Mundo ficciónIniciar sesiónAlana sempre foi a pária da Alcateia do Vale Sangrento. Órfã, pobre e sem prestígio, ela sobrevivia trabalhando na biblioteca do bando, agarrando-se à esperança de que, ao completar dezoito anos, a Deusa da Lua lhe concederia o presente que sempre sonhou: um companheiro destinado. E ela concedeu. O problema era que esse companheiro era Hunter Collins, o novo Alfa Supremo. Alana acreditou que finalmente teria um lar. Mas Hunter, consumido pela ambição e manipulado por aqueles que desejavam vê-la destruída, rejeitou o vínculo diante de toda a alcateia, declarando que uma loba comum jamais seria digna de ocupar o posto de Luna. Humilhada, de coração partido e sem nada além da própria dor, Alana fugiu para o mundo humano, decidida a nunca mais olhar para trás. Três anos depois, a garota tímida e ingênua deixou de existir. Em seu lugar surgiu uma mulher poderosa, elegante e implacável: a CEO da maior holding financeira do mundo corporativo. Enquanto isso, a Alcateia do Vale Sangrento está à beira da ruína. Sem alternativas, Hunter precisa buscar ajuda justamente da investidora misteriosa capaz de salvar seu povo. O choque é devastador quando ele entra na sala de reuniões e descobre a verdade. A mulher que pode decidir o destino de sua alcateia é a mesma Luna que ele rejeitou. Pela primeira vez, Hunter entende o peso do erro que cometeu. O vínculo que tentou destruir desperta dentro dele com uma obsessão avassaladora e um arrependimento tardio. Agora, o Alfa Supremo está disposto a implorar por uma segunda chance. Mas Alana não é mais a loba que ele humilhou. E ela pretende fazê-lo pagar o preço mais alto por ter destruído o único amor que a Deusa da Lua lhe concedeu.
Leer másPOV Alana
Minhas mãos tremiam tanto que o pequeno pedaço de espelho rachado, que eu mantinha escondido sob o meu colchão de palha nos alojamentos dos servos, quase escorregou pelos meus dedos.
Respirei fundo, tentando conter a batida descompassada do meu coração. Encarei meu próprio reflexo. O vestido azul-escuro que eu usava era simples, feito de um tecido áspero e visivelmente desgastado pelo tempo, mas limpo e costurado com todo o cuidado do mundo.
Hoje era a noite mais importante da minha vida. Hoje eu completava dezoito anos.
No mundo dos lobisomens, atingir a maioridade significava o despertar do lobo interior e, acima de tudo, a revelação do laço sagrado tecido pela Deusa da Lua. O dia em que descobriríamos a identidade do nosso mate, a alma gêmea destinada a nos completar.
Eu era apenas uma pária, uma ômega órfã na orgulhosa e implacável Alcateia do Vale Sangrento. Desde que meus pais morreram defendendo as fronteiras em uma patrulha mal planejada pelos generais, minha existência havia sido reduzida a limpar a poeira da imensa biblioteca do bando e recolher os restos de comida dos nobres. Eu não tinha terras, não tinha herança e não tinha voz. Mas eu tinha esperança. Alimentava a ingênua certeza de que a Deusa da Lua olharia para o meu sofrimento e me daria um parceiro que me amasse e me protegesse do frio.
E, no canto mais escuro e secreto da minha mente, eu ousava sonhar com um nome. Hunter.
Hunter Collins era o herdeiro legítimo do trono da alcateia, o homem que seria coroado Alfa Supremo naquela mesma noite. Ele era a personificação do poder selvagem: alto, com ombros largos que pareciam carregar o peso do mundo, olhos castanhos profundos e uma aura de comando tão violenta que fazia até os guerreiros veteranos curvarem a cabeça em sua presença. Nós havíamos compartilhado sorrisos e conversas sussurradas na infância, antes de ele ser isolado para o treinamento brutal de liderança. E, embora ele fingisse não me ver nos últimos anos, eu já havia flagrado o calor de seus olhos fixos em mim através das janelas da biblioteca mais vezes do que conseguia contar.
— Alana! O que você ainda está fazendo parada olhando para o nada, sua garota estúpida? — a voz ríspida de Tia Gabi me trouxe de volta à realidade, mas seu tom mudou para um sussurro preocupado assim que ela fechou a porta de madeira do quartinho.
Gabi era uma loba ômega mais velha, de cabelos grisalhos e mãos calejadas pela cozinha. Ela fora a melhor amiga da minha mãe e a única pessoa que me estendia um prato de sopa quente e um abraço genuíno quando o mundo desabava. Ela caminhou até mim, ajeitando uma mecha do meu cabelo com carinho, mas seus olhos estavam cheios de angústia.
— O salão principal já está lotado, minha menina. A elite está sedenta por sangue e poder. Tome cuidado. Se o seu laço despertar esta noite, esconda suas reações o máximo que puder até sair daquele salão. A nobreza não tolera a felicidade dos humildes.
— Eu vou ficar bem, tia Gabi. Prometo — respondi, tentando forçar um sorriso que não transmitia minha ansiedade.
Caminhei em direção ao grande salão de festas da mansão do Alfa. A atmosfera estava eletrizante, impregnada com o cheiro de vinho, carne assada e os hormônios alterados de centenas de lobos celebrando a transição de poder. Peguei uma bandeja de metal pesada e comecei a recolher os copos vazios nos cantos do salão, tentando me misturar às sombras das grandes colunas de pedra.
— Ora, se não é a rata de biblioteca tentando se fantasiar de nobre — uma risada estridente e carregada de veneno ecoou atrás de mim.
Virei-me lentamente e dei de cara com Vívian Miller. Ela era a filha do Beta principal, uma loba de linhagem pura, incrivelmente bela e fria. Vívian usava um vestido de seda vermelha que parecia sangue líquido, joias de diamantes que cintilavam sob as tochas e exalava um perfume sufocante de rosas artificiais. Ela era a favorita da corte para se tornar a nova Luna, a rainha da alcateia, por pura conveniência política e financeira.
— Esse trapo azul que você está usando por acaso é o uniforme de lixeira agora, Alana? — Vívian zombou, cruzando os braços e me medindo com nojo. — Limpe logo aquela mesa ali e suma da minha frente antes que o Hunter chegue. Não quero que o meu futuro noivo sinta o cheiro de mofo que você exala.
Engoli o gosto amargo do meu próprio orgulho ferido e dei as costas, recusando-me a dar a ela o prazer de ver minhas lágrimas. Eu sabia o meu lugar. Pelo menos, achava que sabia.
De repente, os tambores rústicos da alcateia silenciaram de forma abrupta. Um silêncio reverente e quase sufocante tomou conta do recinto. As imensas portas duplas de carvalho se abriram de par em par, e Hunter Collins entrou.
Meu coração errou as batidas, batendo contra minhas costelas como um pássaro engaiolado. Hunter estava magnífico em um traje escuro de corte militar que acentuava sua postura impecável. A energia mística da liderança recém-adquirida emanava dele em ondas quase visíveis, fazendo a pressão atmosférica do salão despencar. Todos os lobos, do mais forte guerreiro ao ômega mais simples, curvaram a cabeça. Eu também baixei a minha, mas mantive meus olhos fixos nele.
Foi exatamente quando ele deu o terceiro passo sobre o tapete vermelho que o universo ruiu.
Uma descarga elétrica de proporções violentas percorreu a minha espinha, fazendo cada célula do meu corpo vibrar. Minha loba interior, que passara dezoito anos adormecida, despertou com um uivo ensurdecedor de pura adoração dentro da minha cabeça. O ar ao meu redor sumiu, sendo substituído por um perfume avassalador, denso e inebriante de tempestade, carvalho e hortelã fresca.
O cheiro dele.
Meu. Ele é nosso! A voz da minha loba ecoou na minha mente, selvagem e possessiva.
Hunter travou os passos no meio do salão. Sua cabeça girou de forma brusca, quase violenta, na minha direção. Nossos olhares se cruzaram através da multidão ruidosa, e vi as pupilas castanhas dele se dilatarem instantaneamente até que seus olhos ficassem completamente negros, dominados pelo lobo dele. O laço de alma havia se formado. O destino havia escolhido.
O novo Alfa Supremo do Vale Sangrento era o meu parceiro de alma.
Por um segundo eterno, uma alegria infantil, pura e avassaladora inundou meu peito. Eu não seria mais uma órfã abandonada. Eu tinha um parceiro.
Mas a ilusão durou menos do que o tempo de uma respiração. Vi o momento exato em que a surpresa nos olhos de Hunter evaporou, dando lugar a uma frieza gélida, calculista e cortante. Ele olhou para o meu vestido remendado, para as minhas mãos calejadas que seguravam a bandeja de metal e para a minha postura assustada. Vívian se aproximou dele imediatamente, entrelaçando o braço no dele com possessividade e sussurrando algo com desdém enquanto apontava para mim.
Hunter quebrou o contato visual comigo de forma deliberada, como se estivesse limpando a vista de uma visão repulsiva. Ele subiu os degraus de pedra até o trono, virando-se para o bando com a expressão endurecida.
— Lobos do Vale Sangrento! — a voz de comando dele ecoou como um trovão, fazendo os cristais das janelas vibrarem. — Hoje assumo este trono com a promessa de expandir nossas fronteiras e garantir nossa soberania. Para isso, precisamos de alianças indestrutíveis, riqueza e uma linhagem pura que imponha respeito aos nossos inimigos. O dever com a minha alcateia está acima de qualquer capricho do destino.
Um aperto cruel esmagou meu pulmão.
Dei um passo à frente, implorando mentalmente por um olhar, por um vislumbre de humanidade. Mas Hunter cravou seus olhos nos meus com o desprezo de um carrasco.
— Eu, Hunter Collins, Alfa Supremo do Vale Sangrento, rejeito formalmente você, Alana, como minha Luna e parceira de alma.
Aquelas palavras foram como adagas reais rasgando meu peito de ponta a ponta. A dor física da quebra do laço sagrado foi tão violenta que minha bandeja caiu no chão com um estrondo metálico ecoante. Cambaleei para trás, minhas pernas perdendo as forças, e precisei me agarrar desesperadamente a uma pilastra de pedra para não desabar de joelhos no chão. Minha loba soltou um ganido de agonia tão profundo e doentio que tive de morder meu próprio lábio até sangrar para não gritar na frente de todos.
— Uma loba comum, órfã e sem um único centavo de herança nunca será digna de se sentar ao meu lado no trono do Vale Sangrento — a voz de Hunter continuou, fria, firme e sem o menor pingo de remorso. — Você é inútil para o futuro da minha alcateia. Aceite a rejeição e suma do meu caminho.
O silêncio do salão se transformou em uma onda de risadas abafadas e deboches cruéis. Vívian sorria de forma triunfante no altar, erguendo o queixo como a nova rainha. Os olhares de pena e satisfação dos nobres queimavam a minha pele como ácido. Eu havia sido humilhada publicamente no dia do meu aniversário.
As lágrimas inundaram meus olhos, quentes e pesadas, mas algo novo e rígido nasceu no centro do meu peito destruído. Limpei o rosto com as costas da mão calejada e juntei cada grama de força que me restava. Ergui a cabeça com uma dignidade que nenhum deles jamais teria e encarei o Alfa no topo do seu trono de mentiras.
— Que a Deusa da Lua perdoe a sua arrogância, Alfa Hunter — minha voz saiu alta, trêmula pela dor, mas firme o suficiente para cortar os sussurros do salão. — Porque eu nunca vou perdoar.
Virei as costas e corri.
Atravessei as portas sob o eco das gargalhadas da elite, passei correndo pelos corredores de pedra e me tranquei no meu quartinho escuro. Juntei minhas poucas roupas em uma mochila velha, peguei as economias que tia Gabi havia me dado e decidi que aquela era a minha última noite naquele inferno.
Se o mundo dos lobos me media por linhagem, títulos e dinheiro, eu iria para o único lugar onde os dentes deles não podiam me alcançar: o mundo dos humanos.
Me despedi da Tia Gabi e fui embora.
Enquanto o ônibus da madrugada se afastava das montanhas do Vale Sangrento, olhei pela janela de vidro reflexivo para a lua cheia que brilhava no céu. A dor da rejeição ainda queimava como brasa, mas estava se transformando em uma promessa de gelo. Hunter Collins havia feito sua escolha pela ambição. E eu jurava, pela memória dos meus pais, que ele pagaria o preço mais alto que um Alfa já pagou na história deste mundo.
POV HunterEla estava se afogando no cio. Eu podia sentir, através do vínculo místico que nos unia, através do cheiro dela que preenchia cada um dos meus poros, através dos pequenos sons desesperados que escapavam da boca dela, que o prazer a consumia, que a febre finalmente estava encontrando uma válvula de escape.Mas não era o suficiente. Não para mim.Eu queria mais. Queria tudo. Queria cada centímetro do corpo dela, cada pensamento, cada batida do coração dela.— Hunter... — Alana puxou meus cabelos com força, forçando-me a levantar o rosto. Seus olhos verdes estavam selvagens, suas bochechas coradas, seus lábios entreabertos. — Para. Para agora.Congelei.— O que foi? — A palavra saiu em pânico, meu coração apertando no peito. — Eu fiz algo errado? Eu machuquei...— Você não machucou nada, idiota. — Ela riu, mas era um riso trêmulo, cortado pela respiração ofegante. Puxou-me para cima, até que nossos rostos estivessem novamente nivelados, nossas testas coladas. — Mas se você con
POV HunterA água da cachoeira estava gelada.Deveria ter apagado o fogo.Não apagou.A Alana — minha Alana, a fêmea que eu havia passado anos tentando odiar, tentando esquecer, tentando convencer a mim mesmo de que não precisava — estava submersa até a cintura nas águas escuras da Fronteira Sul, e cada centímetro do corpo dela que a camada líquida tocava fazia o meu sangue ferver mais.Ela estava nua.O moletom rasgado boiava rio abaixo junto com a legging que eu arranquei dela com os dentes — com os dentes, como um selvagem, como o animal que Ragnar exigia que eu fosse. A lua prateada beijava os ombros dela, a curva dos seios, o triângulo escuro entre as coxas que a água cristalina não conseguia esconder completamente.Ela era perfeita.Não no sentido poético que os humanos usam. Não no sentido vazio dos elogios de bar.Ela era perfeita no sentido mais antigo da palavra. No sentido que fazia os deuses das antigas alcateias se curvarem em veneração. Cada centímetro da pele dela era u
POV AlanaO cenário da cachoeira da Fronteira Sul parecia suspenso no tempo. A névoa fria da madrugada subia das águas esmeraldas, colidindo com o calor febril que emanava do meu próprio corpo. A lua, quase tocando o topo das montanhas, lançava um brilho prateado sobre a silhueta imensa de Hunter Collins.Ele estava ali, de pé sobre as rochas úmidas, exatamente como a mensagem mental que enviei havia determinado. Ragnar já não controlava totalmente suas pupilas; o castanho de seus olhos havia retornado, mas era um castanho injetado de sangue, fixo, faminto. Suas mãos estavam espalmadas ao lado do corpo, os dedos ainda trêmulos pela fúria contida do ciúme que o consumia. O cheiro de tempestade e ozônio que ele exalava era tão denso que abafava o odor de terra molhada da floresta.Dei o primeiro passo para fora da trilha, revelando-me na clareira. Eu não usava mais os ternos caros da capital. Com a calça legging escura e o moletom de capuz, eu parecia mais com a loba que pertencia àquel
POV Alana O silêncio que se instalou no saguão após o meu ultimato era tão denso que quase se podia ouvir a poeira flutuando sob as primeiras horas da madrugada. Hunter permanecia estático diante de mim, a respiração pesada modulando os músculos do peito nu, enquanto seus olhos negros vagavam entre o meu rosto e a figura de Nicholas na escada. A promessa de morte que fiz segurou as garras de Ragnar, mas o laço místico entre nós continuava vibrando como uma corda de piano prestes a arrebentar.Fechei os olhos por um segundo, sentindo a cólica do cio retorcer o meu ventre. A noite ainda não havia terminado, e a febre biológica exigia o desfecho que eu tentava adiar.“Chame-o...” — Aisha sussurrou na minha mente, a voz exausta da própria queimação. “O humano não aguenta mais. Se você não der ao Alfa um lugar para sangrar essa fúria, ele vai destruir o vale. Chame-o para as águas sagradas.”Abri os olhos e mirei a escuridão das pupilas de Hunter. Não usei a minha voz humana. Usei o canal
Último capítulo