Mundo de ficçãoIniciar sessãoDahlia sempre viveu à sombra da irmã mais velha, uma mulher que jamais soube lidar com responsabilidades. Após um caso de uma única noite com um homem misterioso — intenso demais para ser esquecido e ausente demais para ser encontrado — a irmã acaba engravidando. O homem desaparece sem deixar rastros, mas daquela noite impulsiva nasce uma criança. Pouco tempo depois do parto, a irmã abandona o bebê recém-nascido aos cuidados de Dahlia e some para sempre. Forçada a assumir um papel que nunca planejou, Dahlia cria o sobrinho como se fosse seu próprio filho, oferecendo amor, proteção e um lar seguro. Anos mais tarde, o passado retorna na forma de Lakan, o homem daquela noite. Ele surge exigindo levar a criança e revela uma verdade impossível: é um lobisomem — e mais do que isso, um alfa que precisa garantir um herdeiro para liderar sua alcateia. Um mundo oculto, regido por regras e hierarquias selvagens, se abre diante de Dahlia. Agora, ela precisa decidir se permitirá que seu amado sobrinho seja levado para um universo que ela não compreende — ou se enfrentará forças muito maiores do que jamais acreditou existir para protegê-lo.
Ler maisDahlia
“Querido, vamos!” falo com pressa. “Já estamos atrasados e não posso tomar outra advertência do meu chefe.”
Leo dá uma corridinha com suas pernas ágeis e segura com firmeza a minha mão.
“Por que o seu chefe é tão duro com você, mamãe?” Leo pergunta curioso.
Porque ele é um velho gordo imprestável que fez a minha escala de trabalho uma merda só para me ver sofrer.
“Eu não sei, meu anjo. Mas vamos, já estamos chegando na sua escola,” respondo ofegante.
Atravessamos a rua e, assim que chegamos na frente do portão, ajeito melhor o uniforme do Leo e o seu cabelo.
“Agora se comporte, está bem? Nada de arrumar confusão. Preste atenção direitinho na professora,” peço com a voz dócil.
“Pode deixar, mamãe,” Leo responde entusiasmado.
Despeço-me dele com um beijo em sua testa. Observo-o passar pelo corredor e, quando já estou para ir embora, a professora dele surge no portão.
“Dahlia, precisamos conversar,” ela diz, séria.
“Sinto muito, já estou muito atrasada para o meu trabalho,” respondo com pressa. “Prometo que conversaremos quando eu vier buscá-lo.”
Não dou tempo para ela me responder, já me afasto do portão com passos rápidos.
Assim que chego ao meu serviço, respiro aliviada por ver que meu chefe não está e só me atrasei cinco minutinhos.
“Onde ele está?” pergunto, ofegante, para minha colega de trabalho.
“Reunião com os fornecedores, mas ele perguntou de você também,” ela responde com humor.
Reviro os olhos e ajeito meu uniforme no corpo.
“Esse cara não larga do meu pé,” reclamo. “Pedi inúmeras vezes para ele colocar meu horário meia hora mais tarde. É muito difícil conseguir chegar a tempo quando tenho que levar o Leo para a escola.”
“Você sabe o que precisa fazer para conseguir essa meia hora, Dahlia,” minha colega responde com malícia na voz. “E se fizer direito, até pode ganhar um aumento.”
“Prefiro morrer do que me deitar com aquele homem,” respondo com uma careta.
“Você é mãe, deveria pensar no Leo. Além do mais, uma dica...” minha colega diz com a voz mais baixa. “É só você imaginar que é um homem gostoso na hora H. Pense em algum ex-namorado seu que sabia transar bem.”
Sinto minhas bochechas queimarem com suas palavras. Sou mãe do Leo, mas não porque eu o concebi do meu ventre. Minha irmã Liliane é a mãe biológica. Quando Leo tinha pouquíssimos meses de vida, ela o largou comigo e foi embora. Eu tinha dezessete anos na época.
Cuidar de um recém-nascido quando se tem dezessete anos não deu margem para me envolver com ninguém. E agora, oito anos depois, com um emprego que paga mal, é ainda mais difícil ter tempo para namorar.
“Nem se eu imaginasse o homem mais gostoso do mundo, eu faria isso,” retruco com uma risada.
Não irei perder minha virgindade por causa de meia hora e uma merreca de aumento. Tenho princípios e bom senso.
O trabalho ocorre normalmente e evito, durante todo o expediente, as investidas do meu chefe. Porém, no fim do expediente, ele me encurrala para conversarmos a sós.
“Preciso que você chegue mais cedo amanhã, preciso que você cubra o turno de uma funcionária,” ele diz com firmeza.
“O quê? É impossível! Preciso levar Leo para a escola,” respondo decidida.
“Tudo é impossível para você, Dahlia. Chegar no horário é impossível. Ficar mais tarde é impossível. Chegar mais cedo é impossível,” ele rebate com acidez. “Parece impossível para você trabalhar aqui. Talvez seja melhor eu te mandar embora, o que acha?”
Sua ameaça gela o meu coração. Preciso do emprego. Preciso muito.
“Não, não. Não será necessário isso. Eu venho mais cedo amanhã,” respondo contrariada.
Meu chefe abre um sorriso malicioso que revira o meu estômago.
“Ótimo, é isso que eu gosto de ouvir sair da sua boquinha linda,” ele diz.
Seguro a minha ânsia de vômito e saio de perto dele o mais rápido que consigo. Preciso encontrar um outro emprego o mais rápido possível. Não posso continuar nessa.
Mas que tipo de emprego eu conseguiria sem ter um diploma? Larguei a escola faltando pouco para me formar porque precisava cuidar do Leo.
Chego à escola do Leo alguns minutos atrasada. Encontro-o sentado em um banco perto do portão com a professora.
“Podemos conversar agora, Dahlia?” A professora indaga com a voz seca e dura.
Franzo o cenho para ela e afirmo com a cabeça. Percebo que meu filho está com o rosto cabisbaixo, olhando para o chão, constrangido.
“Meu anjo, fique aqui, está bem? Mamãe já vem,” digo com a voz suave.
Acompanho a professora para um canto mais reservado.
“Aconteceu alguma coisa, professora?” indaga, preocupada.
Ela solta um suspiro longo e pesado. Sinto meu corpo entrar no modo de alerta.
“Dahlia, Leo é um menino muito comunicativo. Sempre participou das atividades em grupo”, ela diz com a voz branda. “Mas ultimamente, ele tem demonstrado um comportamento mais agressivo. Hoje mesmo ele reagiu de forma violenta com um colega dele.”
Olho para ela, assustada com o relato. Giro o meu rosto para olhar para o Leo e não consigo associar o meu doce menino com um menino violento.
“Violento como? O que aconteceu?” questiono, preocupada.
“Um coleguinha dele pegou o estojo dele e jogou no lixo. Ficou implicando com Leo, coisas de crianças. A reação do Leo foi morder o menino e arranhá-lo. Tive que separá-los e levar o coleguinha na enfermaria”, a professora explica, aterrorizada.
Franzo o cenho para ela e o choque estampado em meu rosto.
“Se ele continuar com esses comportamentos, Dahlia, teremos que suspendê-lo e no ano que vem não poderemos aceitá-lo conosco,” a professora declara com firmeza.
“Por favor, não façam isso. Leo gosta muito dessa escola,” suplico com nervosismo. “Eu irei conversar com ele, prometo.”
Despeço-me da professora e pego o Leo pela mão. Todo o trajeto para casa, ele fica quieto, retraído.
“Quer me contar o que aconteceu na escola?” pergunto com a voz gentil.
Leo, por sua vez, nega com a cabeça, mantendo o olhar abaixado. Ele é um menino dócil de oito anos de idade. Não sei o que poderia estar acontecendo para ele reagir assim de repente.
Assim que chegamos na frente de casa, vejo na nossa caixa de correios novas correspondências, uma se destaca mais que as outras e isso acelera meu coração. Pego as correspondências e leio atentamente a carta vermelha.
Ordem de despejo por contas atrasadas.
“Está tudo bem, mamãe?” Leo pergunta curioso.
Balanço a cabeça, confirmando que sim. Preciso manter a calma e não surtar com ele por perto.
“Vai lá tomar banho e trocar de roupa enquanto preparo o seu jantar,” digo por fim.
Leo corre para o quarto e eu me sento na mesa da cozinha. Espalho as contas atrasadas e a carta de despejo. Como é que eu vou resolver isso tudo?
Organizo as contas mais urgentes para pagar e estou tão distraída com isso, que não ouço o Leo se aproximando.
“Mamãe,” ele me chama ao meu lado.
Tomo um susto que quase pulo da cadeira.
“Menino! Você quer matar sua mãe do coração? Como é que você chegou aqui sem fazer barulho?” questiono com o coração acelerado.
O chão de madeira sempre range quando andamos nele, é possível ouvir até mesmo do fundo da casa. Leo encolhe os ombros e seus olhos castanhos me encaram com uma tristeza que atinge a minha alma.
“Mamãe, por que eu não tenho um papai?”
Isso atinge o meu coração como uma flecha. Olho para Leo e não sei como respondê-lo de imediato.
Dahlia“Eu sou sua alma gêmea?” murmuro a questão um pouco confusa, ainda tentando me acostumar com o peso e a delicadeza dessa ideia. As palavras saem baixas, quase tímidas, porque mesmo sentindo tudo o que sinto, ainda parece impossível acreditar que algo tão grandioso possa realmente estar acontecendo comigo.Mikaelson sorri e afirma com a cabeça. Suas mãos estão em minha cintura, me mantendo próxima a ele.O toque dele é firme e carinhoso ao mesmo tempo, como se quisesse me lembrar, sem precisar dizer, que eu pertenço ali, perto dele.Estamos no jardim da casa dele, aproveitando a tarde ensolarada. A luz dourada do sol banha as flores, aquece a grama e atravessa as folhas das árvores, desenhando sombras suaves ao nosso redor.O ar está agradável, perfumado pelo cheiro das plantas e pela tranquilidade rara daquele momento. Tudo parece calmo demais, bonito demais, quase como se o mundo inteiro tivesse decidido nos dar uma pausa.“Nós chamamos de vínculo lunar. É extremamente raro, n
DahliaAcordo com a sensação de alguém apertando a minha mão e acariciando a minha bochecha, como se tentasse me puxar de volta de um lugar muito distante. Em seguida, o cheiro vem. Um cheiro familiar, só que mais intensificado, mais vivo, mais nítido, como se estivesse entranhado no ar ao meu redor. Junto, eu ouço os batimentos de um coração, fortes, constantes, próximos demais, como se ecoassem dentro de mim.Isso tudo é tão estranho, tão confuso. Minha mente desperta aos poucos, pesada, lenta, tentando se agarrar a alguma lógica. Tudo parece real demais e, ao mesmo tempo, distante demais. Há sons, cheiros e sensações me alcançando de uma vez, como se o mundo tivesse ficado mais intenso enquanto eu dormia.“Dahlia? Meu moranguinho, está me ouvindo?” Mikaelson me chama com a voz tão dócil e baixa que isso me traz uma onda de calmaria.O jeito como ele fala comigo corta um pouco da névoa na minha cabeça, como se aquela voz fosse algo seguro em meio à estranheza.Abro meus olhos e busc
Mikaelson“Dahlia, espero que você esteja me ouvindo, meu moranguinho...” digo com um sussurro esperançoso.Seguro a mão dela com cuidado, como se até o menor movimento pudesse afastá-la ainda mais de mim. Sinto que a pele dela está mais quente e isso me traz um pouco mais de conforto, um alívio pequeno, mas suficiente para me manter respirando sem desmoronar.O ferimento em seu pescoço está praticamente fechado. A marca brutal de antes agora parece menos cruel, como se o corpo dela estivesse lutando com toda a força para permanecer aqui. Observar essa melhora, por menor que seja, me dá algo a que me agarrar em meio ao caos.“Eu quero que você saiba que eu te amo muito. Eu devia ter dito isso antes e muito mais vezes. Mas eu amo você, Dahlia.” Confesso com a voz embargada, sentindo cada palavra arranhar a minha garganta antes de sair. “Talvez eu não esteja aqui quando você acordar. Sinto muito se for esse o caso.”As palavras pesam no meu peito assim que saem. Falar desse jeito, como
LakanPego o Leo no colo com cuidado. Mesmo em meio ao caos da batalha, seguro meu filho com toda a firmeza e proteção que posso. Ele continua desacordado, mas seus batimentos estão fortes e firmes. Isso me dá um pouco de alívio em meio a tanta desgraça. Não há nenhum ferimento nele. Nenhum corte, nenhuma marca visível. Liliane ainda não começa o ritual, e só de pensar no que poderia ter acontecido, a minha raiva volta com mais força.“É hora de levá-lo para casa, meu lobinho.” Sussurro ao meu filho antes de beijá-lo no topo da cabeça.Ainda há uma batalha acontecendo, mas assim que os lobisomens renegados me veem com meu filho, eles percebem que perderam e batem em retirada, fugindo como covardes. Eles recuam depressa, sem honra alguma, abandonando os próprios mortos e feridos para trás. O medo vence a selvageria que antes demonstravam.Há uma comemoração animada pelos meus lobisomens pela vitória amarga. Ouço rugidos, vozes exaltadas e a agitação dos meus homens celebrando o fim do
Último capítulo