Capítulo 1 – A Marca Que Não Deveria Existir

A dor não diminuía.

Era como se garras invisíveis rasgassem o peito de Elara de dentro para fora, arrancando pedaços da ligação que sempre acreditara ser eterna. Cada tentativa de respirar transformava-se em um suplício. O ar parecia pesado, incapaz de preencher seus pulmões.

Ela permanecia caída sobre as pedras do altar.

As mãos apoiadas no chão já estavam manchadas pelo próprio sangue, que escorria de suas unhas quebradas. Seu corpo estremecia em espasmos, enquanto lágrimas misturavam-se ao véu branco espalhado ao seu redor.

Nenhum lobo se aproximou.

O silêncio era ainda mais cruel que qualquer insulto.

Os membros do Conselho observavam a cena sem mover um músculo. Alguns desviavam o olhar, outros mantinham expressões impassíveis, como se assistissem apenas ao cumprimento de uma sentença inevitável.

No alto da escadaria, Kael continuava imóvel.

Seu rosto permanecia fechado.

Por dentro, porém, algo parecia querer romper a muralha que construíra durante anos.

O vínculo havia desaparecido.

Mesmo acreditando que fizera o certo, havia um vazio estranho dentro dele. Um peso sufocante comprimia seu peito, mas ele recusava-se a demonstrar qualquer hesitação.

A lembrança da irmã morta falava mais alto.

Era tudo o que precisava recordar.

A voz do Ancião rompeu o silêncio.

— A cerimônia está encerrada.

Os tambores, que antes anunciavam uma celebração, tocaram apenas três batidas lentas.

Era o som reservado aos rituais interrompidos.

Elara ergueu o rosto.

Os olhos vermelhos encontraram Kael mais uma vez.

Ela esperava qualquer coisa.

Raiva.

Ódio.

Arrependimento.

Mas encontrou apenas distância.

Foi naquele instante que compreendeu que implorar seria inútil.

Com enorme esforço, tentou ficar de pé.

As pernas falharam.

Caiu novamente.

Algumas risadas discretas surgiram entre os jovens guerreiros.

— Nem consegue levantar...

— Como alguém assim seria nossa Luna?

— O Supremo fez o certo.

Cada palavra feria mais do que o rompimento do vínculo.

Lysandra rompeu a barreira formada pelos guardas e correu até a amiga.

— Elara!

Ajoelhou-se ao seu lado e tentou ajudá-la.

— Vamos sair daqui.

Antes que conseguisse levantá-la, um dos conselheiros deu um passo à frente.

Era Darius, o mais velho entre os membros do Conselho.

Sua voz era seca.

— Ela não pertence mais à família Draven.

Lysandra encarou o homem.

— Ela está ferida!

— Não importa.

Outro conselheiro completou:

— A partir deste momento, Elara Ravencrest perde todos os direitos como futura Luna.

As palavras ecoaram pelo pátio.

— Seus aposentos serão esvaziados.

— Seu nome será retirado dos registros da Casa Draven.

— Seus símbolos serão queimados antes do amanhecer.

Cada sentença destruía um pedaço da vida que ela conhecia.

Lysandra apertou sua mão.

— Eu vou com você.

Elara balançou a cabeça.

— Não.

Sua voz saiu fraca.

Quase irreconhecível.

— Você será punida.

— Não me importo.

— Eu me importo.

Ela forçou um pequeno sorriso.

— Não quero destruir sua vida também.

Lysandra começou a chorar.

As duas cresceram juntas.

Dividiram sonhos.

Treinamentos.

Segredos.

Agora eram obrigadas a se despedir como criminosas.

Um guarda aproximou-se.

— Levem-na para fora da fortaleza.

Dois guerreiros seguraram Elara pelos braços.

Ela não resistiu.

Seu corpo simplesmente não tinha forças.

Enquanto atravessava o corredor principal, ouviu os comentários se espalhando.

— Dizem que matou a irmã do Supremo.

— Sempre achei estranha.

— Escondeu a verdadeira natureza durante anos.

— Ainda bem que ele descobriu antes da cerimônia.

Cada frase aumentava o peso sobre seus ombros.

Nenhuma voz se levantou para defendê-la.

Nem mesmo aqueles que a conheciam desde criança.

Quando os enormes portões da fortaleza se fecharam atrás dela, uma chuva fina começou a cair.

O vestido branco logo ficou coberto de lama.

Os guardas soltaram seus braços sem qualquer cuidado.

Ela caiu de joelhos na estrada.

— Nunca mais volte.

Os portões se fecharam com um estrondo.

Elara permaneceu imóvel.

O mundo parecia distante.

Durante alguns minutos apenas ouviu a chuva.

Então levou a mão ao peito.

A dor do vínculo diminuía lentamente.

Em seu lugar surgia outra sensação.

Algo quente.

Profundo.

Como brasas escondidas sob a pele.

Ela franziu a testa.

Aquilo não era normal.

O rompimento de um vínculo costumava deixar apenas vazio.

Jamais aquele calor estranho.

Seu pulso esquerdo começou a arder.

Ela afastou a manga molhada.

Uma marca negra surgia lentamente.

Linhas delicadas desenhavam um círculo semelhante a uma lua cercada por galhos escuros.

A pele brilhava com uma luz prateada.

Elara nunca vira aquele símbolo.

Tentou esfregá-lo.

Nada aconteceu.

Pelo contrário.

A marca tornou-se ainda mais intensa.

Um vento gelado atravessou a floresta.

As árvores começaram a balançar.

Os pássaros levantaram voo ao mesmo tempo.

Em seguida...

Um longo uivo ecoou entre as montanhas.

Não era um lobo comum.

O som era grave.

Antigo.

Poderoso.

Tão intenso que fez o chão vibrar sob seus pés.

Elara ergueu lentamente a cabeça.

Havia alguma coisa observando.

Ela conseguia sentir.

Os pelos de sua nuca arrepiaram.

Mesmo assim, não enxergava ninguém.

Respirou fundo.

Precisava sair dali.

Levantou-se com dificuldade e começou a caminhar pela estrada coberta de lama.

Não sabia para onde iria.

Não possuía família.

Seus pais haviam morrido quando ela ainda era criança.

Desde então vivera sob proteção da Casa Draven.

Agora não tinha absolutamente nada.

A noite avançava rapidamente.

A chuva aumentava.

As árvores tornavam a floresta cada vez mais escura.

Depois de quase uma hora caminhando, suas pernas perderam as forças.

Ela apoiou-se em um tronco.

A visão começou a embaçar.

O calor em seu pulso espalhava-se pelo braço inteiro.

Seu coração acelerou.

Algo estava errado.

Muito errado.

Então ouviu passos.

Lentos.

Pesados.

Não eram humanos.

Entre as árvores surgiram cinco lobos enormes.

Eram maiores que qualquer guerreiro transformado que ela já havia visto.

Seus pelos eram completamente negros.

Os olhos brilhavam em um tom dourado intenso.

Eles cercaram Elara em absoluto silêncio.

Ela recuou um passo.

Outro.

As costas encontraram o tronco.

Seu corpo não suportaria uma fuga.

Fechou os olhos por um breve instante.

Se fosse morrer, não teria forças para lutar.

Quando tornou a abri-los, percebeu que nenhum daqueles animais demonstrava agressividade.

Permaneciam imóveis.

Como se aguardassem alguma ordem.

Foi então que uma voz feminina surgiu atrás deles.

Calma.

Elegante.

Autoritária.

— Finalmente encontramos você.

Os cinco lobos abriram caminho ao mesmo tempo.

Uma mulher apareceu entre as árvores.

Usava um longo manto negro bordado com fios prateados que brilhavam mesmo sob a chuva.

Seu cabelo branco descia até a cintura.

Os olhos violetas carregavam uma serenidade impossível de explicar.

Ela observou atentamente o pulso de Elara.

Seu semblante mudou.

Não havia surpresa.

Havia respeito.

A desconhecida ajoelhou-se diante dela.

Um gesto que nenhuma líder de alcateia faria diante de uma simples loba.

Levou a mão ao próprio peito e inclinou a cabeça.

— Minha Rainha...

Esperamos pelo seu despertar durante mais de trezentos anos.

Antes que Elara pudesse perguntar qualquer coisa, a escuridão tomou conta de sua visão.

Seu corpo cedeu.

Ela desmaiou nos braços da misteriosa mulher, enquanto os cinco lobos negros erguiam a cabeça para a lua e uivavam em perfeita sintonia, anunciando ao mundo que a herdeira da Lua Negra havia sido encontrada.

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