O perigo não b**e à porta

Helena percebeu que algo estava errado antes mesmo de entender o que era.

Foi uma sensação estranha, um peso no ar, como se a casa tivesse ficado menor de repente. Matteo brincava na sala, espalhando carrinhos pelo tapete, enquanto ela organizava alguns livros na estante baixa. Tudo parecia normal. Silencioso demais, talvez.

O interfone tocou.

Helena se sobressaltou.

— Eu atendo — disse, levantando-se rapidamente.

Mas antes que desse dois passos, a voz de Adrian ecoou pelo corredor.

— Não.

Ele surgiu no vão da porta, expressão fechada, olhar duro.

— Eu atendo — repetiu, agora mais baixo, mais firme.

Helena parou.

Não era um pedido.

Adrian atravessou a sala e pegou o interfone. Não falou de imediato. Apenas ouviu. O maxilar se contraiu levemente.

— Não temos interesse — disse, seco. — Não volte a ligar.

Desligou com um movimento brusco.

Helena engoliu em seco.

— Era… alguém conhecido? — perguntou.

Adrian a encarou por um segundo longo demais.

— Não — respondeu. — Apenas alguém inconveniente.

Ele se virou para Matteo.

— Suba para o quarto. Agora.

— Mas eu estava brincando… — reclamou o menino.

— Agora — repetiu Adrian, em um tom que não admitia discussão.

Matteo obedeceu, lançando um olhar confuso para Helena antes de subir as escadas.

Assim que ficaram sozinhos, Helena sentiu o corpo tensionar.

— O que foi isso? — perguntou.

Adrian passou a mão pelo rosto, respirando fundo.

— Nada que precise te preocupar — respondeu.

— Adrian… — ela insistiu.

Ele se aproximou, diminuindo a distância entre eles. Não tocou, mas a presença era esmagadora.

— Aqui dentro, Helena, eu cuido de tudo — disse, com a voz controlada demais. — Inclusive de você.

O arrepio veio imediato.

— Eu não preciso ser cuidada — respondeu, firme.

Os olhos dele escureceram.

— Precisa — disse. — Só ainda não percebeu.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Vou buscar Matteo — disse ela, quebrando o clima.

Adrian assentiu, mas a observou subir as escadas, como se estivesse gravando cada passo.

Mais tarde, quando Matteo dormia, Helena foi até a cozinha buscar água. Ao passar pela porta de vidro que dava para o jardim, algo chamou sua atenção.

Uma sombra.

Ela franziu a testa, aproximando-se devagar. O jardim estava iluminado, mas além da cerca, havia um carro estacionado. Não parecia da casa. Não parecia estar ali por acaso.

O coração acelerou.

— Adrian? — chamou, baixo.

Nenhuma resposta.

Ela se aproximou mais da porta, tentando enxergar melhor. O carro estava desligado, mas alguém parecia estar dentro.

O medo veio rápido demais.

— Adrian! — chamou de novo, agora mais alto.

Em segundos, ele apareceu atrás dela.

— Afasta — disse, segurando o braço dela com firmeza e puxando-a para trás.

O toque foi forte, protetor, quase possessivo.

— Tem alguém lá fora — sussurrou ela.

Adrian a empurrou suavemente para trás, posicionando-se à frente do vidro.

— Fica aqui — ordenou.

— Não — respondeu, o coração disparado. — O que está acontecendo?

Ele pegou o celular, digitando algo rápido.

— Segurança — disse, curto.

O carro do lado de fora ligou de repente e saiu em alta velocidade.

Helena sentiu as pernas fraquejarem.

— Quem era? — perguntou, a voz trêmula.

Adrian se virou para ela lentamente.

— Alguém que não devia estar aqui — respondeu.

— Por quê?

Ele se aproximou, agora sem qualquer disfarce. Segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhar para ele.

— Porque você mora aqui agora.

O tom não era de explicação.

Era de posse.

— Adrian… isso não é normal — disse ela, tentando se manter firme.

— Nada nesta casa é normal — respondeu. — E é exatamente por isso que você está segura.

Ela sentiu o estômago revirar.

— Segura de quem?

O olhar dele desceu pelo rosto dela, lento, intenso.

— Do mundo — disse. — E de si mesma.

Ele soltou o rosto dela, respirando fundo, como se estivesse se controlando.

— A partir de hoje — continuou —, você não sai sozinha. Não atende interfone. Não abre portas. Não faz ligações sem me avisar.

— Isso é controle — disse Helena, sentindo a raiva misturar-se ao medo.

— Isso é proteção — corrigiu ele. — E você vai aprender a diferença.

Ela se afastou, sentindo o coração bater forte demais.

— Eu preciso ligar para meu filho — disse.

— Amanhã — respondeu ele. — Hoje não.

— Você não pode decidir isso!

Ele deu um passo à frente.

— Posso — disse, baixo. — Enquanto estiver sob o meu teto.

O silêncio se instalou, pesado, sufocante.

Helena subiu para o quarto com o corpo tenso, a mente em caos. Trancou a porta, algo que não havia feito antes.

Sentou-se na cama, tentando respirar.

Do outro lado da porta, passos.

A voz de Adrian veio baixa, firme.

— Você está segura aqui, Helena. Mas segurança tem um preço.

Ela fechou os olhos, sentindo uma verdade incômoda se formar dentro dela:

O perigo não estava apenas do lado de fora da mansão.

Talvez estivesse vivendo dentro dela.

E talvez… fosse ele.

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