Mundo de ficçãoIniciar sessãoA marca no pulso de Elara queimava como fogo.
Ela apertou os dedos ao redor do cabo da espada, tentando ignorar a sensação.
Não conseguiu.
O calor subiu por seu braço, alcançou o ombro e percorreu seu peito como uma corrente invisível.
Era diferente de tudo que havia sentido até então.
Não havia dor.
Era um chamado.
Uma ligação antiga despertando dentro dela.
— Elara?
A voz de Orion chegou distante.
Ela mal conseguiu responder.
— Estou...
Bem.
Mas não estava.
Seu olhar permanecia preso ao homem de cabelos brancos parado entre as árvores.
Mesmo a centenas de metros de distância, conseguia enxergar seus olhos prateados.
Calmos.
Profundos.
Ele não carregava espada.
Nem armadura.
Vestia apenas um longo manto branco bordado com fios de prata.
Ao seu lado permaneciam outros quatro homens e duas mulheres.
Todos igualmente silenciosos.
Nenhum demonstrava intenção de participar da batalha.
Observavam.
Como testemunhas aguardando o momento certo para agir.
Seraphine também fixou os olhos no grupo.
Seu semblante tornou-se ainda mais sério.
— Eles realmente existem...
Cedric aproximou-se.
— Quem são os Guardiões do Véu?
A anciã respirou lentamente.
— Muito antes dos Supremos governarem as alcateias, existia uma ordem responsável por proteger a família real.
Não obedeciam aos Alfas.
Obedeciam apenas à Rainha da Lua Negra.
Orion franziu a testa.
— Então por que nunca ouvimos falar deles?
Evelyn respondeu.
— Porque desapareceram na mesma noite em que Aurora morreu.
Ou, pelo menos...
Era isso que todos acreditavam.
Enquanto conversavam, o homem de cabelos brancos deu um passo à frente.
Depois outro.
Seus companheiros permaneceram imóveis.
Ele caminhava sozinho.
Sem pressa.
Sem medo.
Os soldados da Lua Rubra perceberam sua aproximação.
Um arqueiro ergueu o arco.
— Pare!
O desconhecido continuou andando.
Outra voz ecoou.
— Atirem!
Cinco flechas cortaram o ar.
Elara prendeu a respiração.
As flechas jamais o alcançaram.
Ainda no ar, transformaram-se em partículas prateadas que desapareceram como poeira ao vento.
Os guerreiros arregalaram os olhos.
O homem sequer diminuíra o ritmo.
Magnus interrompeu o combate contra Lucien.
Voltou à forma humana enquanto observava a cena.
Seu rosto perdeu qualquer traço de arrogância.
— Não...
Lucien também interrompeu a luta.
Ao reconhecer o visitante, abaixou imediatamente a lança.
— Então vocês decidiram sair das sombras.
O homem finalmente parou entre os dois exércitos.
Olhou calmamente para Magnus.
Depois para Lucien.
Sua voz era baixa.
Mesmo assim, todos conseguiram ouvi-la.
— Guardem suas armas.
Magnus sorriu com desprezo.
— E quem vai me obrigar?
O desconhecido respondeu com serenidade.
— Não vim obrigar.
Vim impedir.
Magnus soltou uma gargalhada.
— Você continua acreditando que uma ordem esquecida pode dar ordens aos Supremos?
O homem sustentou seu olhar.
— Não.
Apenas lembro a você que existem leis mais antigas do que qualquer alcateia.
O silêncio voltou a dominar o vale.
Lucien observava tudo atentamente.
Era evidente que conhecia aquele homem.
Elara aproximou-se discretamente de Seraphine.
— Quem é ele?
A resposta veio em um sussurro.
— Aiden.
O último Grande Guardião.
Elara repetiu o nome mentalmente.
Aiden.
Sem saber por quê, seu coração acelerou.
Na Fortaleza do Norte...
Kael permanecia na sala do Conselho.
Diante dele estavam espalhados antigos registros da fundação das alcateias.
O Ancião aproximou-se carregando um pequeno baú de madeira escura.
— Encontrei isto escondido sob o antigo templo.
Kael levantou os olhos.
— O que é?
— Ninguém o abria havia mais de trezentos anos.
O velho colocou o baú sobre a mesa.
A fechadura já estava quebrada.
Dentro havia apenas três objetos.
Uma pequena coroa de prata.
Um medalhão com o símbolo da Lua Negra.
E um pergaminho enrolado.
Kael abriu cuidadosamente o documento.
A tinta estava desgastada pelo tempo.
Mesmo assim, era possível ler.
"O Supremo que levantar sua espada contra a Rainha da Lua Negra será considerado inimigo de todas as alcateias."
Kael releu aquela frase diversas vezes.
Depois continuou.
"Seu dever será protegê-la, ainda que ela o condene.
Sua palavra prevalecerá sobre a do Conselho.
Sua vida pertencerá ao Reino da Lua."
Ele ergueu lentamente a cabeça.
— Isso é um decreto real.
O Ancião confirmou.
— Muito anterior à criação dos Supremos.
Kael fechou os olhos.
Na cerimônia...
Ele não apenas rejeitara sua companheira.
Se aquelas palavras fossem verdadeiras...
Também havia desrespeitado um juramento ancestral que sequer conhecia.
Antes que pudesse organizar os pensamentos, a porta foi aberta com violência.
Um guarda entrou ofegante.
— Supremo!
Recebemos notícias da fronteira.
Kael levantou-se imediatamente.
— Fale.
— A Ordem da Lua Rubra iniciou um ataque.
O sangue gelou em suas veias.
— Onde?
— Nas Montanhas Nebulosas.
Kael não hesitou.
Pegou sua espada.
— Reúnam todos os capitães.
Partiremos imediatamente.
Darius deu um passo à frente.
— Isso seria um erro.
Kael virou-se lentamente.
— Explique.
— Não sabemos quem está lutando.
Pode ser uma armadilha.
O Supremo sustentou seu olhar durante alguns segundos.
— Se for uma armadilha...
Descobriremos.
Saiu da sala sem esperar outra palavra.
Assim que a porta se fechou, Darius retirou discretamente outro cristal vermelho do bolso.
Desta vez ele brilhou.
Um sorriso surgiu em seus lábios.
— Finalmente.
Levantou o cristal até a altura dos olhos.
— Kael está indo.
A voz que respondeu do outro lado era grave.
Conhecida.
Magnus.
— Excelente.
Então prepare a segunda etapa.
Darius inclinou discretamente a cabeça.
— Como desejar.
No vale...
Aiden finalmente voltou seus olhos para Elara.
Ela sentiu novamente a marca arder.
Era impossível descrever aquela sensação.
Como se uma lembrança esquecida tentasse alcançar sua consciência.
O Grande Guardião caminhou lentamente até ela.
Os guerreiros da Lua Negra prepararam as armas.
Lucien ergueu a lança.
— Não dê mais um passo.
Aiden parou.
Sorriu discretamente.
— Ainda protege bem aquilo que prometeu proteger.
Lucien não abaixou a arma.
— Responda às perguntas antes.
Quem é você agora?
Os olhos prateados do homem pareceram esconder séculos de histórias.
— Sou apenas alguém que falhou.
Elara observava cada movimento.
Quanto mais ele se aproximava, mais intensa ficava a sensação dentro de seu peito.
Aiden olhou diretamente para ela.
— Você se parece muito com Aurora.
Ela respirou fundo.
— Todos dizem isso.
— Porque é verdade.
— Também a conheceu?
Um brilho melancólico surgiu em seus olhos.
— Conheci.
Elara esperou a resposta seguinte.
Ela nunca veio.
No lugar disso, Aiden ajoelhou-se.
Assim como Lucien fizera.
Baixou a cabeça.
Levou o punho direito ao peito.
E pronunciou palavras em uma língua desconhecida.
A espada da Lua Negra começou a vibrar.
As runas espalhadas por sua lâmina iluminaram-se intensamente.
O chão tremeu.
O espelho d'água do santuário explodiu em uma coluna de luz que podia ser vista de qualquer ponto do vale.
Todos olharam para o céu.
Nuvens negras começaram a girar acima das montanhas.
No centro daquele redemoinho surgiu lentamente uma enorme lua prateada.
Mesmo sendo pleno dia.
Seraphine empalideceu.
— Não...
Evelyn segurou seu braço.
— O que significa isso?
A anciã respondeu quase sem voz.
— A Coroa despertou.
Cedric olhou ao redor sem entender.
— Que coroa?
Seraphine voltou os olhos para Elara.
As lágrimas escorriam silenciosamente por seu rosto.
— A verdadeira Coroa da Lua Negra acabou de reconhecer sua Rainha.
Antes que alguém pudesse compreender o significado daquelas palavras, um feixe de luz desceu do céu e envolveu completamente Elara.
E, dentro daquela luz, uma voz feminina ecoou por todo o vale.
Não vinha da terra.
Nem das montanhas.
Parecia atravessar os séculos.
— Minha filha...
Chegou a hora de lembrar quem você realmente é.







