Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs palavras do dragão permaneceram vibrando na mente de todos.
Não foram apenas ouvidas.
Cada guerreiro sentiu aquela voz atravessar o peito como se despertasse lembranças enterradas pelo tempo.
O vento cessou.
Os cavalos se recusavam a avançar.
Até os lobos mantinham a cabeça baixa diante da criatura que ocupava o alto do penhasco.
Elara não conseguia desviar os olhos.
O dragão era ainda mais imponente visto de perto.
As escamas negras possuíam reflexos azulados quando tocadas pela luz da lua.
As enormes asas permaneciam parcialmente abertas, revelando cicatrizes antigas que atravessavam suas membranas.
Marcas profundas.
Feridas de guerras travadas muito antes do nascimento das alcateias.
Os olhos vermelhos, porém, não transmitiam ferocidade.
Havia inteligência.
Experiência.
Uma tristeza que parecia carregar séculos.
A criatura voltou a falar, sem mover os lábios.
Sua voz ecoava diretamente na consciência de cada pessoa.
— Eu esperei muito tempo...
Muito mais do que qualquer mortal seria capaz de imaginar.
Magnus apertou o cabo da espada.
Tentava esconder o desconforto.
— Mestre...
Cassian ergueu discretamente a mão, ordenando silêncio.
Nem ele parecia disposto a interromper aquele momento.
O dragão continuou.
— Durante séculos observei impérios nascerem e desaparecerem.
Vi reis transformarem esperança em tirania.
Vi irmãos derramarem o sangue uns dos outros.
Vi rainhas sacrificarem tudo para proteger aqueles que jamais compreenderiam seus atos.
Os olhos da criatura pousaram sobre Elara.
— Também vi sua mãe.
O coração da jovem acelerou.
— Você conheceu Aurora?
Uma longa pausa tomou conta do vale.
— Ela era muito parecida com você.
Corajosa.
Teimosa.
Disposta a enfrentar qualquer destino sozinha.
Elara sentiu um nó na garganta.
Era estranho descobrir novas partes da vida de Aurora através de pessoas que a haviam amado e respeitado.
Parecia que conhecia sua mãe apenas por fragmentos deixados na memória dos outros.
— Qual é o seu nome?
O enorme dragão fechou lentamente os olhos.
Quando voltou a abri-los, seu olhar parecia distante.
Como se recordasse um tempo perdido.
— Meu verdadeiro nome foi esquecido há muitos séculos.
Hoje sou chamado apenas de Nythar.
Seraphine levou a mão ao peito.
— Então as antigas crônicas eram verdadeiras...
Cedric aproximou-se.
— Você conhece esse nome?
Ela confirmou.
— Nythar era considerado o último Guardião dos Céus.
O mais poderoso entre os Dragões Lunares.
Diziam que desapareceu antes da queda da Lua Negra.
Nythar soltou um longo suspiro.
O ar quente que saiu de suas narinas balançou as árvores abaixo do penhasco.
— Eu não desapareci.
Fui condenado.
Elara franziu a testa.
— Condenado?
A criatura abaixou lentamente a cabeça.
— Fiz uma escolha.
E paguei por ela.
Cassian observava tudo em silêncio.
Seus olhos acompanhavam cada palavra trocada entre o dragão e Elara.
Magnus aproximou-se discretamente.
— Não era isso que o senhor havia previsto.
Cassian respondeu sem desviar o olhar.
— Não.
O dragão deveria permanecer neutro.
— Então...
Ele foi interrompido.
— Algo mudou.
Magnus permaneceu calado.
Conhecia seu mestre o suficiente para perceber quando ele estava preocupado.
E Cassian realmente estava.
Kael observava Elara.
Quanto mais a jovem conversava com Nythar, mais forte se tornava uma sensação que ele não conseguia explicar.
Parecia inadequado estar ali.
Como se ocupasse um lugar que já não lhe pertencesse.
Lucien aproximou-se dele.
— Está pensando em quê?
Kael demorou alguns segundos para responder.
— Em quantas escolhas erradas uma pessoa consegue fazer antes de perder o direito de consertá-las.
Lucien permaneceu em silêncio.
Depois respondeu com sinceridade.
— Não sei.
Mas algumas escolhas nunca deixam de cobrar seu preço.
Kael abaixou a cabeça.
Sabia que aquelas palavras eram verdadeiras.
No centro do vale...
Elara deu alguns passos à frente.
Parou exatamente abaixo do penhasco onde Nythar permanecia.
— Você disse que foi condenado.
Por quem?
Os enormes olhos vermelhos encontraram os dela.
— Pela própria família que jurava proteger.
— Por quê?
O dragão permaneceu calado durante alguns instantes.
Depois respondeu.
— Porque me recusei a participar de um massacre.
O silêncio voltou a dominar o vale.
Até Cassian fechou os olhos.
Como se aquela lembrança ainda fosse dolorosa.
Nythar continuou.
— Muitos acreditam que a guerra começou por causa do poder.
Outros dizem que tudo aconteceu por causa da Coroa.
Estão todos errados.
A verdadeira guerra começou por causa do medo.
Elara escutava atentamente.
— Medo de quê?
— Do futuro.
O dragão ergueu lentamente uma das enormes patas.
A garra apontou para Cassian.
— Alguns acreditavam que a união entre dragões e lobos acabaria criando governantes impossíveis de controlar.
Apontou então para Seraphine.
— Outros defendiam que o poder deveria servir ao povo.
Depois olhou novamente para Elara.
— Sua família escolheu proteger a liberdade.
E pagou caro por isso.
As palavras ecoaram profundamente dentro dela.
Durante toda a vida acreditara que sua história começava com a rejeição de Kael.
Agora compreendia que tudo havia começado muito antes.
Décadas antes de seu nascimento.
Aiden aproximou-se lentamente.
Parou diante do dragão.
Curvou respeitosamente a cabeça.
— Velho amigo.
Nythar voltou o olhar para ele.
— Ainda carrega culpa demais.
Aiden sorriu sem humor.
— Merecidamente.
— Não.
Você confundiu arrependimento com responsabilidade.
Os olhos do Grande Guardião perderam o brilho.
— Se eu tivesse chegado mais cedo naquela noite...
Aurora ainda estaria viva.
Nythar respondeu com firmeza.
— Não.
Cassian havia preparado aquela emboscada durante anos.
Mesmo que todos vocês estivessem reunidos...
Ainda haveria mortes.
Cassian deu um passo à frente.
— Finalmente decidiu contar apenas metade da história?
O dragão encarou o antigo Guardião.
— Quer completar?
Um sorriso discreto surgiu no rosto de Cassian.
— Posso fazer melhor.
Posso mostrar.
Ele ergueu lentamente a mão direita.
O cristal vermelho preso ao seu pulso começou a emitir uma luz intensa.
As nuvens voltaram a girar acima do vale.
Só que desta vez não eram prateadas.
Eram completamente negras.
A temperatura caiu.
Os guerreiros sentiram um arrepio percorrer a espinha.
Magnus recuou alguns passos.
Mesmo ele parecia desconfortável.
Lucien apontou a lança.
— O que está fazendo?
Cassian ignorou a pergunta.
Continuou canalizando energia para o cristal.
A própria sombra do vale começou a se mover.
Não era uma ilusão.
As sombras desprendiam-se do chão como fumaça viva.
Elara apertou a espada.
— Isso é magia?
Seraphine empalideceu.
— Não...
Evelyn olhou ao redor.
— Então o que é?
A anciã respondeu quase sem voz.
— É magia proibida.
Magia que consome memórias.
Nythar abriu completamente as asas.
Um rugido poderoso fez as sombras hesitarem.
— Cassian!
Pare imediatamente!
O antigo Guardião sorriu.
— Não posso.
Esperei vinte e cinco anos por este momento.
Elara deu um passo à frente.
— O que você quer?
Cassian finalmente olhou diretamente para ela.
Seus olhos dourados brilhavam de uma forma assustadora.
— Quero devolver aquilo que sua mãe me roubou.
A jovem franziu a testa.
— Ela nunca roubou nada de você.
O sorriso dele desapareceu.
Sua voz carregava raiva verdadeira.
— Roubou, sim.
Ela roubou o futuro que eu construí.
E escondeu o único objeto capaz de completar o Ritual da Lua Eterna.
Todos permaneceram em silêncio.
Cassian ergueu lentamente a mão em direção a Elara.
— E esse objeto... está dentro de você.
No mesmo instante, a marca no pulso de Elara brilhou intensamente.
Uma dor lancinante atravessou seu corpo.
Ela caiu de joelhos.
Imagens desconhecidas começaram a invadir sua mente.
Um altar de pedra.
Sete tronos vazios.
Uma criança envolta por luz prateada.
E Aurora, chorando enquanto colocava algo luminoso dentro do peito da filha.
Antes que a visão pudesse terminar, Nythar lançou-se do penhasco com um rugido ensurdecedor.
O enorme dragão pousou diante de Elara, protegendo-a com as asas abertas.
Olhou diretamente para Cassian e declarou com uma voz que fez as montanhas estremecerem:
— Se deseja tocar a última herdeira da Lua Negra... terá de passar por mim.
E, pela expressão de Cassian, ficou evidente que aquele confronto era inevitável.







