Capítulo 2 – O Refúgio Esquecido

O cheiro de ervas invadiu seus sentidos antes mesmo de Elara conseguir abrir os olhos.

Não era o aroma úmido da floresta.

Nem o perfume das flores cultivadas na Fortaleza do Norte.

Havia algo diferente.

Madeira antiga.

Folhas secas.

Lavanda.

Sálvia.

E uma fumaça suave que parecia acalmar a dor que ainda queimava em seu peito.

Ela tentou mover o braço.

Uma fisgada a fez prender a respiração.

— Não se levante.

A voz feminina era baixa, mas carregava uma autoridade natural.

Elara piscou algumas vezes até enxergar o teto de madeira escura acima de si.

Estava deitada sobre uma cama simples, coberta por mantas grossas de lã cinzenta.

A luz entrava por uma janela estreita, revelando um pequeno quarto construído em pedra e troncos antigos.

As paredes eram cobertas por símbolos desenhados com tinta prateada.

Nenhum deles lhe parecia familiar.

Ela virou lentamente a cabeça.

A mulher de cabelos brancos permanecia sentada diante de uma mesa, preparando um chá em silêncio.

O manto negro havia sido retirado.

Agora vestia roupas simples, mas elegantes.

Mesmo assim, sua presença continuava imponente.

— Onde estou?

A mulher sorriu discretamente.

— Em um lugar que desapareceu dos mapas há muitos séculos.

— Quem é você?

Ela colocou duas xícaras sobre a mesa.

— Meu nome é Seraphine.

Elara franziu a testa.

Nunca ouvira aquele nome entre as alcateias conhecidas.

— Você pertence a qual clã?

Seraphine virou-se.

— Ao único que sobreviveu escondido durante quase quinhentos anos.

O silêncio voltou a ocupar o quarto.

Elara apoiou as mãos na cama e conseguiu sentar-se.

Seu vestido branco havia sido substituído por uma túnica escura.

As manchas de sangue desapareceram.

As feridas em seus braços estavam cobertas por faixas limpas.

— Quem trocou minhas roupas?

— As curandeiras.

— Quanto tempo fiquei desacordada?

— Três dias.

Ela arregalou os olhos.

— Três...

Sua voz falhou.

— Kael...

Assim que pronunciou aquele nome, uma pontada atravessou seu peito.

A dor era menor do que antes, mas continuava ali.

Como uma cicatriz que ainda se recusava a fechar.

Seraphine observou sua reação.

— O vínculo rompido ainda deixará marcas durante algum tempo.

Elara abaixou a cabeça.

As lembranças voltaram como uma avalanche.

O altar.

Os olhares.

As acusações.

As risadas.

A rejeição.

Sentiu os olhos arderem.

Mas não chorou.

As lágrimas pareciam ter secado junto com a antiga vida que perdera.

— Você me chamou de rainha.

Seraphine aproximou-se lentamente.

— Chamei.

— Por quê?

A mulher segurou delicadamente seu pulso esquerdo.

A marca negra permanecia ali.

Agora brilhava com muito mais intensidade.

As linhas pareciam vivas.

Mudavam de forma lentamente, como se respirassem.

— Porque apenas uma pessoa pode carregar esse selo.

Elara tentou puxar a mão.

— Não sei do que está falando.

— Eu sei.

Seraphine levantou o olhar.

— Durante centenas de anos esperamos por você.

— Isso não faz sentido.

— Faz mais do que imagina.

Antes que continuasse, alguém bateu à porta.

Um rapaz entrou carregando uma bandeja com frutas e pão recém-assado.

Tinha cabelos negros presos em um rabo baixo e olhos verdes muito claros.

Ao ver Elara acordada, sorriu.

— Finalmente.

Ela o observou com cautela.

— Quem é você?

— Orion.

Ele fez uma leve reverência.

— Capitão da Guarda da Lua Negra.

Ela ficou confusa.

— Guarda?

Orion colocou a bandeja sobre a mesa.

— Você precisa comer.

— Quero respostas.

— E terá.

— Agora.

Seraphine trocou um olhar rápido com o capitão.

Pareciam decidir silenciosamente o que revelar.

Por fim, a mulher respirou fundo.

— Há quase seiscentos anos existia uma única nação de lobos.

Não havia dezenas de alcateias.

Não existiam Supremos.

Nem Conselhos.

Todos obedeciam apenas à Rainha da Lua.

Elara permaneceu imóvel.

— Isso é uma lenda.

— Foi transformado em lenda.

Há diferença.

Orion cruzou os braços.

— Quando a Rainha morreu, os Alfas iniciaram uma guerra pelo poder.

As alcateias dividiram-se.

Reinos caíram.

Famílias foram exterminadas.

E qualquer registro da antiga linhagem foi destruído.

Seraphine continuou.

— Ou quase todos.

Ela caminhou até uma estante.

Retirou um livro enorme, envolvido em couro escurecido pelo tempo.

Colocou-o diante de Elara.

A capa trazia exatamente o mesmo símbolo que surgira em seu pulso.

Elara passou os dedos sobre o desenho.

Sentiu um arrepio.

Ao abrir o livro, encontrou dezenas de retratos antigos.

Mulheres.

Todas usando coroas negras.

Todas carregando a mesma marca.

Seu coração acelerou.

Folheou mais algumas páginas.

Parou abruptamente.

O rosto estampado ali parecia assustadoramente familiar.

Não era igual.

Mas havia semelhanças impossíveis de ignorar.

Mesmo formato dos olhos.

Mesmo sorriso discreto.

Mesmo cabelo escuro.

A legenda dizia:

"A Rainha Lyra, última soberana da Lua Negra."

Elara fechou o livro imediatamente.

— Não.

Seraphine permaneceu serena.

— Está assustada.

— Isso é impossível.

— É difícil aceitar.

— Essas mulheres viveram há séculos.

— Sim.

— Não posso ser uma delas.

— Não é.

Seraphine aproximou-se.

— Você é descendente direta.

O quarto mergulhou no silêncio.

Elara balançou a cabeça repetidamente.

— Minha família morreu.

— Foi isso que contaram.

— Eu conhecia meus pais.

— Conhecia quem acreditava serem seus pais.

Ela levantou-se da cama.

— Basta!

Sua voz ecoou pela pequena cabana.

— Acabei de perder tudo.

Meu companheiro me rejeitou.

Minha alcateia me expulsou.

Fui acusada de assassinato.

E agora vocês aparecem dizendo que sou descendente de uma rainha esquecida?

Isso parece loucura!

Ninguém respondeu imediatamente.

Seraphine deixou que ela descarregasse toda a revolta.

Depois falou com extrema calma.

— Você sabe qual é a única característica impossível de existir entre os lobos comuns?

Elara respirava com dificuldade.

— Não.

— Sobreviver ao rompimento de um vínculo de companheiros.

Ela congelou.

— O quê?

Orion respondeu.

— Nenhum lobo suporta isso.

— Muitos morrem.

— Outros enlouquecem.

— Alguns jamais voltam a assumir forma humana.

Seraphine segurou novamente seu pulso.

— Você sobreviveu porque seu sangue é diferente.

Elara olhou para a marca.

O brilho aumentou.

Como se respondesse às palavras da mulher.

Nesse instante, um som grave ecoou do lado de fora.

Era um sino.

Curto.

Urgente.

Orion virou imediatamente para a porta.

Seu semblante endureceu.

— Temos visitantes.

Seraphine franziu a testa.

— Impossível.

Ninguém conhece este lugar.

Outro sino tocou.

Depois outro.

Desta vez muito mais forte.

O capitão caminhou rapidamente até a janela.

Seu rosto perdeu a cor.

— Como...

Isso não deveria acontecer.

Seraphine aproximou-se.

— O que houve?

Ele permaneceu olhando para a floresta.

— Há guerreiros cercando o vale.

Dezenas deles.

Talvez centenas.

Elara sentiu o estômago se contrair.

— Quem são?

Orion respondeu sem tirar os olhos da janela.

— Lobos do Norte.

Os soldados de Kael encontraram nosso esconderijo.

O silêncio caiu sobre a cabana.

Elara deu um passo para trás.

Era impossível.

Ela havia desaparecido havia apenas alguns dias.

Ninguém deveria saber onde estava.

Seraphine fechou lentamente o antigo livro.

Sua expressão, até então tranquila, transformou-se em algo muito mais sombrio.

— Não.

Eles não vieram atrás de você.

Vieram atrás da marca.

E isso significa apenas uma coisa...

Alguém dentro desta casa nos traiu.

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