Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla acorda coberta de sangue — que não é dela — no centro de um círculo de lobos prontos para executá-la. Não lembra quem é. Não lembra o que fez. Mas todos ali sabem exatamente o crime que ela cometeu. Marcada como a traidora que destruiu a própria alcateia, Lyra deveria morrer naquela noite. O problema? O alfa que levanta a lâmina para matá-la é o mesmo homem que treme ao sentir o cheiro dela. E o lobo dentro dele reconhece o dela… como igual. Entre caçadas, rituais antigos, desejo proibido e memórias que retornam em fragmentos sangrentos, Lyra descobre que o maior perigo não é o que ela fez no passado — é o que ela ainda é capaz de fazer quando uiva. Uma história de lobos onde o amor não salva. Ele condena.
Ler maisO silêncio que Kael deixou para trás era pior que qualquer grito poderia ser.A cela parecia menor agora, as paredes de pedra úmida mais próximas, como se estivessem se fechando lentamente ao redor de Lyra, centímetro por centímetro, respiração por respiração. O eco do impacto da bandeja ainda vibrava em sua cabeça, misturado ao som da porta se fechando. Aquele som metálico, definitivo, que se repetia em sua mente como um sino fúnebre tocando para alguém que ainda estava vivo.Ela permaneceu imóvel. Não sabia dizer por quanto tempo. Os minutos se arrastavam ou corriam, o tempo havia perdido qualquer significado dentro daquele buraco de pedra. A única certeza era o frio que subia do chão, penetrando seus ossos, e a umidade que fazia cada respiração pesar nos pulmões.O corpo não respondia. Os músculos estavam rígidos demais, presos entre o choque e o medo, como cordas esticadas demais que poderiam se romper a qualquer instante. O coração continuava sua marcha frenética, errático, disp
Kael permaneceu parado à entrada da cela, a silhueta recortada pela luz fraca do corredor. Carregava uma bandeja de metal, o tilintar discreto dos talheres denunciando cada passo enquanto avançava. A porta se fechou atrás dele com um clique surdo.Lyra ergueu os olhos, tentando decifrar a expressão dele na penumbra. Sobre a bandeja havia um pedaço de pão grosso, carne fria, uma caneca de água. Nada elaborado. Apenas o suficiente para manter alguém vivo ou adiar a morte por mais um dia.— O que exatamente pretende descobrir? — repetiu, a voz baixa, controlada.Lyra o olhou, surpresa genuína atravessando o cansaço.— Eu não pedi comida… — As palavras saíram quase como um murmúrio.— Não trouxe porque pediu — respondeu Kael, pousando a bandeja no banco de pedra, sem se aproximar demais. — Você não tem escolha de nada aqui.Havia algo estranho em sua postura. Não era agressivo, mas havia uma rigidez nele, como a de alguém que já traçou uma linha invisível e decidiu exatamente até onde pod
Lyra fechou os olhos com força, ignorando deliberadamente como o movimento fez a cabeça latejar em ondas pulsantes de desconforto, e forçou a mente exausta a recuar, a mergulhar nas profundezas nebulosas da memória. A buscar, com determinação desesperada, aquela noite específica que pairava nas bordas da consciência como uma sombra.A lua vermelha.O que aconteceu naquela noite amaldiçoada?O que você fez sob aquela luz carmesim?A dor explodiu instantaneamente, sem aviso, sem piedade.Não era metáfora ou exagero, era dor física, real, brutal de forma que a fez gritar antes mesmo de processar conscientemente. Como se alguém tivesse enfiado uma lâmina de metal incandescente através do crânio, de têmpora a têmpora, e então a torcido lentamente.Lyra gritou, o som rasgando a garganta já machucada e sensível, ecoando violentamente pelas paredes de pedra úmida e voltando distorcido, multiplicado, como se várias versões dela gritassem simultaneamente. As mãos foram para a cabeça por puro i
Lyra tentou acalmar a respiração que saía irregular, rápida demais, ameaçando se transformar em hiperventilação. Forçou o ar a entrar e sair de forma controlada, contando mentalmente. Precisava pensar. Precisava entender.E então outra memória chegou, mais suave desta vez, menos traumática mas carregada de significados diferentes.Depois do fogo.O Alfa Theron, pai de Kael e Azerik, líder inquestionável da alcateia a levou para sua própria casa sem perguntar, sem dar opções. E não era crueldade. Era tradição, inquebrantável.Ela era órfã agora. Sem parentes próximos que pudessem reivindicá-la. O beta estava morto, e sua filha ficaria sob proteção direta do alfa até atingir a maioridade. Era honra. Era dever.Era também sufocante de forma que ninguém admitia.Kael tinha dezenove anos naquela época. Quatro anos mais velho, mas pareciam décadas na forma como carregava responsabilidade. Já sendo preparado para eventualmente assumir a liderança, já sério demais para a idade, já com aquele
A escuridão da cela tinha textura própria.Não era apenas a ausência de luz, era a presença de algo vivo, denso, que se agarrava à pele como dedos gelados. Lyra permanecia imóvel sobre a pedra fria, cada respiração trazendo o ar viciado que queimava os pulmões. O pulso livre ainda latejava onde Kael havia tocado, uma marca invisível que ardia mais que as feridas abertas. O outro braço permanecia preso, o metal mordendo a carne em um lembrete constante de sua condição.Minutos atrás ou teriam sido horas? o tempo se perdia naquele buraco. Os mesmos lobos que trouxeram o corpo o haviam arrastado para fora. Mas o cheiro se recusava a partir. Sangue coagulado. Morte recente. Acusação silenciosa que flutuava no ar denso como fumaça.Você fez isso.As palavras ecoavam na mente, insistentes, impossíveis de aceitar mas impossíveis de negar completamente. As evidências estavam ali, o corpo dilacerado, o testemunho de doze lobos, os olhos de Kael carregados de dor e ódio.Lyra fechou os olhos co
O passado veio como uma lâmina mal afiada. Não cortava de uma vez, rasgava devagar, abrindo feridas que nunca haviam cicatrizado direito. Lyra estava correndo. Aquilo tinha acontecido cerca de um ano antes do sangue, antes do julgamento, antes do nome dela se tornar sinônimo de traição. Um tempo curto demais para ser esquecido, mas longo o suficiente para que tudo parecesse pertencer a outra versão dela. Uma versão mais ingênua. Mais inteira. Mais perigosamente confiante. A floresta se abria diante de seus passos com familiaridade, os galhos desviando quase sozinhos, como se a própria mata conspiasse a seu favor. A terra macia respondia ao peso de seus pés, moldando-se, amortecendo cada impacto. O vento batia contra o rosto, carregado de cheiros vivos: musgo úmido da margem do rio, resina escorrendo de cascas feridas, o rastro metálico de caça recente, o almíscar denso de outros lobos. O corpo obedecia sem esforço, cada músculo sincronizado numa dança ancestral. Forte. Rápid
Último capítulo