Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena acordou antes do sol nascer.
O quarto era amplo, silencioso demais, com uma cama confortável que ela não lembrava de ter merecido. Por alguns segundos, esqueceu onde estava. Depois, a lembrança veio inteira, pesada: a mansão, o contrato, Adrian Moretti. Ela se sentou devagar, respirando fundo. Aquela não era apenas uma casa nova. Era um mundo diferente, com regras próprias, onde cada passo parecia observado, mesmo no silêncio. Vestiu o uniforme branco que havia encontrado dobrado sobre a cadeira na noite anterior. Simples, discreto, impecável. Ao se olhar no espelho, teve a estranha sensação de que aquela roupa não era apenas um uniforme. Era um símbolo. De função. De limite. De posse silenciosa. Saiu do quarto com passos contidos, seguindo o corredor amplo até a cozinha. Tudo estava organizado, como se ninguém realmente vivesse ali. Nenhum som. Nenhum cheiro de café. — Bom dia. A voz masculina veio atrás dela. Helena se virou rápido demais. Adrian estava parado à entrada da cozinha, já vestido com um terno escuro, como se o dia dele tivesse começado horas antes. O olhar percorreu o uniforme dela sem pressa, avaliando mais do que deveria. — Bom dia — respondeu, tentando manter a naturalidade. — Matteo ainda dorme — disse ele. — Ele acorda às sete em ponto. Não gosta de atrasos. — Entendi. Adrian se aproximou da bancada, servindo-se de café. Não ofereceu. Não perguntou. Apenas observou. — Quero deixar algumas coisas claras — disse, sem rodeios. — Esta casa funciona com rotina e controle. Matteo precisa de estabilidade. Eu também. Helena assentiu. — Não quero visitas. Não quero ligações longas. Sua atenção deve estar aqui — continuou. — Qualquer problema, fala comigo. Não com empregados. Não com terceiros. Ela franziu levemente a testa. — E quanto ao meu filho? — perguntou, cautelosa. — Eu preciso falar com ele. O olhar de Adrian escureceu por um instante. Rápido demais para ser ignorado. — Você pode falar com ele — disse. — Desde que não interfira no seu trabalho. Helena sentiu um aperto estranho no peito, mas se manteve firme. — Claro. O silêncio que se seguiu era pesado. Adrian não tirava os olhos dela. Não era um olhar abertamente invasivo, mas havia algo ali. Atenção demais. Presença demais. — Você dormiu bem? — perguntou, de repente. Ela se surpreendeu. — Dormi… sim. Ele assentiu, como se aquilo importasse mais do que deveria. — Ótimo. Nesse momento, passos pequenos ecoaram no corredor. Matteo apareceu à porta, ainda com os cabelos bagunçados e o rosto sonolento. — Bom dia — disse Helena, sorrindo. O menino a observou por alguns segundos, depois caminhou até ela sem dizer nada, segurando a barra do uniforme com cuidado. Adrian percebeu. E algo mudou. Helena sentiu o olhar dele sobre aquela cena simples, como se estivesse registrando cada detalhe. Como se algo estivesse sendo confirmado silenciosamente. — O café está pronto — disse ela a Matteo. — Quer sentar? Ele assentiu. Durante o café da manhã, Helena percebeu pequenas coisas. Matteo comia pouco. Adrian quase não falava. Mas observava tudo. O jeito como ela cortava a fruta. Como falava com o menino. Como se movia pela cozinha. — Ele não gosta de barulho — comentou Adrian. — Nem de mudanças repentinas. — Eu sei lidar com crianças sensíveis — respondeu ela. — Meu filho também é. Adrian a encarou. — Seu filho… mora com quem? — Com a minha mãe, por enquanto. — Por enquanto — repetiu ele, pensativo. A palavra ficou suspensa no ar. Mais tarde, Helena levou Matteo para o jardim. Brincaram em silêncio, montaram carrinhos, desenharam com giz no chão. Ela sentia a presença de Adrian mesmo quando não o via. Como se ele estivesse sempre por perto. E estava. Em determinado momento, ela levantou os olhos e o encontrou parado atrás da janela do escritório, observando-os. Não desviou o olhar quando percebeu que ela o viu. Pelo contrário. Sustentou. Helena sentiu um arrepio percorrer a espinha. Quando Matteo voltou para dentro para descansar, Adrian se aproximou dela no jardim. — Ele gosta de você — disse. — Fico feliz. — Ele não se apega fácil. Helena sorriu de leve. — Eu também não. O olhar dele se fixou no rosto dela por tempo demais. — Então talvez se entendam. Houve uma pausa. Longa. Carregada. — Seu uniforme… — começou ele. Helena sentiu o corpo enrijecer. — Está adequado? — Está — respondeu. — Muito. A palavra caiu entre eles como algo perigoso. — Mas lembre-se — completou ele —, aqui você é funcionária. Não confunda gentileza com permissão. Ela ergueu o queixo. — Não costumo confundir. Um canto da boca dele se ergueu. Um quase sorriso. — Veremos. À noite, já no quarto, Helena tentou ligar para o filho. A chamada caiu na caixa postal. Tentou de novo. Nada. Quando saiu para o corredor, encontrou Adrian encostado à parede, como se a estivesse esperando. — Problemas? — perguntou. — Meu filho não atendeu — respondeu. — A conexão aqui costuma falhar à noite — disse ele. — Amanhã tenta de novo. Ela assentiu, mas algo dentro dela se inquietou. Quando fechou a porta do quarto, sentiu pela primeira vez um pensamento claro e assustador: Talvez aquele contrato não fosse apenas sobre cuidar de uma criança. Talvez Adrian Moretti estivesse, aos poucos, criando um mundo onde sair… não seria tão simples. E, sem perceber, Helena começava a entender o título que ainda não existia, mas que já fazia sentido demais. Ele era o bilionário que não gostava de deixar ir.






