Mundo ficciónIniciar sesiónAmália Veyra passou a vida acreditando que era uma falha: uma princesa sem loba, escondida no porão da própria família e criada como vergonha. O que nunca lhe contaram é que ela não nasceu defeituosa. Sua loba foi arrancada ainda bebê e entregue a um selo ancestral, criado para manter preso o Lobo Supremo, a única criatura capaz de destruir o trono imperial. Quando sua meia-irmã foge na véspera do casamento com Dalle Arkan, o temido Alfa Imperador, Amália é vestida como noiva e enviada em seu lugar. No Palácio da Lua Dourada, porém, quem a recebe é Mirella Santoro, a amante oficial do Imperador, usando a joia que deveria pertencer à Luna. Humilhada diante da corte, aceita apenas por obrigação e rejeitada pelo próprio marido, Amália descobre que o vínculo entre ela e Dalle existe, mas é fraco, errado, incompleto. Na mesma noite, enquanto Mirella anuncia que talvez carregue o primeiro herdeiro, um guarda aparece morto sob o trono, sem olhos, com uma frase entalhada no peito: A Luna foi traída. O Supremo despertou. Agora, uma força antiga começa a chamá-la em sonhos, prometendo devolver sua loba, sua coroa e sua vingança.
Leer másPOV AMÁLIA
A primeira coisa que senti foi o balanço violento da carruagem, como se o mundo tivesse decidido me arrastar para algum lugar sem se importar se eu chegaria viva, mas aquilo não era novidade pra mim. Abri os olhos no escuro, sufocada pelo cheiro de madeira velha, flores esmagadas e tecido novo, e por alguns segundos achei que ainda estava no porão. O vestido branco me apertava as costelas, grande demais nos ombros, muito apertado na cintura e pesado demais nas pernas. Tentei me mexer, mas a saia ficou presa, o véu caiu sobre meu rosto e o espartilho roubou o pouco ar dos meus pulmões. Só quando empurrei a porta e ela não abriu, entendi o que estava acontecendo.
— Abram! — gritei, batendo a palma da mão contra a madeira. — Por favor, eu não consigo respirar! Me ajudem!
Ninguém respondeu. A carruagem continuou correndo, jogando meu corpo de um lado para o outro. Bati outra vez, e de novo, e de novo, até os nós dos meus dedos arderem e meus punhos sangrarem, e do lado de fora um guarda riu baixo, aquele tipo de riso que eu conhecia bem, porque cresci ouvindo sempre que alguém lembrava que eu existia.
A filha sem loba da casa Veyra. A vergonha que vivia trancada no porão, com quem um guarda e outro ia se divertir as vezes. A menina que não servia para jantar à mesa, apenas um plano B para caso a verdadeira princesa não pudesse cumprir seu dever. 20 anos vivendo apenas para ser uma substituta quando fosse preciso.
É, parece que a hora tinha chegado.
— Eu não sou Lyssandra! — falei, mesmo sabendo que eles sabiam. — Vocês pegaram a pessoa errada!
— Sabemos muito bem quem pegamos, princesa. seu pai mesmo mandou você — um deles respondeu, e a palavra princesa veio cheia de deboche.
Horas antes, criadas tinham descido ao porão antes do sol nascer, esfregado minha pele como se quisessem tirar de mim anos de humilhação e me enfiado no vestido de casamento de Lyssandra sem explicar nada, enfiando uma bebida estranha na minha boca que me deixou tonta. Ouvi os gritos acima da minha cabeça, ouvi minha madrasta quebrando alguma coisa e gritando o nome da minha irmã, meu pai falando que a culpa era dela e que ele teria que resolver aquela merda... Não lembro de muita coisa depois disso, desmaiei no chão pouco depois, mas agora entendi, Lyssandra fugiu na véspera do casamento, e quando a filha amada destruiu a aliança mais importante da família Veyra, meu pai se lembrou de que ainda tinha outra filha esperando debaixo do castelo.
A carruagem deu um solavanco tão forte que algo rasgou perto da minha cintura. Levei a mão ao tecido e senti um volume duro escondido no forro. Puxei a renda com cuidado, até encontrar uma abertura malfeita, e meus dedos tocaram um papel. Meu coração subiu para minha garganta antes mesmo de eu abrir o bilhete, porque o perfume doce que escapou dele era de Lyssandra. Nunca fomos muito proximas, mas ela sempre tentou tornar minha vida mais suportável sempre que podia... Era o mais perto de uma família que eu tinha.
Desdobrei o papel com as mãos tremendo, e a letra elegante da minha irmã apareceu diante dos meus olhos.
Amália, se você encontrou isso, então fizeram o que eu temia. Sinto muito, sei que não é justo com você, mas eu não podia casar com ele, não quando amo Ethan. Quando ler isto, nós já estaremos longe. Perdoe-me um dia, se puder. Juro que vou tentar te salvar desse monstro um dia...
Fiquei olhando para aquelas palavras até elas começarem a borrar. Lyssandra amava Ethan, um dos guardas, o mesmo que às vezes deixava uma tigela de sopa mais cheia perto da porta do porão. Eu deveria odiá-la por fugir e me deixar para trás, mas só consegui apertar o papel contra o peito e sentir um vazio cansado. Minha irmã tinha escolhido o amor, eu tinha sido escolhida pela covardia de todos os outros.
Quando a carruagem começou a desacelerar, escondi o bilhete dentro do espartilho. Vozes ficaram mais altas do lado de fora, misturadas ao som de cascos e ao ranger de um portão imenso. Pela fresta da cortina, vi torres douradas surgindo contra o céu. O Palácio da Lua Dourada não parecia em nada o palácio dos meus pais, era maior e, definitivamente, masi assustador. A trava se abriu, a luz feriu meus olhos, e uma mão impaciente agarrou meu braço para me puxar para fora.
Quase tropecei na própria saia, mas consegui me manter de pé. Havia guardas alinhados, criadas cochichando e nobres curiosos nas escadarias, todos esperando Lyssandra e recebendo a mim. Vi a confusão atravessar alguns rostos, depois o desprezo, depois aquela diversão cruel de quem percebe que está prestes a assistir a uma humilhação pública. Endireitei os ombros, mesmo com o vestido me apertando em alguns pontos e escorregando em outros, e tentei não parecer a garota do porão. Foi quando uma voz doce, lenta e satisfeita veio do alto da escadaria.
— Então é verdade...
Levantei os olhos e a vi.
Uma mulher elegante desceu os degraus como se o palácio inteiro pertencesse a ela. Usava um vestido vermelho profundo, joias nos pulsos e um sorriso tão bonito quanto venenoso. Mas não foi sua beleza que chamou minha atenção, foi a pedra em seu pescoço: um diamante enorme, pálido, preso em ouro branco e brilhando como uma lua roubada. Eu conhecia aquela joia pelas histórias cochichadas pelas criadas perto da porta do porão. O diamante-lua, a joia oficial da Luna imperial. A pedra que apenas a esposa reconhecida do imperador deveria usar.
Se ela estava usando, ela deveria ser a Luna... Mas se o imperador já tinha uma Luna, o que eu estava fazendo aqui?
— O vestido ficou péssimo em você, coisinha — disse, sorrindo. — Mas imagino que não teve muitas opções depois do pequeno inconveniente causado pela verdadeira noiva.
Senti o rosto esquentar, mas não baixei a cabeça.
— Onde está o imperador?
Mirella aproximou-se, ajeitou meu véu de qualquer jeito e deixou seu perfume doce demais.
— Ocupado. Não se preocupe, coisinha, não pense que vai ir correndo para os braços do meu homem só porque tá com essa roupinha de noiva.
— Meu nome é Amália.
O sorriso dela cresceu um pouco.
— Aham, sei.
Antes que eu pudesse responder, criadas me cercaram, puxando minha cauda, ajeitando flores em minhas mãos e me conduzindo para dentro como se eu fosse uma peça atrasada. Senti o peso do olhar daquela mulher as minhas costas, mas sequer tive a oportunidade de olhar para trás antes de ser empurrada por duas grandes portas.
O salão era imenso, dourado, cheio de colunas, velas e nobres vestidos para testemunhar uma aliança que ninguém me perguntou se eu aceitava.
Então eu o vi.
Dalle Arkan estava diante do altar, vestido de preto e ouro, com uma capa presa aos ombros largos e olhos dourados tão frios que fizeram eu me encolher. Era mais bonito do que eu esperava de um homem com a fama dele. Eu ouvira histórias sobre ele no porão: o Alfa Imperador que esmagava rebeliões, fazia generais ajoelharem e tinha um harém no castelo. Lyssandra morria de medo dele, mas os Veyra precisavam dessa aliança.
O ancião começou a falar, mas quase não ouvi. Meu coração batia alto demais, o bilhete queimava contra meu peito e aquela mulher permanecia perto o bastante para que o diamante-lua continuasse brilhando no canto da minha visão. Quando parei diante do altar, Dalle finalmente me encarou, não havia desejo, ternura ou surpresa em seu rosto. Apenas uma avaliação fria.
O ancião ergueu uma fita dourada entre nós e sua voz ecoou pelo salão.
— Pela aliança selada entre as casas Veyra e Arkan, pelo sangue que sustenta o império e pela lua que testemunha todos os vínculos, unam as mãos.
Dalle não se moveu de imediato, por um segundo, achei que recusaria diante de todos, e eu adoraria que isso acontecesse. Então sua mão veio na minha direção, grande, firme, marcada por cicatrizes quase apagadas. Levantei a minha devagar, odiando o tremor dos meus dedos e, quando a pele dele tocou a minha, o mundo parou.
Foi como se algo enterrado muito fundo dentro de mim abrisse os olhos pela primeira vez.
Meu peito se apertou de forma estranha, um choque atravessou minha mão, subiu pelo braço e espalhou-se pelo meu corpo como uma lembrança de algo que eu nunca vivi. Por um segundo, o salão desapareceu, e vi escuridão, pedra molhada, correntes imensas e uma presença antiga respirando nas profundezas da terra. Então pisquei... E estava de volta ao salão.
Dalle ficou rígido diante de mim. Seus olhos dourados se abriram um pouco mais, sua mão apertou a minha forte o bastante para doer e, no instante seguinte, ele a arrancou como se minha pele tivesse queimado a dele.
O silêncio tomou o salão.
— O que você fez? — Dalle perguntou, dando um passo para trás.
Eu olhei para minha mão, ainda formigando, ainda ouvindo um uivo distante preso em algum lugar dentro de mim.
— N... Nada... Senhor...
A mulher que me recebeu olhava de mim para ele, e pela primeira vez desde que a vi, seu sorriso falhou. Não entendia o que tinha acontecido, só sabia que algo dentro de mim, algo que passei a vida inteira acreditando não existir, tinha se movido.
Então a voz veio.
Não era minha, nem de Dalle, não era de ninguém naquele salão. Surgiu no fundo da minha cabeça, grave, antiga e íntima demais, como se tivesse atravessado anos de escuridão apenas para me alcançar.
Finalmente você voltou.
POV AMÁLIABram apareceu na campina antes mesmo que eu conseguisse responder à promessa de Fennir, com o rosto fechado e os ombros tensos como se tivesse corrido até ali só para trazer mais uma desgraça. Meu coração ainda estava preso no papel amassado entre meus dedos, na data da captura de Lyssandra, no prazo de dois dias e na certeza de que Dalle estava usando minha irmã como uma corda amarrada no meu pescoço. Bram parou diante de Fennir, mal olhando para mim, e abaixou a cabeça apenas o suficiente para parecer respeitoso, embora eu já soubesse que aquele homem não respeitava minha presença nem um pouco.— Meu Supremo, precisamos conversar com urgência.Fennir continuou com a mão no meu rosto.— Fale.Bram lançou um olhar rápido para mim.— A sós.Fiz menção de acompanhar Fennir quando ele começou a andar, mas Bram se colocou no caminho, sem coragem de me tocar, porém grosso o bastante para deixar claro que gostaria de fazer isso.— Isso é assunto seu, luna do imperador.— E minha
POV AMÁLIAHoras depois que Naya chegou, eu já estava tentando sair da tenda como uma idiota.Não era uma tentativa organizada, nem estratégica. Etava só enfiando os pés nas botas, tropeçando nas mantas, ignorando a tontura que ainda fazia o mundo girar quando eu me movia rápido demais e tentando fingir que meu corpo não parecia ter sido mastigado e cuspido fora. Naya estava viva, mas parecia ter sido espancada por horas a fio, provavelmente Mirella tentava descobrir algo sobre mim. Se fizeram isso com ela, que mal trocou uma duzia de palavras comigo, o que fariam com minha irmã? Lyssandra estava presa no palácio, acorrentada, nas mãos de Dalle, e eu estava ali, em uma tenda no meio da floresta, mas segura.Não podia deixar minha irmã para trás.— Você não vai sair daqui assim.A voz de Fennir veio da entrada da tenda.Eu nem olhei para ele.— Vou sim!— Não.A palavra saiu baixa, mas carregava um peso absurdo... Sabia o que era aquilo, ele estava tentando usar a habilidade de comando
POV DALLEO palácio amanheceu caótico.Paredes partidas, colunas com fissuras, pedaços de teto caídos nos corredores antigos e servos cochichando pelos cantos como ratos assustados. O chão sob a sala do trono tinha sido isolado, a escadaria estava interditada, aquele maldito buraco que dava para a mais pura escuridão lá, aberto para qualquer um ver. O Supremo tinha saído do meu palácio carregando minha Luna nos braços, diante de toda a corte, enquanto meus guardas tremiam como crianças e Caelo gritava que estaríamos todos perdidos.E agora todos queriam respostas.Como se eu tivesse alguma.— Majestade, precisamos declarar Amália Veyra inimiga do império imediatamente — disse um dos anciãos, pela terceira vez naquela manhã. — Ela deixou o palácio com a criatura que ameaça nossa linhagem desde a fundação do trono Arkan.— Ela não deixou — respondi, olhando para o mapa aberto sobre a mesa. — Foi levada.— Depois de pedir para não ser devolvida ao senhor — outro velho disse, cuidadoso de
POV AMÁLIAViajar pelas sombras foi uma das piores coisas que já senti, e olha que minha lista de experiências horríveis tinha crescido bastante nos últimos dias. Era como ser engolida por uma nevoa gelada, apertada e viva, que entrava pelo nariz, pela boca, pelos olhos, pelo coração, me virava do avesso e depois só sumia. Eu não sabia se estava caindo, flutuando ou sendo arrastada, só sabia que meu estômago revirava tanto que, se ainda tivesse alguma coisa dentro dele, teria vomitado em cima do peito monstruoso de Fennir. Talvez isso fosse uma péssima primeira impressão para uma criatura que dizia me amar havia anos.Quando as sombras se dissiparam, bri os olhos devagar.O mundo tinha mudado.Não havia palácio, ouro, colunas de mármore ou gente perfumada torcendo pela minha morte com cara de santo. Havia uma floresta densa, escura, viva demais, com árvores tão altas que pareciam segurar o céu nas próprias mãos. O ar cheirava a terra molhada, fumaça, pele, sangue e mato esmagado. Ao l
Último capítulo