Mundo ficciónIniciar sesiónJADE
O estúdio era no quarto andar de um prédio comercial na Consolação, espremido entre uma clínica odontológica e uma produtora de podcasts que tocava música alta demais praquele horário da manhã.
Jade chegou dez minutos antes. Hábito antigo, chegar cedo quando não sabia o que esperar.
A recepcionista ofereceu água e café. Ela pegou o café. Ficou perto da janela enquanto esperava, olhando o trânsito lá embaixo, a xícara quente queimando os dedos sem que ela mudasse de posição.
Às nove em ponto, uma mulher abriu a porta lateral e chamou o nome dela.
A equipe tinha cinco pessoas.
Diretor. Câmera. Iluminação. Make. E um rapaz mais novo sentado atrás de um notebook desde o momento em que ela entrou. Ninguém apresentou ele.
— Você já viu o roteiro?
— Vi.
Ela tinha decorado no metrô. Vinte minutos de viagem pra memorizar dez falas.
— Ótimo. Make em quinze, gravação em trinta. Alguma dúvida?
Tinha várias. Mas Jade só balançou a cabeça.
O rapaz do notebook levantou os olhos pela primeira vez.
Não totalmente. Só o suficiente.
— Não mexe na conta, não desloga e não tira print.
Ele voltou a digitar enquanto falava.
— A gente monitora tudo. Inclusive suas redes depois da publicação. Tá no contrato.
Jade sentiu o estômago apertar de um jeito que não passou rápido.
— Tudo bem
Henrique nem pareceu ouvir a conversa.
O roteiro era simples. Dez vídeos, variações do mesmo tema: Jade na frente de um fundo neutro, celular na mão mostrando a tela, animada mas não exagerada, "gente, não tô acreditando" e "tô tremendo" e "é real, eu juro", e os números na tela — R$1.200, R$3.800, R$5.000 — crescendo enquanto ela falava.
O dinheiros na tela não era dela. A conta na tela não era dela. O celular era um prop de estúdio.
Jade olhou pra tela por um segundo antes da gravação começar. A interface preta e laranja do Tiger Bet piscava de tempos em tempos, o tigre animado no canto parecendo respirar.
— Pode rolar? — Henrique perguntou do outro lado do monitor.
— Pode.
Gravou dez vídeos em duas horas e vinte minutos. O primeiro demorou, ela errou o tempo do "não tô acreditando" três vezes, muito cedo, muito tarde, até achar o ritmo. Do segundo em diante foi automático. O corpo encontrou o padrão e repetiu.
Entre o sétimo e o oitavo vídeo, enquanto trocavam a iluminação, Jade continuou olhando pro celular falso na mão. O saldo de R$5.000 brilhava na tela como se fosse real o suficiente pra convencer alguém.
Henrique apareceu ao lado dela.
Olhou pro monitor.
Depois pra ela.
— Ficou bom. Mas no próximo segura um pouco mais o sorriso quando falar que ganhou. Tipo… como se você mesma ainda não acreditasse.
— Tá.
— E se puder falar que perdeu antes de ganhar, melhor ainda.
Ela virou o rosto devagar.
— Como assim?
Henrique deu de ombros.
— "Gente, eu perdi R$300 ontem, mas hoje recuperei tudo e saí no lucro." È mais convincente. Esse tipo de coisa. Funciona melhor pra engajamento. Quem já perdeu se identifica.
Jade olhou pra ele.
— Mas eu não perdi nada. Nunca apostei.
Henrique riu. Não foi uma risada cruel — foi pior. Foi a risada de quem não entendeu que ela estava falando sério.
— Por isso que é um roteiro, Jade.
E voltou pra cadeira atrás do monitor como se tivesse explicado algo óbvio.
Jade ficou parada por três segundos.
Começou o oitavo vídeo. Não falou que tinha perdido. Não falou nada que não estivesse no roteiro original.
Ninguém notou a diferença.
Às duas da tarde, Henrique entregou um envelope com a confirmação da transferência: R$50.000, conforme contrato, primeira parcela, recibo incluso. Jade colocou no fundo da bolsa sem abrir.
— Semana que vem tem mais dez vídeos — Henrique avisou. — O próximo roteiro chega sexta.
— Tá bom.
— Alguma dúvida sobre o processo?
Ela quase perguntou.
Quase.
Mas então olhou pro rapaz do notebook, o mesmo que falava sobre monitoramento com a naturalidade de quem pede açúcar no café.
— Não. Sem dúvida.
Ela saiu pelo elevador, atravessou o lobby, empurrou a porta giratória e parou na calçada.
O sol bateu direto no rosto.
Consolação na hora do almoço. Gente demais. Ônibus demais. Cheiro de fritura vindo da lanchonete da esquina.
Jade entrou no primeiro café que encontrou e pediu a chave do banheiro.
Trancou a porta.
O banheiro era pequeno, apertado, uma pia torta e um espelho manchado perto da lâmpada.
Ela ficou olhando pro próprio reflexo.
"Eu nunca apostei." Ela tinha dito isso. Henrique tinha rido.
Ela não sabia se tinha raiva dele ou de si mesma por não ter exigido resposta.
Quatro minutos. Ela contou no relógio do celular. Depois enxugou as mãos, abriu a porta, pediu um café no balcão e ficou de pé na calçada tomando até acabar.
De volta ao apartamento, às quatro da tarde, Rayssa estava no sofá assistindo série com o notebook no colo e o celular do lado com a tela pra baixo.
— E aí, como foi?
— Bem.
Jade colocou a bolsa na cadeira.
— Profissional.
— Pagou?
— Pagou.
Rayssa assentiu. Voltou pra série.
Jade foi pro quarto, abriu o app do banco, confirmou a transferência. R$50.000. Mandou R$20.000 pra mãe sem nem sentar. Ficou em pé olhando o saldo que sobrou, sem nem acreditar no valor que ainda tinha.
Às onze da noite, já deitada, ela abriu o I*******m. O primeiro vídeo já estava no ar.
"GANHEI R$5.000 EM 3 MINUTOS NO TIGRINHO 🐯🔥".
Ela com expressão de quem não consegue acreditar, 40 mil views em seis horas.
Os comentários.
"Vou tentar!!"
"Link funciona??""Jade eu confio em você, baixei o app""Minha prima perdeu tudo num negócio desse. Você dorme bem?"Esse último tinha 54 curtidas. Os outros tinham centenas.
Jade clicou no perfil de quem tinha comentado. Foto real, conta de 2019, posts de comida e sobrinha. Não era bot.
Fechou o I*******m.
Colocou o celular de cara pra baixo.
No sofá da sala, o celular de Rayssa vibrou uma vez. Ela pegou, olhou, sorriu de um jeito pequeno que não era alegria, era alívio.
Jade dormiu antes de meia-noite pela primeira vez em meses. No quarto ao lado, a cama de Rayssa continuou vazia até as três da manhã.







