Mundo ficciónIniciar sesiónO rugido da criatura fez o próprio ar vibrar.
As montanhas responderam com ecos profundos.
Pedras se desprenderam dos paredões.
As águas do lago sagrado formaram ondas violentas, atingindo suas margens com força.
Durante alguns instantes, ninguém conseguiu mover um único músculo.
Nem os guerreiros da Lua Negra.
Nem os soldados da Lua Rubra.
Nem mesmo os Supremos.
Todos olhavam para o céu.
A enorme sombra circulava acima das nuvens.
Apenas partes de seu corpo eram visíveis entre os relâmpagos escuros.
Uma cauda coberta por escamas negras.
Asas largas o suficiente para esconder a luz da lua.
Olhos vermelhos que brilhavam como brasas.
Orion foi o primeiro a recuperar a voz.
— Isso não é um lobo...
Aiden permaneceu imóvel.
— Nunca foi.
Lucien apertou a lança.
— Pensei que os dragões fossem apenas lendas.
Cassian sorriu discretamente.
— É exatamente isso que torna as lendas tão perigosas.
Seraphine fechou os olhos.
Parecia fazer uma oração silenciosa.
Evelyn aproximou-se.
— Você sabia?
A anciã demorou alguns segundos antes de responder.
— Sabia que existia um.
Mas acreditava que permanecia adormecido.
Cedric virou-se para ela.
— Onde?
— Sob o Abismo de Ébano.
Um lugar que nenhum guerreiro ousava atravessar.
Magnus cruzou os braços.
— Meu mestre libertou aquilo há quinze anos.
Lucien lançou-lhe um olhar cortante.
— E você acha isso motivo de orgulho?
O comandante da Lua Rubra respondeu sem qualquer emoção.
— Não.
Acho inevitável.
Dentro da coluna de luz...
Elara sentiu uma forte pressão atravessar seu peito.
O Salão das Memórias começou a desaparecer lentamente.
As flores negras transformaram-se em pequenas partículas prateadas.
A grande árvore dissolveu-se como névoa.
Lyra observava tudo em silêncio.
Seu tempo estava chegando ao fim.
— O vínculo entre nós está enfraquecendo.
Elara deu um passo à frente.
— Ainda tenho muitas perguntas.
A antiga rainha sorriu.
— E encontrará as respostas.
Mas não comigo.
Ela levantou a mão.
No ar surgiu uma pequena esfera luminosa.
Dentro dela havia uma delicada coroa feita de prata escura.
Não era grande.
Nem extravagante.
Sua beleza estava nos detalhes.
Runas antigas percorriam todo o metal.
No centro havia uma pedra negra que refletia estrelas inexistentes.
— A Coroa da Lua Negra nunca foi um objeto.
É um legado.
Ela aproximou a esfera do peito de Elara.
A luz desapareceu lentamente dentro de seu corpo.
A jovem arregalou os olhos.
— O que aconteceu?
— A Coroa escolheu permanecer com você.
Não poderá ser roubada.
Nem destruída.
Enquanto existir uma descendente legítima...
Ela viverá.
Elara levou a mão ao coração.
Sentia uma energia diferente.
Calma.
Firme.
Como se algo finalmente tivesse encontrado seu lugar.
Lyra voltou a sorrir.
Mas havia tristeza naquele sorriso.
— Agora escute com atenção.
Existe algo que escondi até mesmo de Aurora.
O coração de Elara acelerou.
— O quê?
A rainha olhou para o céu prateado.
— A linhagem da Lua Negra não nasceu entre os lobos.
O silêncio caiu entre as duas.
Elara permaneceu imóvel.
— Não entendi.
— Muito antes das alcateias existirem...
Muito antes dos Supremos...
Existiam duas raças guardiãs da lua.
Os Lobos Celestiais.
E os Dragões Lunares.
A jovem sentiu um arrepio percorrer todo o corpo.
Lyra continuou.
— Durante séculos viveram em paz.
Até que a ambição dividiu seus povos.
Alguns dragões desejaram dominar todas as criaturas.
Outros permaneceram fiéis ao antigo juramento.
Os sobreviventes misturaram seu sangue ao dos lobos.
Foi assim que nasceu nossa família.
Elara mal conseguia respirar.
— Então...
Eu tenho sangue de dragão?
Lyra confirmou com um leve movimento da cabeça.
— Uma pequena parte.
Adormecida há gerações.
A espada escolheu você.
A Coroa reconheceu você.
Mas ainda existe um poder que nunca despertou em nenhuma rainha.
— Qual?
Lyra aproximou-se.
Seu semblante tornou-se sério.
— O Coração do Dragão Lunar.
Antes que pudesse explicar mais, o espaço inteiro começou a estremecer.
Fendas apareceram no chão.
A voz de Aiden parecia atravessar dimensões.
— Elara...
Volte.
Agora.
Lyra fechou os olhos.
— O mundo precisa de você.
Ela acariciou delicadamente o rosto da neta.
— Nunca permita que a culpa governe suas escolhas.
Foi isso que destruiu Kael.
E quase destruiu Aurora.
A imagem da antiga rainha começou a desaparecer.
— Espere!
Ainda preciso saber quem...
Mas Lyra já se desfazia em pequenos fragmentos de luz.
Sua última frase ecoou por todo o salão.
— Confie apenas naqueles que escolhem ficar... quando possuem motivos para partir.
Tudo desapareceu.
Os olhos de Elara se abriram.
A coluna de luz explodiu em milhares de partículas prateadas.
Uma onda de energia atravessou todo o vale.
As raízes da Árvore Sagrada recuaram lentamente.
A espada da Lua Negra ergueu-se sozinha no ar.
Girou uma única vez.
Depois pousou suavemente na mão de Elara.
Todos prenderam a respiração.
Ela parecia diferente.
Os cabelos estavam um pouco mais longos.
Pequenos fios prateados misturavam-se aos negros.
Seus olhos mantinham o tom original.
Mas, ao redor da íris, um fino círculo luminoso havia surgido.
Era discreto.
Quase imperceptível.
Mesmo assim, transmitia uma presença impossível de ignorar.
Lucien ajoelhou-se novamente.
— Minha Rainha.
Desta vez, parte dos guerreiros do Oeste fez o mesmo.
Os soldados da Lua Negra trocaram olhares.
Sem qualquer ordem, começaram a repetir o gesto.
Cedric foi um dos primeiros.
Depois Orion.
Logo dezenas de guerreiros estavam ajoelhados.
Kael permaneceu imóvel.
Observava Elara sem conseguir desviar os olhos.
Ela caminhou lentamente para fora do círculo formado pelas raízes.
Parou diante de Lucien.
— Levante-se.
Ele obedeceu.
Em seguida, ela olhou para os demais.
— Nenhum de vocês precisa se ajoelhar diante de mim.
O respeito de vocês será suficiente.
As palavras provocaram murmúrios entre os presentes.
Seraphine sorriu discretamente.
Aquela resposta lembrava muito Aurora.
Cassian observava tudo em silêncio.
— Interessante...
Magnus aproximou-se dele.
— Mestre...
Devemos atacar?
Cassian não respondeu imediatamente.
Continuava estudando Elara.
Como se procurasse algo.
Ou confirmasse uma antiga suspeita.
Então sorriu.
— Ainda não.
Ela acabou de despertar.
Quero descobrir até onde consegue chegar.
Magnus pareceu surpreso.
— Vai deixá-la viver?
— Sim.
Uma presa cresce melhor quando acredita estar segura.
Elara ouviu aquelas palavras.
Ergueu lentamente a espada.
A lâmina respondeu com um brilho intenso.
Ela apontou a arma diretamente para Cassian.
— Não sou sua presa.
O antigo Guardião abriu um sorriso mais amplo.
— Excelente.
Agora está começando a falar como uma rainha.
Antes que qualquer outro diálogo acontecesse, o gigantesco dragão rompeu definitivamente as nuvens.
Seu corpo tornou-se completamente visível.
As escamas negras refletiam a luz da lua.
Os chifres curvos pareciam feitos de obsidiana.
Quando bateu as asas, um vendaval percorreu todo o vale.
A criatura desceu lentamente.
Mas não atacou.
Pousou sobre um enorme penhasco acima do campo de batalha.
Os olhos vermelhos fixaram-se em Elara.
Durante longos segundos, ninguém respirou.
Então aconteceu algo que deixou até Cassian sem reação.
O colossal dragão abaixou lentamente a cabeça diante dela.
Não em submissão.
Mas em reconhecimento.
E uma voz antiga, grave e poderosa ecoou diretamente na mente de todos os presentes.
— Depois de séculos de espera...
A herdeira finalmente retornou.







