Capítulo 24 – O Juramento Sob a Lua

As palavras de Kael espalharam-se pelo vale.

Nenhum guerreiro respirou durante alguns segundos.

Até o vento pareceu diminuir de intensidade.

Elara virou lentamente o rosto em sua direção.

Encontrou o antigo Supremo do Norte parado à sua frente, com a espada firme nas mãos e os ombros erguidos.

Ele não olhava para ela.

Seus olhos permaneciam fixos em Aldren.

O líder dos Coletores sorriu com tranquilidade.

Era um homem acostumado a negociar vidas como quem negociava territórios.

— Interessante.

Sua voz era baixa.

— Pensei que ainda estivesse preso às correntes do passado.

Kael respondeu sem alterar a expressão.

— Ainda estou.

Mas elas são minhas para carregar.

Você não tocará nela.

Aldren suspirou.

— Continua tomando decisões movido pelo coração.

Foi exatamente isso que destruiu sua família.

Antes que Kael respondesse, Lucien caminhou até ficar ao seu lado.

Girou a lança uma única vez antes de fincá-la no chão.

— Então terá de passar por dois.

Cedric soltou uma risada curta.

— Achei que seria o único maluco daqui.

Orion aproximou-se logo depois.

— Vai precisar aumentar essa conta.

Seraphine sorriu discretamente.

Mirena fechou os olhos por um instante.

Nythar observava cada movimento dos Coletores.

Selene permanecia imóvel.

Elara olhava para todos eles sem conseguir esconder a surpresa.

Durante anos, aquelas pessoas pertenciam a lados diferentes.

Agora formavam uma única linha de defesa.

Aldren analisou cada rosto.

— Bonito.

Muito bonito.

Mas não muda o resultado.

Levantou lentamente a mão.

Os Coletores espalharam-se pela floresta.

Não correram.

Não atacaram.

Apenas ocuparam posições cuidadosamente calculadas.

Mirena franziu a testa.

— Eles estão formando um círculo.

Aiden compreendeu imediatamente.

— Não.

Eles estão fechando uma prisão.

Os guerreiros da Lua Negra começaram a recuar para proteger os mais vulneráveis.

As carroças foram colocadas lado a lado.

Escudos formaram pequenas muralhas improvisadas.

Lucien distribuiu rapidamente os homens do Oeste.

Kael reorganizou seus soldados.

Mesmo pertencendo a exércitos diferentes, ninguém discutia ordens.

A urgência era maior que qualquer rivalidade.

Enquanto isso, Selene permanecia observando Aldren.

Havia algo estranho naquela movimentação.

Muito estranho.

Ela conhecia aquele homem havia décadas.

Sabia que ele nunca desperdiçava recursos.

— Mirena...

A sacerdotisa voltou-se para ela.

— O que foi?

— Conte.

Quantos descendentes legítimos existem vivos?

Mirena demorou alguns segundos para responder.

— Pouquíssimos.

Ela começou a contar nos dedos.

— Elara.

Kael.

Você.

Lucien.

Depois respirou fundo.

— Talvez dois ou três ramos menores espalhados pelo continente.

Selene fechou os olhos.

— Então não faz sentido.

Elara aproximou-se.

— O quê?

— Se Aldren quisesse apenas capturar descendentes, teria atacado anos atrás.

Não esperaria todos estarem reunidos.

Cassian também percebeu.

Seu olhar tornou-se mais atento.

— Ela tem razão.

Aldren nunca age por impulso.

Então...

Por que reunir todos os herdeiros no mesmo lugar?

Do outro lado do vale...

Magnus permanecia em silêncio.

Desde que descobrira parte das mentiras de Cassian, observava tudo com outros olhos.

Sua atenção voltou-se para Aldren.

Algo em seu comportamento parecia familiar.

O modo de caminhar.

A postura.

A calma exagerada.

Tentou lembrar onde já havia visto aquilo.

Foi então que uma lembrança surgiu.

Anos atrás.

Ainda muito jovem.

Durante um treinamento secreto da Ordem da Lua Rubra.

Cassian apresentara um velho manuscrito.

Na capa existia exatamente o mesmo símbolo usado pelos Coletores.

Uma árvore seca envolvida por correntes.

Magnus arregalou os olhos.

— Mestre...

Cassian virou-se.

— Sim?

— O símbolo.

O senhor disse que pertencia a um grupo extinto.

Cassian permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu.

— Era o que eu acreditava.

Magnus sentiu um frio percorrer a espinha.

— Então eles estiveram observando todos nós esse tempo inteiro.

Elara segurava a espada com firmeza.

Sua marca brilhava de maneira diferente.

Não havia dor.

Nem calor.

Era como se o próprio poder estivesse alerta.

Mirena percebeu.

— Sua linhagem está reagindo.

Elara olhou para o pulso.

As runas prateadas moviam-se lentamente sobre sua pele.

Mudavam de posição.

Como estrelas formando novas constelações.

— O que isso significa?

Nythar respondeu.

— O Coração da Eternidade reconheceu uma ameaça antiga.

Selene fechou os olhos.

Depois voltou a encarar Aldren.

— Você não veio atrás dela.

O líder dos Coletores sorriu.

— Finalmente.

Achei que demorariam mais para perceber.

Lucien apontou a lança.

— Então diga logo o que quer.

Aldren respirou profundamente.

— Quero abrir o Cofre Real.

Elara franziu a testa.

— Você acabou de dizer que não veio atrás de mim.

— Não vim.

Você apenas possui aquilo de que preciso.

Mirena apertou o cajado.

— O Cofre só pode ser aberto pela descendente de Lyra.

Aldren confirmou.

— Exatamente.

Kael estreitou os olhos.

— Então pretende obrigá-la.

— Não.

A resposta surpreendeu todos.

Aldren sorriu novamente.

— Pretendo convencê-la.

Cedric soltou uma gargalhada.

— Boa sorte.

Elara deu um passo à frente.

— Nunca farei isso.

O líder dos Coletores inclinou levemente a cabeça.

— Tem certeza?

Retirou lentamente um pequeno objeto escondido sob o manto.

Era uma esfera de cristal transparente.

Dentro dela...

Havia uma imagem.

Uma mulher.

Acorrentada.

Enfraquecida.

Mas viva.

Mirena empalideceu.

O cajado quase escapou de sua mão.

— Não...

Selene também perdeu a expressão serena.

— Isso é impossível.

Elara olhava sem entender.

— Quem é ela?

Mirena respondeu quase sem voz.

— Lívia...

A antiga Guardiã do Véu.

Aiden deu um passo à frente.

Seu rosto estava completamente branco.

— Ela morreu durante o ataque ao palácio.

Aldren balançou a cabeça.

— Não.

Nós a capturamos.

Há vinte e cinco anos.

O silêncio voltou a dominar o vale.

Aiden aproximou-se lentamente.

Sua respiração tornara-se pesada.

— Você está mentindo.

— Não.

A esfera aproximou-se dele.

A mulher dentro da prisão de cristal abriu lentamente os olhos.

Mesmo debilitada...

Mesmo envelhecida...

Reconheceu Aiden imediatamente.

Uma lágrima escorreu por seu rosto.

Ela levou a mão trêmula até o cristal.

Como se tentasse tocar o homem que permanecia parado do outro lado.

Aiden deixou a espada cair.

— Lívia...

Sua voz falhou.

Durante vinte e cinco anos acreditara que a mulher que amava havia morrido defendendo o palácio.

Agora descobria que ela continuava viva.

Aprisionada.

Cassian fechou os olhos.

Nem mesmo ele conhecia aquele detalhe.

Selene encarou Aldren.

— Você escondeu isso de todos.

O líder dos Coletores respondeu calmamente.

— Certas cartas não podem ser reveladas antes da hora.

Mirena compreendeu naquele instante.

Aldren jamais pretendia atacar.

Ele pretendia negociar.

Usaria cada pessoa desaparecida como moeda de troca.

E, se realmente capturara Lívia...

Quantos outros descendentes das antigas linhagens ainda estariam vivos?

Como se respondesse ao pensamento dela, Aldren ergueu novamente a esfera.

Seu sorriso tornou-se ainda mais tranquilo.

— Lívia é apenas uma entre muitos.

Temos reis.

Rainhas.

Guardiões.

Sacerdotes.

Todos aqueles que o mundo acreditou terem desaparecido.

A história que vocês conhecem está incompleta.

E o Cofre Real contém a única informação capaz de libertá-los.

Ele olhou diretamente para Elara.

— Agora faça sua escolha.

Abra o Cofre...

Ou condene todos eles a permanecerem prisioneiros pelo resto da vida.

A jovem apertou a espada com força.

Pela primeira vez desde que despertara como herdeira da Lua Negra, a decisão diante dela não envolvia apenas vingança ou justiça.

Envolvia centenas de vidas que talvez ainda pudessem ser salvas.

E ela percebeu que qualquer caminho escolhido teria um preço impossível de evitar.

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