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Capítulo 7 — Campo Minado

Rafael estacionou o carro com precisão. Desceu primeiro e contornou o veículo sem pressa. Abriu a porta para Vitória como se aquele gesto fizesse parte de um roteiro ensaiado — e fazia.

Ela saiu com elegância contida, o vestido caindo perfeitamente sobre o corpo, a expressão neutra no limite do educado. Não agradeceu. Não precisava. Aquilo não era gentileza. Era imagem.

Entraram juntos.

O restaurante era discreto demais para quem não sabia onde estava.

Fachada sóbria, iluminação baixa, poucas mesas. Nada chamava atenção — e exatamente por isso, chamava. Era o tipo de lugar onde quem entrava já sabia que estava sendo visto, mesmo quando ninguém parecia olhar.

Rafael cumprimentou o maître pelo nome, trocou algumas palavras baixas e conduziu Vitória até a mesa reservada no fundo do salão, longe demais para curiosos comuns, perto o suficiente para quem sabia exatamente onde apontar uma câmera.

— Aqui é bom — comentou ele, enquanto puxava a cadeira para ela.

— Tudo que é estratégico costuma ser — respondeu Vitória, sentando-se.

Para quem observava de fora, o casal parecia confortável. Harmônico. Alinhado. Conversas baixas, proximidade natural, gestos que sugeriam intimidade sem exagero.

Por dentro, o terreno era instável.

O cardápio chegou. Vitória o abriu, mas logo fechou.

— Não importa — disse. — Tudo aqui deve ter o mesmo gosto: aparência.

Rafael sorriu de leve.

— Você aprende rápido.

— Não confunda aprendizado com resignação.

O garçom se aproximou, e Rafael assumiu o controle com naturalidade. Pediu o vinho para Vitória e um suco para ele. Indicou os pratos. Vitória apenas assentiu, no papel esperado.

Quando ficaram novamente a sós, o silêncio se tornou mais atento.

— Seu pai comentou sobre o evento — disse Rafael, casual. — Disse que você foi… adequada.

Vitória respirou fundo.

— Imagino que, para ele, isso seja um elogio.

— É o equivalente a aplausos — respondeu Rafael. — Em particular.

— Que sorte a minha — murmurou ela.

A comida chegou, interrompendo qualquer resposta mais afiada.

— As fotos estão circulando — continuou ele, cortando a carne com precisão. — Algumas pessoas acharam você seria demais.

Vitória pousou os talheres devagar.

— Dei o meu melhor para sorrir. Não dá para fingir entusiasmo o tempo todo...

Rafael não hesitou.

— Dá, sim. É exatamente isso que esperam de você.

Ela ergueu o olhar, incomodada.

— Você fala como se isso não tivesse um preço.

— Tem — respondeu ele, direto. — Sempre tem.

Fez uma pausa curta antes de concluir:

— A questão nunca foi se haveria um custo. Só quem vai pagar por ele.

Primeira mina.

Vitória recostou-se na cadeira, mantendo o controle.

— Não se preocupe — disse. — O preço será bem pago.

— Vamos ver — respondeu ele. — Só não confunda o pagamento com desafio.

Ela sorriu de canto.

— Não confunda controle com indiferença.

O jantar seguiu nesse ritmo: elegante, tenso, calculado. Cada frase parecia medir o terreno antes de avançar. Cada olhar carregava algo que não podia ser dito.

— Esperam mais envolvimento da sua parte — comentou Rafael, como quem fala de negócios. — Principalmente agora.

— Envolvimento não se fabrica — respondeu Vitória.

— Quase tudo se fabrica — rebateu ele. — Com tempo suficiente.

Ela o encarou.

— Oito meses, não é?

— Oito meses — confirmou. — Passam rápido.

— Rápido demais para quem não está preso neles.

Segunda mina.

Nenhum dos dois recuou.

Quando o jantar terminou, Rafael se levantou primeiro. Vitória fez o mesmo. 

Saíram de mãos dadas, próximos o suficiente para parecer natural, íntimos o bastante para alimentar narrativas. Vitória percebeu o brilho rápido de uma lente refletindo na vidraça.

Rafael também percebeu.

Não soltaram as mãos.

Já no carro, ele abriu a porta para ela novamente antes de dar a volta e sentar-se ao volante. Assim que ligou o motor, o silêncio se instalou por alguns segundos.

— Vou te deixar em casa — disse ele. — Depois mando alguém da empresa levar seu carro.

Vitória virou o rosto lentamente.

— Não vai precisar.

— Não?

— Meu motorista me deixou na sua empresa hoje — respondeu, tranquila. — Não faria sentido gastar gasolina só para vir te ver.

Ele soltou uma breve risada nasal.

— Econômica.

— Prática — corrigiu ela. — Qualidades valorizadas em acordos longos.

Rafael lançou-lhe um olhar de lado antes de voltar a atenção para a rua.

— Você é mais estratégica do que aparenta.

— E você é mais previsível do que pensa.

O carro seguiu em silêncio.

Mas nenhum dos dois confundiu aquilo com paz.

Era apenas o som de duas pessoas andando cuidadosamente por um campo minado — conscientes de que, cedo ou tarde, alguém pisaria no lugar errado.

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