Mundo ficciónIniciar sesiónO vale mergulhou em um silêncio pesado.
Ninguém ousava respirar.
A mulher envolta pelo manto negro permanecia imóvel diante de todos, enquanto as sombras ao seu redor serpenteavam lentamente pelo chão.
Os fios dourados bordados em suas vestes brilhavam como pequenas chamas.
Seu rosto era belo.
Impecável.
Mas seus olhos...
Seus olhos carregavam o peso de alguém que atravessara incontáveis séculos.
Cassian inclinou novamente a cabeça.
Magnus repetiu o gesto.
Toda a Ordem da Lua Rubra ajoelhou-se em absoluto respeito.
Do outro lado do campo, os guerreiros da Lua Negra permaneceram em posição de combate.
Lucien apertou a lança.
Orion desembainhou a espada.
Cedric colocou-se discretamente à frente de Elara.
Nythar abriu parcialmente as asas.
Seu olhar jamais deixou Selene.
A recém-chegada sorriu.
— Ainda continua me recebendo dessa maneira, velho amigo?
O dragão soltou um som grave.
— Não me chame de amigo.
Você perdeu esse direito quando escolheu a escuridão.
Selene suspirou.
— Sempre tão dramático.
Mirena deu um passo à frente.
Seu semblante sereno desaparecera.
— Você deveria estar morta.
Selene voltou o rosto para ela.
— Também disseram isso sobre você.
Parece que os livros de história cometeram muitos erros.
Elara observava aquela mulher atentamente.
Algo nela causava uma sensação estranha.
Não era medo.
Nem ódio.
Era uma familiaridade impossível de explicar.
Como se uma parte esquecida de sua memória reconhecesse aquela presença.
Selene percebeu.
Sorriu de maneira quase afetuosa.
— Você herdou os olhos de Aurora.
Mas o olhar...
Esse pertence à sua avó.
Lyra.
O nome fez Elara enrijecer.
— Você conheceu minha avó?
— Conheci.
Lutei ao lado dela durante muitos anos.
Depois...
Lutei contra ela.
Kael permanecia imóvel.
Seu olhar alternava entre Selene, Cassian e Darius.
Ou o que restava dele.
O antigo conselheiro estava caído no chão.
Seu corpo respirava com dificuldade.
As runas vermelhas desapareciam lentamente de sua pele.
Ele parecia décadas mais velho.
O cabelo escurecido tornara-se completamente branco.
O rosto exibia rugas profundas.
Como se toda sua energia tivesse sido consumida em poucos instantes.
Kael aproximou-se.
Ajoelhou-se ao lado dele.
— Darius...
O homem abriu lentamente os olhos.
Sorriu com enorme dificuldade.
— Supremo...
Kael segurou seus ombros.
— Por quê?
Durante tantos anos...
Por quê?
Darius tossiu.
Pequenas gotas de sangue escorreram pelo canto de sua boca.
— Porque... eu acreditava nela.
Olhou para Selene.
Seus olhos estavam cheios de devoção.
— Ela prometeu... um mundo sem guerras.
Kael fechou os olhos.
— E você acreditou?
— Ainda acredito.
Seu corpo começou a tremer.
A respiração tornou-se irregular.
— Perdoe-me...
Não consegui protegê-lo...
Como prometi ao seu pai...
Antes que Kael pudesse responder, Darius expirou lentamente.
Seu corpo perdeu toda a força.
O silêncio voltou a dominar o vale.
Mesmo traidor...
Mesmo responsável por tantas mortes...
Ele havia servido a família Draven durante mais de vinte anos.
Kael permaneceu alguns segundos ajoelhado.
Depois fechou os olhos do antigo conselheiro.
Sem dizer uma palavra.
Selene observava a cena.
Não demonstrava satisfação.
Nem arrependimento.
Apenas aceitação.
— Ele conhecia o preço da própria escolha.
Elara ergueu a espada.
— Você usou a vida dele.
Selene encontrou seu olhar.
— Não.
Ele ofereceu.
Existe diferença.
— Continua sendo cruel.
A mulher sorriu.
— Crueldade depende do lado da história que escolhemos ouvir.
Mirena respondeu imediatamente.
— Não.
Crueldade depende das escolhas que fazemos.
Selene soltou uma breve risada.
— Você continua acreditando que bondade basta para mudar o mundo.
Mirena sustentou seu olhar.
— E você continua tentando mudar o mundo através do medo.
Cassian caminhou lentamente até ficar ao lado de Selene.
— O receptáculo cumpriu seu papel.
Ela confirmou com um leve movimento da cabeça.
— Sim.
Embora tenha durado menos do que imaginei.
Nythar rosnou.
— Não conseguiram a chave.
Selene voltou a encará-lo.
— Tem certeza?
Todos olharam para Elara.
Instintivamente, a jovem levou a mão ao peito.
Sentiu um calor intenso.
Logo depois...
A marca em seu pulso começou a brilhar.
Não era uma luz prateada.
Era dourada.
Runas desconhecidas apareceram ao redor da marca.
Uma após outra.
Como se estivessem sendo escritas naquele exato momento.
Mirena arregalou os olhos.
— Não...
Elara respirava com dificuldade.
A mesma sensação que experimentara no Salão das Memórias voltava com ainda mais intensidade.
Uma voz ecoou dentro de sua mente.
"Proteja o selo."
Outra voz respondeu.
"Ele está se rompendo."
Elara levou a mão à cabeça.
As lembranças começaram a surgir em sequência.
Aurora correndo pelos corredores do palácio.
Lyra segurando um recém-nascido.
Sete sacerdotisas formando um círculo.
Uma porta gigantesca de pedra.
E alguém...
Alguém observando tudo escondido atrás de uma coluna.
O rosto permanecia encoberto.
Mas um detalhe chamou sua atenção.
A pessoa usava um anel.
Um anel com o símbolo da Lua Sombria.
Elara abriu os olhos de repente.
— Minha mãe sabia...
Mirena aproximou-se.
— O que você viu?
— Havia um espião.
Dentro do palácio.
Antes mesmo da guerra começar.
Cassian permaneceu em silêncio.
Selene também.
Foi Magnus quem falou.
— Isso é impossível.
Nythar soltou um rugido baixo.
— Não é.
Sempre houve um traidor entre os guardiões.
Aiden baixou lentamente a cabeça.
Como se aquela possibilidade finalmente explicasse décadas de dúvidas.
— Então as defesas nunca falharam por acaso...
Foram entregues.
O céu escureceu novamente.
Desta vez, não por causa das nuvens.
Um enorme círculo de luz negra surgiu acima das montanhas.
Todos ergueram o rosto.
O símbolo girava lentamente.
Runas antigas apareciam em sua superfície.
Mirena empalideceu.
— O ritual...
Selene levantou a mão.
O círculo respondeu imediatamente.
— Já começou.
Lucien apontou a lança para ela.
— Que ritual?
A mulher respondeu com absoluta tranquilidade.
— O Ritual da Lua Eterna nunca precisou da chave.
A chave apenas acelerava o processo.
Elara franziu a testa.
— Então por que passaram tantos anos procurando por ela?
Selene sorriu.
— Porque eu precisava que Aurora acreditasse nisso.
O choque estampou o rosto de todos.
Até Cassian virou-se para ela.
— Você nunca me contou isso.
— Porque você também precisava acreditar.
O antigo Guardião estreitou os olhos.
— Então eu fui usado?
Ela respondeu sem alterar o tom de voz.
— Todos nós fomos usados por alguém, Cassian.
Inclusive eu.
Nythar abriu completamente as asas.
Uma expressão de preocupação surgiu em seu rosto.
— Quem está por trás disso?
Selene levantou lentamente os olhos para o enorme círculo negro.
Sua serenidade desapareceu.
Havia receio em sua expressão.
Quando voltou a falar, sua voz saiu baixa.
Quase um sussurro.
— Aquele que manipulou reis...
Rainhas...
Supremos...
E até nós.
Elara sentiu um frio percorrer sua espinha.
— Quem?
Antes que Selene respondesse, uma gargalhada profunda ecoou pelos céus.
Não vinha do círculo.
Nem das montanhas.
Parecia surgir do próprio mundo.
As árvores estremeceram.
O lago sagrado começou a ferver.
Até Nythar recuou um passo.
Então uma voz ancestral ressoou sobre todo o vale.
— Depois de mil anos...
Minhas peças finalmente ocuparam seus lugares no tabuleiro.
E o verdadeiro jogo... acaba de começar.







