Capítulo 17 – O Ritual da Lua Eterna

O rugido de Nythar atravessou o vale como um trovão.

Suas asas gigantescas ergueram uma muralha de vento entre Elara e Cassian.

As árvores se curvaram.

Os soldados precisaram fincar as lanças no chão para não serem derrubados.

Mesmo os lobos recuaram alguns passos.

Elara ainda permanecia ajoelhada.

A dor em seu peito diminuía lentamente, mas as imagens continuavam surgindo em fragmentos.

Via Aurora.

Via um altar.

Via uma pequena esfera de luz sendo colocada dentro de seu corpo.

Nada fazia sentido.

Ela levou a mão ao coração.

Podia sentir algo pulsando.

Não era seu coração.

Era outra energia.

Antiga.

Viva.

Cassian observou o gesto e sorriu.

— Então você também começou a sentir.

Nythar soltou um novo rugido.

— Não diga mais uma palavra.

O antigo Guardião não demonstrou qualquer receio.

— Você sabe que ela precisa conhecer a verdade.

— Ela conhecerá.

— Não através de você.

Cassian abriu lentamente os braços.

— A verdade não pertence a ninguém.

Pertence apenas ao tempo.

Lucien aproximou-se de Elara.

Manteve a lança erguida, mas não desviou os olhos do inimigo.

— Consegue ficar de pé?

Ela respirou fundo.

Apoiou a espada contra o solo.

Levantou-se com esforço.

As pernas ainda tremiam.

Mesmo assim, recusou-se a demonstrar fraqueza.

— Estou bem.

Seraphine aproximou-se logo em seguida.

Sabia que aquela resposta era apenas metade da verdade.

— O que viu?

Elara fechou os olhos por um instante.

— Minha mãe...

Ela colocou alguma coisa dentro de mim.

A anciã e Evelyn trocaram um olhar preocupado.

Aiden permaneceu completamente imóvel.

Como se esperasse exatamente aquela resposta.

— Então chegou a hora.

Kael ouviu aquelas palavras.

— Hora de quê?

Aiden respondeu sem desviar o olhar de Elara.

— Hora de revelar por que Aurora sacrificou a própria vida.

O vento voltou a soprar.

Desta vez de maneira suave.

As nuvens negras continuavam cobrindo parte do céu.

Mesmo assim, pequenos feixes de luar conseguiam atravessá-las.

Nythar abaixou lentamente a enorme cabeça até ficar na altura de Elara.

— Existe uma história que foi apagada dos livros.

Ela sustentou seu olhar.

— Conte.

— Há mais de mil anos, quando os Dragões Lunares e os Lobos Celestiais ainda caminhavam juntos, foi criado um artefato para impedir que qualquer governante se tornasse absoluto.

Lucien franziu a testa.

— A Coroa?

O dragão negou.

— Não.

A Coroa concede autoridade.

O artefato de que falo limita esse poder.

Cassian completou a frase.

— O Coração da Eternidade.

Nythar voltou-se imediatamente para ele.

— Você perdeu o direito de pronunciar esse nome.

O antigo Guardião sorriu.

— Mesmo assim, continuo lembrando dele.

Elara olhou de um para o outro.

— O que é o Coração da Eternidade?

Aiden deu alguns passos à frente.

Sua voz carregava um peso incomum.

— É uma centelha criada quando a Deusa da Lua uniu a essência de um Dragão Lunar e de um Lobo Celestial.

Seraphine continuou a explicação.

— Enquanto esse poder existir, nenhum rei, rainha ou Supremo conseguirá controlar completamente todas as alcateias.

Sempre haverá equilíbrio.

Sempre haverá liberdade de escolha.

Elara começou a compreender.

— Minha mãe escondeu esse poder...

Evelyn confirmou.

— Dentro de você.

O silêncio tomou conta do vale.

Kael sentiu um arrepio.

Lucien fechou lentamente os olhos.

Até Magnus pareceu surpreso.

Cassian deu um passo adiante.

— Aurora sabia que eu jamais encontraria o artefato se ele estivesse vivo dentro de uma criança.

Elara respirou profundamente.

— Então foi por isso que tentaram me matar.

— Não.

Cassian respondeu com tranquilidade.

— Tentamos impedir que você crescesse.

Existe uma diferença.

As palavras fizeram Orion cerrar os punhos.

— Continua justificando um massacre.

Cassian olhou para ele.

— Chame como quiser.

Mas cada guerra exige escolhas.

Cedric ergueu o machado.

— Você escolheu matar inocentes.

— Escolhi salvar milhares de vidas futuras.

— Mentira!

A voz de Elara ecoou pelo vale.

Todos voltaram os olhos para ela.

A jovem caminhou alguns passos à frente.

Seus olhos permaneciam fixos em Cassian.

— Quem acredita que precisa matar crianças para construir um mundo melhor já perdeu qualquer razão.

O antigo Guardião permaneceu em silêncio.

Durante alguns segundos, apenas observou a jovem.

Depois sorriu.

— Agora entendo por que Aurora confiava tanto em você.

Você herdou o pior defeito dela.

Elara ergueu o queixo.

— Qual?

— A esperança.

Enquanto a tensão aumentava diante do exército, Darius cavalgava pelas trilhas das montanhas.

Estava muito atrás das tropas de Kael.

Ninguém percebera sua ausência.

Parou diante de uma enorme pedra coberta por musgo.

Olhou ao redor para confirmar que estava sozinho.

Em seguida retirou outro cristal vermelho.

Desta vez, porém, não falou com Magnus.

Ajoelhou-se.

Encostou o cristal na pedra.

Runas antigas começaram a surgir por toda a superfície.

Um portal estreito abriu-se lentamente.

Do outro lado havia apenas escuridão.

Uma voz feminina atravessou a abertura.

— O ritual começou?

Darius abaixou a cabeça.

— Sim.

— Cassian encontrou a herdeira?

— Encontrou.

A mulher permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Então já não existe motivo para manter minha identidade escondida.

Darius sorriu.

— Como desejar.

A voz voltou a ecoar.

Fria.

Controlada.

— Avise Cassian.

Quando a batalha terminar...

Eu mesma buscarei a garota.

O portal desapareceu.

Darius guardou o cristal.

Seu sorriso tornou-se mais amplo.

— Finalmente.

Depois de tantos anos...

A verdadeira rainha voltará.

No vale, Nythar ergueu novamente a cabeça.

Seu olhar percorreu todo o horizonte.

Algo chamara sua atenção.

As narinas dilataram.

Ele respirou profundamente.

Então fechou os olhos.

— Não...

Aiden percebeu imediatamente a mudança.

— O que aconteceu?

O dragão abriu os olhos outra vez.

Agora havia preocupação neles.

Muita preocupação.

— Existe outra presença vindo para cá.

Lucien olhou para as montanhas.

— Mais soldados?

— Não.

Cassian também começou a observar o horizonte.

Seu sorriso desapareceu pela primeira vez desde o início do confronto.

— Ela despertou...

Magnus franziu a testa.

— Mestre?

Cassian não respondeu.

Continuava olhando para o norte.

Até que murmurou quase para si mesmo:

— Achei que jamais sairia do exílio.

Seraphine empalideceu.

— Quem?

Nythar respondeu antes que Cassian pudesse falar.

Sua voz soou grave como nunca.

— A única pessoa que conhece todo o segredo do Ritual da Lua Eterna.

Elara sentiu a marca em seu pulso pulsar novamente.

Ao longe, uma figura solitária caminhava pela estreita trilha entre as montanhas.

Usava um manto azul-escuro.

Os cabelos prateados dançavam ao vento.

Ela não trazia escolta.

Não carregava armas.

Mesmo assim, a cada passo que dava, a própria natureza parecia abrir caminho diante dela.

Quando finalmente ergueu o rosto, seus olhos encontraram os de Elara.

E a jovem teve a estranha sensação de já conhecer aquela mulher.

Mesmo sem jamais tê-la visto.

Então a desconhecida sorriu.

Um sorriso triste.

Como quem reencontra alguém perdido há muitos anos.

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