas legítimas pareciam quando ela queria que fossem. Tinha a cláusula 12. No meio da página onze. Em fonte idêntica às outras, sem destaque, sem aviso. Rayssa estava no sofá com o celular na mão, a tela iluminando o rosto na sala escura. Jade saiu do quarto com o notebook debaixo do braço, sentou na mesa da cozinha. Nenhuma das duas comentou nada. Pensou no print que a mãe tinha mandado duas semanas antes, o resultado do exame, o nome do médico no canto, o valor da próxima sessão destacado em azul pelo aplicativo do hospital. Azul, não vermelho, como se a cor fosse fazer diferença. Lembrou da fatura do aluguel em aberto. Lembrou que tinha recusado três propostas em dois meses porque as três tinham algo errado; produto duvidoso, cláusula estranha, empresa sem histórico e que recusar tinha sido o certo a fazer, e que recusar tinha custado caro. Mas não dava pra continuar recusando. R$50.000 por mês. Jade leu o contrato pela segunda vez. — Você vai aceitar isso? Jade não respondeu de imediato. Passou os olhos pela tela como se ainda estivesse em análise. — Ainda tô vendo. Quando levantou os olhos, Rayssa já tinha voltado pro celular. Voltou pro contrato. Tudo seguia dentro do esperado. Nada fora do padrão suficiente pra justificar um “não”. Terceira leitura. Mais devagar dessa vez, cláusula 7 em diante. Exclusividade de plataforma: não podia promover concorrente direto pelo período de doze meses. Normal. Prazo de entrega de conteúdo: dez vídeos por mês, formato especificado, aprovação prévia da contratante. Um pouco engessado, mas nada fora do padrão. Obrigações de divulgação nos stories e no feed, frequência mínima de três posts semanais, link na bio durante toda a vigência. Ela foi marcando mentalmente o que era padrão e o que precisava de atenção. Havia multa por rescisão antecipada, o advogado tinha passado por cima disso rápido demais, mas todo contrato tinha multa, e R$50.000 por mês deixava qualquer multa aceitável. Era o tipo de raciocínio que faz sentido quando você precisa que faça. Página onze. Ela rolou a tela. O celular vibrou na mesa. A mãe. Uma foto tirada no corredor do hospital, a luz fria do teto, a legenda em letras pequenas: boa noite minha filha. A médica disse que tô respondendo bem ao tratamento ❤️ Jade ficou olhando pra foto. Pro corredor. Pro emoji de coração. Fechou o celular. Voltou pro contrato. Passou pela cláusula 12, o título denso, cheio de remissões, o tipo de coisa que parecia mais burocrática que importante. Rolou pra última página. A assinatura eletrônica era um campo simples. Nome completo, CPF, data. O sistema gerou automaticamente: 23 de outubro, 23h47. Jade digitou o nome. Digitou o CPF. Ficou dois segundos com o dedo sobre o trackpad. Tinha prometido pra si mesma, aos dezoito anos, na rodoviária de Fortaleza com uma mochila e R$300 na carteira, que nunca ia depender de ninguém pra pagar conta de hospital. Que nunca ia vender a própria imagem pra coisa que não acreditava. Que ia escolher com cuidado, sempre com cuidado, porque escolher errado custava caro e ela já sabia como era pagar esse preço. Tinha prometido isso. Clicou em confirmar. A confirmação chegou trinta segundos depois. P*F assinado anexado, cópia pro e-mail cadastrado, primeira parcela liberada em até quarenta e oito horas úteis. Jade estava fechando o notebook quando viu a última linha da mensagem. Não se preocupe com a cláusula 12. Ela abriu o contrato de novo. Rolou pra página onze. Leu. A mão parou antes de ela mandar o cérebro parar."...multa rescisória no valor de R$5.000.000,00 (cinco milhões de reais)..." Cinco milhões. Ela tinha R$847,23 na conta. Tinha mãe em tratamento. Tinha aluguel atrasado. Tinha assinado trinta segundos atrás. O apartamento continuou igual. Rayssa continuou no sofá. Lá fora, um caminhão de lixo roncou na rua, engatou a ré, fez aquele bipe repetido que ninguém na cidade escuta mais. Jade fechou o notebook. Não se mexeu. O apartamento continuou escuro. O bipe do caminhão tinha ido embora. O apartamento estava em silêncio e ela ainda não tinha piscado."Não se preocupe com a cláusula 12."






