Mundo de ficçãoIniciar sessão
Helena parou diante do portão de ferro e respirou fundo antes de apertar o interfone.
A mansão à sua frente não parecia um lar. Era grande demais, silenciosa demais, perfeita demais. Vidros escuros, muros altos, câmeras discretas em cada canto. Um lugar feito para manter o mundo do lado de fora… e as pessoas sob controle. Ela apertou a pasta contra o peito, como se aquilo pudesse protegê-la. Dentro, estavam seus documentos, o currículo simples e a última chance que tinha de não perder tudo. — Respira — murmurou para si mesma. O interfone chiou. — Nome? — a voz masculina soou firme, fria, sem qualquer traço de cordialidade. — Helena Duarte. Vim pela vaga de babá. Houve um breve silêncio. Longo o suficiente para fazê-la pensar em dar meia-volta. — Entre. O portão se abriu lentamente, rangendo baixo, como se a avisasse de algo que ela ainda não entendia. Helena caminhou pelo jardim impecável, sentindo o nervosismo crescer a cada passo. Nunca tinha trabalhado em um lugar assim. Nunca tinha sequer entrado em uma casa como aquela. A porta principal se abriu antes que ela tocasse a campainha. E então ela o viu. Adrian Moretti. Alto, postura impecável, terno escuro feito sob medida. O rosto sério, marcado por uma beleza fria e distante. Os olhos, de um tom escuro difícil de definir, a analisavam sem pressa, sem disfarce. Ele não sorriu. — Você está atrasada três minutos — disse, olhando para o relógio. Helena sentiu o rosto esquentar. — Peço desculpas. O trânsito… — Não me interessa — interrompeu, seco. — Entre. Ela obedeceu. O interior da casa era tão silencioso quanto o exterior. Tudo organizado, limpo, quase impessoal. Nenhuma foto nas paredes. Nenhum objeto fora do lugar. Um ambiente bonito… e vazio. — Sente-se — ele indicou uma cadeira em frente à mesa do escritório. Helena sentou, mantendo a postura ereta, mesmo com o coração acelerado. — Você sabe quem eu sou? — Adrian perguntou, abrindo uma pasta. — Sei que o senhor é empresário — respondeu com cuidado. — Sou bilionário — corrigiu, sem arrogância. Apenas como um fato. — E não gosto de perda de tempo. Ele deslizou o olhar por ela mais uma vez, avaliando detalhes que Helena sentia, mas não conseguia nomear. As mãos marcadas pelo trabalho, o cabelo preso de forma simples, o cansaço escondido atrás da postura firme. — Você tem um filho — afirmou. — Tenho — respondeu, surpresa. — Precisa desse emprego. Helena não negou. — Preciso. Adrian assentiu lentamente. — Ótimo. Então vamos ser diretos. Ele empurrou o contrato sobre a mesa. — Você foi selecionada para cuidar do meu filho, Matteo. Ele tem cinco anos. Mora comigo desde a morte da mãe. Helena sentiu algo apertar no peito, mas manteve o foco. — O trabalho inclui morar aqui — continuou ele. — Horários flexíveis. Disponibilidade total. Salário acima da média. Os olhos dela se arregalaram por um segundo. — Em troca — acrescentou — existem regras. Ela engoliu em seco. — Que tipo de regras? Adrian se inclinou levemente para frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Primeira: você cuida do meu filho. Nada além disso. — Segunda: sua vida pessoal fica fora desta casa. — Terceira: não envolvimento emocional. Nem comigo. Nem com ninguém daqui. Helena sentiu um arrepio percorrer a espinha. — Eu sou profissional — disse, firme. Os lábios dele se curvaram em algo que não chegava a ser um sorriso. — Todas dizem isso. Ele se levantou, caminhando até a janela, de costas para ela. — Matteo não se adapta facilmente. Não gosto de trocas constantes. Se aceitar, espero lealdade. — E se eu não aceitar? — perguntou, antes de conseguir se conter. Adrian virou o rosto lentamente, olhando-a por cima do ombro. — Então eu chamarei a próxima candidata — respondeu. — Mas não acho que você vá recusar. Ele estava certo. Helena precisava daquele emprego mais do que queria admitir. Ela pegou o contrato, leu rapidamente. As mãos tremiam levemente. — Quando começo? — Hoje. Ela ergueu os olhos, surpresa. — Hoje? — Meu filho está esperando — respondeu ele, já caminhando em direção à porta. — E eu não gosto de esperar. Helena se levantou, seguindo-o pelo corredor. Cada passo parecia levá-la mais fundo em algo que não compreendia totalmente. Quando entraram no quarto infantil, Matteo estava sentado no tapete, montando um quebra-cabeça. Ergueu os olhos e a observou com curiosidade silenciosa. — Essa é Helena — disse Adrian. — Ela vai cuidar de você. Matteo não respondeu. Apenas continuou olhando. Helena se ajoelhou, sorrindo com suavidade. — Oi, Matteo. O menino inclinou a cabeça, avaliando-a. — Você vai embora também? — perguntou, baixo. O coração de Helena apertou. — Não — respondeu com sinceridade inesperada. — Eu vou ficar. Matteo a encarou por mais alguns segundos… e voltou ao quebra-cabeça. — Ele te aceitou — disse Adrian, atrás dela. — Isso é raro. Helena se levantou, sentindo a presença dele próxima demais. — Assino o contrato — disse. Adrian assentiu. — Ótimo. Antes de sair do quarto, ele completou, em tom baixo: — Só lembre de uma coisa, Helena. — Qual? Os olhos dele se fixaram nos dela, intensos, difíceis de sustentar. — Esta casa muda as pessoas. E eu não gosto de perder o controle. Helena sentiu o aviso tarde demais. Enquanto o observava sair, teve a estranha certeza de que aquele emprego não mudaria apenas sua rotina. Mudaria tudo. E, naquele instante, sem saber explicar por quê, ela teve a sensação incômoda de que Adrian Moretti não estava apenas contratando uma babá. Ele estava escolhendo alguém para não deixar ir.






