Mundo ficciónIniciar sesiónHannah acabou de chegar a Twin Falls, uma cidade cercada de segredos e mistérios que parecem sussurrar através das sombras. Nova e sem ninguém em quem confiar, ela tenta reconstruir sua vida, mas logo percebe que algo está errado. A medida que Hannah se aproxima da verdade, percebe que a cidade esconde forças muito antigas, lobos que espreitam na escuridão e profecias que poucos ousam mencionar. Cada passo que dá a coloca mais perto de um destino que ela nunca imaginou, onde confiança e desejo se misturam, e a linha entre amigos e inimigos se tornam cada vez mais tênue. Em Twin Falls, nada é o que parece… e para sobreviver, Hannah terá que descobrir em quem confiar. "O que você faria se a verdade que ameaça destruir você viesse com olhos que você não consegue resistir?"
Leer másHANNAH
Acordei com o barulho de uivos ao meu redor e uma dor aguda atrás da minha cabeça que me fez fechar os olhos novamente, gemendo baixinho. Como reflexo, minha mão seguiu para a parte dolorida e notei que havia um pouco de sangue, mas antes que eu pudesse assimilar o que estava acontecendo ou onde eu poderia estar, ouvi o estalo de um galho próximo a mim. Senti algo se aproximando e minha intuição dizia que não era um animal pequeno. Enquanto eu procurava de onde poderia ter vindo o barulho, um rosnado soou atrás de um arbusto a minha direita, com toda certeza, era um lobo, não parecia o rosnado de um cachorro, então só poderia ser... Um lobo.
Comecei a correr, não tinha muito o que pensar. Você já deve ter visto um lobo em um zoológico ou em uma reserva, certo? Eu já, e sabia que estava encrencada. Eles são animais grandes, fortes e o que mais me preocupava neste momento, sua agilidade. Droga! Eles são muito rápidos, nem sei por que estou me esforçando tanto para correr. Talvez seja apenas o meu instinto de sobrevivência falando mais alto.
Eu estava um caos, minha mente não conseguia focar em nada, além da súbita necessidade de fugir. Minha camisola de seda branca, agora rasgada em várias partes, se tingia com meu sangue. A cada passo mais arranhões surgiam onde galhos e pedras se chocavam contra mim, com o ar gélido dessa densa floresta queimando minha pele exposta.
Meus pensamentos fluíam como um rio, em várias teorias, tentando entender o que estava acontecendo comigo. Imaginei se pudesse ter sido drogada, sequestrada ou mesmo violentada. Não sinto que seja o ultimo caso, pois a única dor que invade minha alma, neste instante, é dessa pancada na minha cabeça. É como se pulsasse junto com o meu coração, e além dos arranhões de agora, não acredito que outra coisa tenha acontecido. Mas com relação ao sequestro, já é outra história. É a única explicação que vejo para ter acordado aqui. Então me pergunto do por que de estar sozinha. Quem poderia querer meu mal nesta cidade? Não conheço praticamente ninguém ainda, então por qual razão alguém iria querer me machucar ou desejar minha morte.
Em meio a minha fuga, tropeço em alguns galhos secos, a floresta está se recuperando depois do intenso inverno. Pelo menos, foi o que me foi dito nesta semana que estou aqui. De relance, olho para cima e pela altura da lua, imagino que já se tenha passado da meia noite. Eu não sabia como tinha vindo parar aqui e a razão de estar usando uma roupa tão reveladora, ainda mais nesse frio. O mais importante agora é continuar a correr. Quem em sã consciência sairia por aí com uma camisola quase transparente? Minhas bochechas poderiam estar queimando de vergonha se eu não estivesse em pânico, lutando pela minha vida.
É engraçado como passa mil coisas em nossa cabeça quando a gente acha que é o fim. Como um rolo de filme antigo nos apresentando o passado, presente e um breve vislumbre de como poderia ser nosso futuro.
Eu recordo que sempre me senti muito sozinha, minha família nunca se importou verdadeiramente comigo, a não ser o meu pai. Sua bondade era como um oceano sem fim e sinto saudades dele todos os dias. Essa não é uma boa hora para chorar, mas não consigo conter as lágrimas que rolam pelas minhas bochechas. Eu era muito nova quando ele se foi, mas tenho lembranças de todos os nossos momentos juntos. O que me faz pensar no motivo de ter me mudado há pouco tempo para Twin Falls. Não que fosse a minha primeira opção, mas queria apenas sumir por um tempo, ou talvez para sempre, daquela vida que eu conhecia. Estava cansada das preocupações falsas da minha madrasta, que queria apenas me controlar e da minha 'irmã' dissimulada. Da sua boca podiam sair palavras doces, mas os olhos não mentem; como dizem, ele é o espelho da alma; fora o desprezo em seu tom de voz denunciavam que o meu lugar não era ali.
Tudo era um lembrete que eu estava sendo um peso para elas, ainda mais depois que meu pai faleceu. As coisas mudaram completamente entre nós. Foi a partir deste ponto, que percebi que nunca fui amada por elas, eu vivi em uma peça teatral dirigida pela minha madrasta durante anos e não havia percebido. Para piorar ainda mais a situação, fiquei desempregada. Sempre fui muito esforçada, mas as portas estavam se fechando diante de mim e nada do que eu fazia parecia ser bom o suficiente. Isso me esgotava, estava nítida que minha presença já não era bem vinda à minha própria casa, então peguei algumas economias que juntei quando ainda tinha um salário e decidi sumir da vida delas.
Encontrei por um acaso o folheto de turismo da cidade de Twin Falls, achei lindas as quedas d’água e as paisagens que a rodeavam, talvez neste lugar eu pudesse viver sem tanta pressão ou alguém colocando falsas expectativas sobre mim.
Quando cheguei ao condado não conhecia ninguém e como ainda era dia, passei de comércio em comércio perguntando se precisavam de alguém para trabalhar.
Parece loucura sair da cidade onde você cresceu para se aventurar em um lugar novo, sem nem ao menos pesquisar o que eu poderia fazer para me manter ou onde iria morar, mas sentia que algo me chamava, talvez fosse apenas o desespero de um novo começo.
Não precisei procurar muito, logo consegui emprego em um café e o que era mais impressionante, a proprietária me ofereceu um quartinho no segundo andar, pois estava vago para alugar. Ela disse que não me cobraria muito. Deveria estar com pena da minha situação, pois cheguei apenas com a roupa do corpo e uma mochila nas costas.
A senhora se chamava Lucy Pierce, ela tinha uma aparência bem cuidada, a única coisa que poderia denunciar sua idade eram os cabelos grisalhos, porque suas marcas de expressões eram quase inexistentes. Admirei por um momento sua pele radiante, não sei ao certo como chegamos ao assunto de quantos anos tínhamos, mas continuo admirada com a beleza dessa senhora. Ela também morava no segundo andar, sua casa tinha três quartos. Enquanto era me apresentado o local, avistei uma mulher mais jovem saindo de um dos quartos principais, ela tinha cabelos castanhos, com toques avermelhados, suas mechas caíam como em ondas até o quadril, o que fazia lembrar muito meu próprio cabelo, quando o deixava solto, mas seus olhos eram azuis como um céu claro de outono, assim como os da Sra. Pierce. Presumi então que fosse sua filha, e ela sorriu para mim, estendendo uma mão, se apresentando como Lilly Pierce. Já nos demos bem logo de cara. Se eu tivesse imaginado como a Sra. Pierce seria mais nova, agora não teria mais dúvidas, pois esta moça era sua cópia em igual beleza.
Lilly me mostrou um pouco da cidade e eu achei tudo uma graça. Durante esses dias parecíamos uma só, pois onde uma estava a outra também poderia ser encontrada. Ouvi tanto a respeito da cidade, que fiquei ansiosa pelo final de semana para poder explorar mais das riquezas naturais que o local proporcionava. Porém havia algo de errado, como um sexto sentido avisando que eu estava deixando algo passar.
A minha ânsia por uma vida tranquila me deixou cega para alguns detalhes que eu não havia notado, mas agora, correndo no meio dessa floresta escura, apenas com a visão que a lua cheia proporcionava, algumas imagens me vinham à mente em meio a minha respiração ofegante. Lembrei-me de alguns olhares estranhos que os moradores lançavam para nós, enquanto andávamos pelas ruas, e de algumas moças que cochichavam ao passarem do nosso lado. Lilly me falou para ter cuidado com elas, pois eram todas falsas e invejosas, queriam ter o que não podiam. Ela mencionou isso de uma forma bem audível, acredito que de propósito para que aquelas fofoqueiras pudessem escutar. Achei um pouco rude da parte da Lilly, mas o fato de saber que estavam falando pelas nossas costas, não me fez ter pena delas.
Notei também que muitos homens iam ao café, eles me encaravam descaradamente enquanto eu preparava seus pedidos. Acredito que nessa semana em que comecei a trabalhar, não havia atendido uma cliente mulher. Não estou reclamando, apesar da aparência rústica dos clientes, eles eram bem atraentes, mas seus olhares atrevidos eram um tanto desconfortáveis. Ainda mais para mim que não estava acostumada com esse tipo de atenção. Não me considero uma mulher tão bonita, mas posso entender a leve curiosidade. Acredito que podemos comparar como quando se é transferido de uma escola na metade do ano e o novato passa ser uma 'novidade atraente'. O que eu não sabia é que a minha vinda a essa cidade não se resumiria apenas a olhares e burburinhos.
Tento me recordar quem poderia ter me golpeado na cabeça e me largado aqui. Acho que não deu tempo de ver o rosto da pessoa. Poderia ter sido alguma daquelas mulheres que vimos durante a semana, elas pareciam não ter gostado muito de mim. Não consigo pensar em mais ninguém que poderia estar envolvido. Se for por causa de ciúmes ou inveja, como a Lilly havia mencionado, elas exageraram muito, pois não me vejo com nenhum dos homens desta cidade. Ou se for algum tipo de pegadinha ou iniciação para novos moradores, isso seria totalmente insano. Quem largaria uma pessoa inconsciente na floresta com animais selvagens?
Eu só queria um pouco de paz, não do descanso eterno que aparentemente alguém queira me dar, mas apenas uma vida tranquila e sossegada.
ELIJAH Desde o momento que senti o seu cheiro no café, não consigo mais tirar ela dos meus pensamentos. Esta mulher não pode ser minha companheira, uma simples humana. Um Lycan não pode se envolver com alguém de uma posição tão baixa, principalmente de uma espécie diferente. Os licantropos precisam de um exemplo a seguir, temos regras e hierarquias dentro das alcateias. Um líder deve dar esse exemplo. O plano era me juntar à Lilly, ela deveria ser minha acompanhante no dia da Caçada do Equinócio de Primavera. Nossa união oficial está planejada apenas para o final do ano, até lá, temos cerimônias que devemos comparecer juntos para que os anciãos não comecem a desconfiar. Eu sabia que havia algo de errado quando falei com Lucy ontem, ela havia me contado que Lilly não estava em casa, que visitava uma amiga, mas que estaria na cerimônia na hora marcada. Ontem foi a Caçada da Primavera, onde os novos casais deveriam participar da cerimônia. Este é o primeiro passo para que ele
HANNAH “Caramba, uma mulher não pode ter privacidade por aqui?” Falei irritada, mas queria mesmo sumir dali. Quão humilhante é para alguém estar 'nesse estado' na frente de dois estranhos. Tudo bem que havia um lençol me cobrindo, mas eu sentia como se não houvesse nenhum. “Privacidade? Acredito que eu esteja te dando privacidade o suficiente... E você pode não lembrar, mas você mostrou muito mais do que apenas os seus ombros para mim ontem à noite e não foi, de todo, minha culpa..." O idiota de cabelo preto esbravejou, tentando falar com desdém, porém os seus olhos o traíam, pois pareciam me despir enquanto percorriam a forma do meu corpo marcada sobre o tecido. Encolhi-me ainda mais na cama. “Eu não acredito que eu mesma tenha feito isso comigo.” Apontei uma das mãos em direção ao meu corpo e depois mirei na direção dele. “E ainda mais na sua frente!” “Por isso eu disse que não foi inteiramente minha culpa. Você pode não ter tirado, mas eu também não tinha a intenção de ve
HANNAH Sinto cada parte do meu corpo dolorida, acho que não vou conseguir sair da cama hoje. Devo estar doente. Talvez eu tenha pegado uma gripe daquelas. A febre deve ter me causado alucinações ou meus sonhos estão ficando cada vez mais realistas. Meus sonhos sempre foram estranhos, mas ontem devo ter me superado. Foi tão real, que ainda sinto o cheiro de açúcar caramelizado no ar, mas na minha pele está aquele cheiro envolvente de pinheiros e avelãs sendo torradas. Podia sentir cada parte do seu corpo me envolvendo, cuidando de mim como se eu fosse feita de cristal. Nunca havia me sentido tão protegida e acolhida por alguém. Se eu pudesse escolher, escolheria ficar na cama o resto do dia e voltar a... “Então... Você acordou?” Uma voz rouca e charmosa soou próxima a mim. “Puta merd...!” Segurei minha boca como se tentasse engolir as palavras, mas como se expressar a isso? Meu coração chegou a pular uma batida com o susto. Não consegui ver o seu rosto, mas deu para notar que e
HANNAH Olhei para o lobo vermelho que se aproximava, mas ele não parecia querer me atacar. “Não se aproxime!”. Exclamei, me arrastando pelo chão, pois já estava sem fôlego para correr. Mesmo que eu pensasse que ele não me atacaria, continuava sendo um animal selvagem e eu estava apavorada. Como se o lobo me entendesse, ele parou, mas fez um barulho parecendo dizer que ficaria tudo bem. Então continuou se aproximando e colocou seu focinho bem próximo ao meu rosto. Num rápido movimento ele envolveu meu pescoço, como se estivesse sentindo meu cheiro igual ao outro lobo, mas ele não parecia bravo como o seu amigo, parecia mais curioso. Então ele se abaixou ficando com o corpo a minha altura e me empurrou com seu focinho como se estivesse pedindo para montá-lo. Ele era realmente quase o tamanho de um cavalo, eu poderia montá-lo se quisesse, mas estava petrificada de medo. Com os segundos passando e meu último pingo de coragem, forcei-me a perguntar: “Você quer que eu suba em vo
HANNAH Finalmente de volta a luta pela minha vida, chega de flashes do passado. Pensar no que aconteceu não esta me ajudando a sair dessa situação. Está só me distraindo do mais importante agora. Tropecei em mais um galho, as árvores aqui eram enormes, nunca havia entrado em uma floresta antes e é realmente assustador, ainda mais quando está tão escuro. Será que é cedo demais para agradecer a lua por estar tão cheia e tão grande ao ponto de iluminar quase todo o meu caminho? Se não fosse por isso, já teria dado de cara em algum tronco e morrido nas garras desses lobos. Consigo escutar diversos uivos bem distantes, vindos de várias direções, mas apenas um me assusta mais, o que está logo atrás de mim. Já era para ele ter me alcançado, eu não sou muito boa em esportes, nunca corri grandes distâncias na minha vida, mas parece que hoje estou com sorte. Talvez a adrenalina tenha me feito ganhar um fôlego a mais. Bem que dizem que com um objetivo estabelecido a gente vai mais longe e
HANNAH Faço um esforço para recordar o que eu fiz hoje, a ferida na minha cabeça não me ajudava a lembrar, muito menos a fera atrás de mim. A semana havia sido longa, o serviço estava sendo bem puxado, de dia trabalhava servindo café e a noite, antes de fechar, era oferecido alguns drinques. Fiquei imaginando se a Sra. Pierce precisava tanto assim de dinheiro, ser autônoma realmente não deve ser fácil. Para o meu alívio, essa rotina se estenderia até o fim da lua cheia, pois todo o comércio ficaria aberto até as nove da noite, algo relacionado a um calendário que todos os moradores deveriam seguir. Espero que não seja realmente em toda lua cheia, porém não conheço bem as tradições da cidade ainda, mas ao que parece cheguei em meio os preparativos de um festival tradicional dessa região. Caminhei até a janela e pude ver a lua brilhando no céu, iluminando as ruas do centro da cidade. Como os postes permaneciam desligados neste horário, o brilho que emanava dela deixava tudo tão cla
Último capítulo