Capítulo 19 – O Ladrão Entre os Aliados

O tremor nas montanhas não cessava.

Pedras rolavam pelos desfiladeiros.

Bandos de aves levantavam voo em desespero, desaparecendo entre as nuvens que cobriam os picos mais altos.

Ao longe, um brilho prateado escapava por pequenas fendas abertas na rocha, como se alguma construção esquecida respirasse depois de séculos de silêncio.

Elara permanecia olhando para a chave em sua mão.

O metal ainda irradiava um calor suave.

Não queimava.

Parecia pulsar no mesmo ritmo de seu coração.

Era uma sensação estranha.

Quanto mais tempo segurava aquele objeto, mais imagens surgiam em sua mente.

Corredores de pedra.

Portas gigantescas.

Uma escadaria iluminada por cristais azuis.

E uma voz infantil.

A própria voz.

— Mamãe... por que ninguém pode entrar aqui?

Outra voz respondeu.

Aurora.

Doce.

Paciente.

— Porque algumas verdades precisam esperar o momento certo.

A lembrança desapareceu antes que pudesse mostrar mais alguma coisa.

Elara respirou profundamente.

Sentia que sua memória estava voltando aos poucos.

Cada resposta, porém, parecia abrir novas perguntas.

Mirena observava a jovem em silêncio.

Depois sorriu discretamente.

— Está começando.

— O quê?

— Suas lembranças não estão retornando por acaso.

O Cofre Real reconheceu você.

Agora as barreiras criadas por Aurora começam a desaparecer.

Elara olhou novamente para a chave.

— Então eu realmente estive naquele lugar.

— Muitas vezes.

Quando era pequena, aquele era o seu esconderijo favorito.

A jovem sorriu sem perceber.

Era difícil imaginar uma infância feliz depois de tudo o que descobrira.

Ainda assim, aquelas lembranças transmitiam paz.

Aurora havia conseguido lhe dar momentos de alegria, mesmo sabendo que a guerra se aproximava.

Mais atrás, entre os guerreiros do Norte...

Kael observava Elara sem conseguir organizar os próprios pensamentos.

Desde que chegara ao vale, tudo em que acreditava começava a ruir.

Primeiro descobriu que as provas contra Elara haviam sido manipuladas.

Depois soube da antiga aliança entre sua família e a Lua Negra.

Agora via pessoas que sua mãe mencionava quando ele ainda era criança.

Histórias que seu pai proibira de serem repetidas.

Um capitão aproximou-se.

— Supremo.

Kael desviou o olhar de Elara.

— Sim?

— Os homens estão inquietos.

Não sabem de que lado devemos lutar.

Kael olhou ao redor.

Era compreensível.

Alguns soldados mantinham as armas apontadas para a Lua Rubra.

Outros observavam Lucien com desconfiança.

Havia quem olhasse para Nythar como se estivesse diante de um deus antigo.

O exército perdera todas as referências.

Kael respondeu com firmeza.

— Lutaremos contra quem ameaçar inocentes.

O capitão assentiu.

— Mesmo que isso signifique enfrentar outro Supremo?

Kael não hesitou.

— Mesmo assim.

Darius, escondido entre as últimas fileiras, ouviu cada palavra.

Seu rosto permaneceu inexpressivo.

Por dentro, porém, a irritação crescia.

Kael estava se afastando cada vez mais do caminho que Cassian planejara.

Isso precisava mudar.

Cassian caminhou lentamente alguns passos.

Nythar imediatamente abriu uma das asas diante de Elara.

O antigo Guardião sorriu.

— Continua protetor.

O dragão respondeu sem mover a cabeça.

— Continue andando e descobrirá até onde vai minha paciência.

Cassian parou.

Não desejava uma batalha direta.

Ainda não.

Seu objetivo permanecia o mesmo.

O Cofre Real.

Ele voltou o olhar para a chave.

Por um breve instante, um brilho de ambição atravessou seus olhos.

Mirena percebeu.

— Você jamais entrará naquele lugar.

Cassian sorriu.

— Não preciso.

Todos voltaram a olhar para ele.

— Basta que alguém abra a porta por mim.

As palavras deixaram Seraphine inquieta.

— O que quer dizer?

Cassian não respondeu.

Apenas observou silenciosamente as pessoas reunidas no vale.

Como se esperasse algo.

Ou alguém.

Escondido entre as árvores, Darius respirava devagar.

A distância entre ele e Elara era maior do que gostaria.

Mas havia estudado aquele tipo de situação durante anos.

Não precisava derrotar ninguém.

Precisava apenas criar um instante de confusão.

Retirou lentamente uma pequena esfera negra presa ao cinto.

Cabia na palma da mão.

Parecia feita de vidro escurecido.

Sorriu.

— Uma única chance.

Apertou discretamente a esfera.

Uma pequena rachadura surgiu em sua superfície.

Ele esperou.

Esperou mais alguns segundos.

Até que todos voltassem a atenção para Mirena.

Então lançou o objeto.

A esfera atravessou o ar em absoluto silêncio.

Caiu atrás de uma das carroças abandonadas.

Durante um instante...

Nada aconteceu.

Logo depois, uma explosão de fumaça negra tomou conta do vale.

O som foi tão forte que os cavalos empinaram.

Os lobos começaram a rosnar.

Os soldados instintivamente levantaram os escudos.

— Emboscada! — gritou alguém.

O caos espalhou-se imediatamente.

Arqueiros dispararam flechas contra sombras inexistentes.

Alguns guerreiros correram para proteger os civis.

Outros avançaram sem saber contra quem lutavam.

Lucien virou-se rapidamente.

— Formem uma linha defensiva!

Cedric reuniu a Guarda da Lua Negra.

— Ninguém avance sozinho!

Kael desembainhou a espada.

— Capitães, comigo!

A fumaça tornava impossível enxergar além de poucos metros.

Era exatamente o que Darius precisava.

Ele deslizou entre os soldados.

Silencioso.

Aproveitando cada distração.

Sua mão aproximava-se lentamente de Elara.

Ela ainda tentava compreender o que acontecia.

Sentia a chave aquecer cada vez mais.

Não percebeu a aproximação.

Mirena, porém, percebeu.

Virou-se no exato instante em que Darius estendeu a mão.

— Elara!

A jovem ergueu a cabeça.

Tarde demais.

Darius segurou seu pulso.

Arrancou a chave de sua mão com um movimento rápido.

Elara reagiu imediatamente.

Girou a espada.

O golpe cortou apenas o tecido da capa do invasor.

Darius saltou para trás.

O capuz caiu.

Kael congelou.

— Darius?

O conselheiro sorriu.

Já não havia motivo para esconder quem era.

— Demorou para perceber, Supremo.

O silêncio caiu novamente.

Os soldados do Norte olhavam incrédulos para um dos homens mais respeitados da fortaleza.

Kael apertou o cabo da espada.

— Você...

Darius ergueu a chave.

— Trabalhei vinte e cinco anos para chegar até este momento.

Lucien deu um passo à frente.

— Entregue a chave.

Ele riu.

— Não.

Mirena observava atentamente.

Algo estava errado.

Muito errado.

Darius parecia confiante demais para alguém cercado por três exércitos.

Então ela percebeu.

— Não deixem que ele...

Antes que terminasse a frase, Darius cravou a chave no próprio peito.

Elara arregalou os olhos.

— O que está fazendo?

O metal não perfurou sua carne.

Ao contrário.

Foi absorvido por ela.

A chave desapareceu completamente.

Runas vermelhas espalharam-se por todo o corpo do conselheiro.

Seu rosto contorceu-se de dor.

Ele caiu de joelhos.

Começou a rir.

Uma risada descontrolada.

Assustadora.

Cassian fechou os olhos por um instante.

— Finalmente.

O corpo de Darius começou a emitir uma intensa luz negra.

Sua pele rachava.

Como se algo muito maior tentasse romper aquela forma humana.

Os soldados recuaram.

Nythar abriu as asas.

Mirena empalideceu.

— Ele não queria roubar a chave...

Aiden compreendeu no mesmo instante.

— Era um receptáculo.

Cassian abriu um sorriso satisfeito.

— Exatamente.

O corpo de Darius nunca foi importante.

Precisava apenas de alguém capaz de suportar o poder durante alguns minutos.

O chão voltou a tremer.

A luz negra explodiu.

Quando a fumaça começou a desaparecer, Darius já não estava sozinho.

Atrás dele surgiu lentamente a silhueta de uma mulher envolta por sombras.

Alta.

Elegante.

Vestida com um manto negro adornado por fios dourados.

Ela deu um passo à frente.

Depois outro.

Os olhos dourados encontraram os de Elara.

Um sorriso sereno surgiu em seu rosto.

— Finalmente nos encontramos.

Cassian curvou lentamente a cabeça.

Magnus fez o mesmo.

Toda a Ordem da Lua Rubra ajoelhou-se.

E a mulher declarou com absoluta tranquilidade:

— Meu nome é Selene.

A última Rainha da Lua Sombria.

E vim buscar aquilo que pertence à minha família há mais de mil anos.

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