Mundo de ficçãoIniciar sessãoTristan Blackwood governou impérios, reinos e matilhas. Viu civilizações nascerem e caírem, enfrentou guerras, traições e séculos de solidão — mas nada jamais doeu tanto quanto perder sua companheira. Há trezentos anos, ela morreu em seus braços ao protegê-lo de uma emboscada, deixando-o com uma cicatriz que atravessa o tempo. Desde então, Tristan carrega uma maldição silenciosa: ela sempre retorna — e sempre morre antes de ele alcançá-la. Seis vidas. Seis mortes. Seis reencontros interrompidos. Agora, no século XXI, vivendo sob a identidade de Alessandro Moretti, um bilionário recluso em Roma, ele a encontra pela sétima vez. Mas há um problema que jamais enfrentou: a nova encarnação dela nasceu humana. Yara, decids ir para à Itália buscando apenas seu mestrado e um recomeço longe de um passado de traições. Ela não acredita mais em amores épicos — muito menos em almas destinadas. Mas o destino insiste. Por um erro da companhia aérea, Yara é colocada na primeira classe do voo para Roma — exatamente de frente para Tristan. O Rei Lycan sente o vínculo de alma incendiar de imediato. Ela sente… nada. Apenas um incômodo inexplicável, como se os olhos dele mexessem em algo escondido dentro dela. Derik, seu Beta e melhor amigo, adverte: se a memória da alma não despertar logo, o vínculo se romperá — e Yara poderá morrer de novo. Enquanto Tristan tenta se aproximar sem assustá-la, inimigos antigos percebem que a verdadeira Luna voltou. Forças sombrias, que prosperaram durante séculos com sua ausência, começam a se mover. Agora o coração humano de Yara resiste… e o mundo sobrenatural inteiro ameaça ruir. Ela descobrirá quem é antes que o destino a leve pela sétima vez? Ou Tristan será condenado a vê-la morrer de novo?
Ler maisPOV TRISTAN
-- há 300 anos -- Algumas memórias o tempo tenta apagar. Outras se recusam a morrer. Cassiopeia sempre foi uma delas. Ainda me lembro da luz acariciando seus cabelos cor de trigo maduro, a profundidade das florestas em seus olhos verdes — eram coisas que nenhuma era, nenhuma morte ou reino perdido seria capaz de arrancar de mim. Seu olhar era o único lugar onde meu espírito encontrava repouso. Naquela época, há trezentos anos, eu não era Alessandro Moretti. Eu era Tristan Blackwood, Rei dos Lycans. E ela… ela era minha rainha. Minha Luna. Minha consorte. A guerreira que fazia um exército ajoelhar-se e meu coração perder o compasso. A revivo agora, na memória que nunca cicatrizou, caminhando ao meu lado na clareira da fronteira. Seus passos eram firmes, calculados, como sempre. Cassiopeia nascera para comandar. Seu corpo alto e forte era talhado por anos de combate; sua postura, um equilíbrio perfeito entre disciplina e uma leveza selvagem. Ela era tudo o que uma rainha Lycan deveria ser. E tudo o que eu, em meu íntimo, sabia não merecer. A reunião com os líderes vampiros e bruxos deveria ser um tratado de paz. Eu acreditava nisso com uma teimosia cega, movido pelo desejo de lhe oferecer um futuro livre de guerras eternas. Ela discordava. Cassiopeia sempre enxergava o que eu me recusava a ver. — Tristan — sua voz era um sussurro tenso enquanto nossos guardas se espalhavam pela clareira. — Algo está errado. Não sinto verdade nestas intenções. Parei, observando o tremor sutil em seus dedos — não de medo, mas de pura antecipação. Seu instinto era mais afiado que o de qualquer um de minha linhagem. — Estamos protegidos — tentei acalmá-la, tocando seu ombro. — Nossos homens estão ao redor. E não ousariam uma emboscada durante um tratado de paz. Ela ergueu o queixo, fitando-me com aqueles olhos que sempre enxergaram a alma que eu tentava esconder. — Exatamente por isso — respondeu. — É o momento perfeito. O ar mudou antes que eu pudesse responder. Um silêncio abrupto, pesado, sufocante. Meu lobo rosnou dentro de mim. E então, o inferno desabou. Flechas mergulharam na clareira como uma chuva envenenada. Vampiros irromperam das sombras com velocidade desumana. Bruxas, escondidas entre as árvores antigas, ergueram mãos carregadas de energia negra. Cassiopeia reagiu antes de mim — como sempre. Agarrou meu braço e puxou-me para trás, desviando de uma flecha que teria atravessado meu coração. Seu grunhido ecoou, feroz, enquanto seus olhos brilhavam com o verde de seu lobo. — Eu disse que era uma armadilha! — rosnou. Liberei meu rugido de comando, fazendo o chão tremer. Nossos guerreiros lançaram-se à batalha, mas já estávamos cercados. Um vampiro saltou em minha direção. Cassiopeia interceptou-o, girando em um movimento ao mesmo tempo elegante e mortal. Sua lâmina cortou o ar, limpa e precisa. O vampiro caiu decapitado antes mesmo de tocar o solo. Ela era arte na guerra. O tipo de arte que os próprios deuses invejariam. Mas então, senti. O cheiro. O som. O grito. Uma lança de prata negra voou de trás das árvores. Não houve tempo para me virar. Nem para bloquear. Cassiopeia jogou-se à minha frente. O impacto ecoou como um trovão. A arma trespassou seu corpo, perfurando-a logo abaixo das costelas, rasgando carne, sangue e espírito. O odor da prata queimou-me as narinas, um golpe físico só de estar perto. — Cassiopeia! — O urro que escapou de mim já não era humano. Segurei-a enquanto ela caía, seus cabelos dourados espalhando-se como um halo manchado de terra e sangue. Ela tentou respirar, mas o ar vinha em soluços fracos, cada um mais curto que o anterior. — Você… precisa… viver — sussurrou, tentando segurar a lança para impedir que a arrancasse. — O reino… precisa de você… — Eu preciso de *você* — respondi, todo o meu corpo tremendo. — Não faça isso comigo. Não outra vez. Nunca outra vez. Ela sorriu, e a visão daquele sorriso quebrado, mas ainda forte, ainda *dela*, arranhou-me a alma. — Eu nasci para te proteger — seus olhos verdes brilhavam, desfocados. — E vou sempre voltar para você. Um feixe de luz púrpura explodiu ao nosso lado. Uma bruxa anciã, coberta de tatuagens arcanas, aproximou-se com passos lentos. Meus guardas cercaram-na, mas ela ergueu a mão — e eles congelaram, como se o tempo lhes tivesse sido arrancado. Rugi para ela. — Se tocar nela, destruirei seu clã até a última gota de sangue— — Não vim para matá-la — a bruxa respondeu, com uma voz que parecia arrastar séculos. — Vim para salvá-la. Cassiopeia tentou falar, mas seu corpo já não respondia. O cheiro da prata corroendo seu sangue encheu-me de um desespero cego. — O que está fazendo? — rosnei. — A única coisa possível — murmurou, aproximando-se e tocando a testa de Cassiopeia com dois dedos finos. — Sua Luna carrega uma alma antiga. Única. Não pode morrer assim. Não agora. Não para sempre. Luzes verde e dourada expandiram-se do seu toque, envolvendo o corpo de Cassiopeia como teias de energia vital. — Ela viverá — a bruxa continuou — mas não neste corpo. Não nesta vida. E sempre que retornar, será a mesma: bela, forte, sua verdadeira rainha. Apertei Cassiopeia contra meu peito. — Então salve-a. Cure-a. Eu… eu dou qualquer coisa. Ela balançou a cabeça. — Há um preço. — Eu pago. A bruxa fitou-me com olhos tão antigos quanto as raízes do mundo. — Ela renascerá. Sempre. Mas se não se lembrar de quem é até a idade em que morreu hoje… a morte a levará novamente. E novamente. Sempre na mesma idade. Sempre da mesma forma. Até que reencontre seu nome, sua alma e… você. Senti o chão desaparecer sob meus pés. — Está nos amaldiçoando — disse, a voz irreconhecível. — Está condenando nós dois. — Ou lhes dando outra chance — sussurrou. — Se o amor de vocês é tão eterno quanto dizem… encontrarão o caminho. A luz envolveu Cassiopeia por completo. Gritei. Lutei. Implorei. Mas ela se foi. E o mundo perdeu a cor, o som e o sentido. A única coisa que restou foi a promessa dela, ecoando no vazio: “Vou sempre voltar para você.” E a certeza brutal que me rasgou o peito: Na próxima vida, ela não se lembrará de mim. E eu terei que encontrá-la… e perdê-la… quantas vezes o destino exigir.POV YARAA manhã em Roma tinha um jeito estranho de parecer antiga e viva ao mesmo tempo.Acordei ainda com a sensação da mão dele na minha — quente, firme, impossível. O lugar onde havia um corte profundo agora estava intacto, como se meu cérebro tivesse inventado tudo para preencher algum vazio inexplicável. Mas eu sabia o que tinha visto. Sabia porque a memória não vinha como um sonho, e sim como algo que se recusa a ser apagado.Tomei banho tentando organizar os pensamentos. A água quente escorrendo pela pele ajudava a silenciar o turbilhão, mas não o suficiente. Alessandro. Tristan. Dois nomes para o mesmo homem, e nenhum deles parecia completo.Vesti um conjunto claro, calça de alfaiataria bege e uma blusa branca de tecido leve. O espelho devolveu a imagem de alguém centrada, controlada. Pelo menos por fora. Prendi o cabelo de maneira prática, peguei a bolsa e saí do hotel decidida a me ocupar com algo concreto.Precisava de um lugar para morar.O hotel era confortável, mas temp
POV Alessandro/Tristan A noite ainda não havia terminado quando cheguei ao hotel. Roma parecia calma demais depois do ataque — como se a cidade tivesse fechado os olhos por conveniência. Eu caminhei pelo saguão com passos controlados, o corpo já recomposto o suficiente para não chamar atenção. O paletó havia sido trocado, mas a camisa ainda carregava o cheiro metálico da luta. Sangue vampírico não era fácil de disfarçar. Peguei o telefone no elevador. _Alessandro: Chegou bem? Está tudo bem aí?_ Observei os números subirem lentamente. Cada segundo parecia pesado demais para alguém que havia sobrevivido a séculos. A resposta veio rápida. _Yara: Sim. Já estou no quarto. Aconteceu alguma coisa?_ Fechei os olhos por um instante. _ Alessandro: Posso subir? Preciso falar com você._ Houve uma pausa curta demais para ser indecisão, longa demais para ser indiferença. _Yara: Quarto 814._ O elevador abriu as portas. O corredor estava silencioso, coberto pelo carpete espesso que abaf
POV Alessandro/Tristan O ar noturno me atingiu como um aviso no instante em que atravessei a porta da igreja. Roma nunca dormia de verdade — apenas fingia. O cheiro de pedra antiga misturado ao combustível moderno, o murmúrio distante de vozes, passos que não ecoavam por acaso. Meus sentidos já estavam atentos antes mesmo do primeiro movimento errado. Despina não era o perigo. O que vinha depois dela, sim. Desci os degraus da igreja com passos calmos demais para quem carregava uma tempestade sob a pele. Ajustei o paletó, gesto automático do homem que o mundo via como Alessandro Moretti. Mas por dentro, algo antigo já se retesava, rosnando. O primeiro ataque veio pelas costas. Não ouvi passos — vampiros experientes sabiam flutuar entre sons —, mas senti o deslocamento do ar. Girei o corpo no último segundo, e a lâmina passou a centímetros do meu flanco. Prata. O brilho frio denunciou a intenção antes mesmo do impacto. — Agora — sibilou uma voz. Eles surgiram das sombras como
POV Alessandro/Tristan Dias se passaram desde o primeiro despertar de Yara, e o mundo respondeu. Sempre respondia. Eu sentia nos ossos — aquela pressão antiga que só surge quando forças velhas começam a se mover. Vampiros mais inquietos. Bruxas observando demais. Lycans sonhando com batalhas que ainda não aconteceram. Quando o equilíbrio treme, não há silêncio suficiente para abafá-lo. Foi por isso que fui até ela. O lugar não constava em mapas. Uma antiga igreja desacralizada, engolida por reformas modernas, escondida entre prédios residenciais. Despina sempre gostou de ironias. Fé abandonada era um dos seus cenários favoritos. Ela me esperava sentada em um banco de madeira gasto, pernas cruzadas, parecendo ter pouco mais de vinte anos. Cabelos escuros, pele impecável, olhos que não combinavam com o corpo jovem — fundos demais, antigos demais. Alma velha. — Rei Tristan — disse, sem se levantar. — Ou prefere Alessandro hoje? — Poupe-me — respondi, a voz dura. — Você sabe por
Saímos do café sem chamar atenção. Tristan pagou a conta, fez um gesto breve ao garçom e caminhou ao meu lado como se fôssemos apenas duas pessoas comuns numa manhã romana. Ainda assim, tudo em mim vibrava. O mundo parecia ligeiramente deslocado, como se eu tivesse mudado a frequência — ou ele. — Para onde vamos? — perguntei, quebrando o silêncio. — Para um lugar onde o passado não se ofende com perguntas — respondeu. — E o presente não escuta demais. Caminhamos por ruas cada vez mais estreitas, até chegarmos a um portão antigo, discreto, coberto por heras. Tristan empurrou a madeira pesada e entramos num pátio interno escondido do fluxo da cidade. Havia uma fonte seca no centro, pedras gastas pelo tempo e um silêncio denso, respeitoso. — Aqui era um santuário — disse ele. — Antes de Roma aprender a fingir que só os humanos a construíram. O ar mudou quando cruzei o pátio. Não foi frio nem calor — foi atenção. Como se o espaço me reconhecesse. — O que você vai fazer comigo? — pe
A manhã nasceu clara demais para a noite que eu tivera. Quase não dormi. Quando dormi, sonhei com corredores de pedra e um nome que pulsava como um segundo coração. Levantei antes do despertador, tomei um banho rápido e vesti algo simples — vestido claro, sapatos baixos — como se a normalidade pudesse me proteger do que eu sabia que viria. Encontramos-nos em um café discreto, perto de uma praça silenciosa. Alessandro já estava lá. Em pé. Imóvel. Como se tivesse chegado horas antes. Quando nossos olhares se cruzaram, algo mudou no ar. Sentei-me à sua frente sem cumprimentos longos. As mãos dele repousavam sobre a mesa, firmes, controladas. Eu reconheci aquela postura antes mesmo de entender por quê. — Bom dia — ele disse. — Bom dia… Tristan. O nome escapou antes que eu pudesse pensar. Não foi um teste. Foi certeza. O mundo pareceu prender a respiração. Os dedos dele se fecharam lentamente, as articulações ficando brancas. Por um instante, achei que ele fosse negar. Corrigir.
Último capítulo