Mundo de ficçãoIniciar sessãoRafael estacionou o carro com precisão. Desceu primeiro e contornou o veículo sem pressa. Abriu a porta para Vitória como se aquele gesto fizesse parte de um roteiro ensaiado — e fazia.
Ela saiu com elegância contida, o vestido caindo perfeitamente sobre o corpo, a expressão neutra no limite do educado. Não agradeceu. Não precisava. Aquilo não era gentileza. Era imagem.
Entraram juntos.
O restaurante era discreto demais para quem não sabia onde estava.
Fachada sóbria, iluminação baixa, poucas mesas. Nada chamava atenção — e exatamente por isso, chamava. Era o tipo de lugar onde quem entrava já sabia que estava sendo visto, mesmo quando ninguém parecia olhar.
Rafael cumprimentou o maître pelo nome, trocou algumas palavras baixas e conduziu Vitória até a mesa reservada no fundo do salão, longe demais para curiosos comuns, perto o suficiente para quem sabia exatamente onde apontar uma câmera.
— Aqui é bom — comentou ele, enquanto puxava a cadeira para ela.
— Tudo que é estratégico costuma ser — respondeu Vitória, sentando-se.
Para quem observava de fora, o casal parecia confortável. Harmônico. Alinhado. Conversas baixas, proximidade natural, gestos que sugeriam intimidade sem exagero.
Por dentro, o terreno era instável.
O cardápio chegou. Vitória o abriu, mas logo fechou.
— Não importa — disse. — Tudo aqui deve ter o mesmo gosto: aparência.
Rafael sorriu de leve.
— Você aprende rápido.
— Não confunda aprendizado com resignação.
O garçom se aproximou, e Rafael assumiu o controle com naturalidade. Pediu o vinho para Vitória e um suco para ele. Indicou os pratos. Vitória apenas assentiu, no papel esperado.
Quando ficaram novamente a sós, o silêncio se tornou mais atento.
— Seu pai comentou sobre o evento — disse Rafael, casual. — Disse que você foi… adequada.
Vitória respirou fundo.
— Imagino que, para ele, isso seja um elogio.
— É o equivalente a aplausos — respondeu Rafael. — Em particular.
— Que sorte a minha — murmurou ela.
A comida chegou, interrompendo qualquer resposta mais afiada.
— As fotos estão circulando — continuou ele, cortando a carne com precisão. — Algumas pessoas acharam você seria demais.
Vitória pousou os talheres devagar.
— Dei o meu melhor para sorrir. Não dá para fingir entusiasmo o tempo todo...
Rafael não hesitou.
— Dá, sim. É exatamente isso que esperam de você.
Ela ergueu o olhar, incomodada.
— Você fala como se isso não tivesse um preço.
— Tem — respondeu ele, direto. — Sempre tem.
Fez uma pausa curta antes de concluir:
— A questão nunca foi se haveria um custo. Só quem vai pagar por ele.
Primeira mina.
Vitória recostou-se na cadeira, mantendo o controle.
— Não se preocupe — disse. — O preço será bem pago.
— Vamos ver — respondeu ele. — Só não confunda o pagamento com desafio.
Ela sorriu de canto.
— Não confunda controle com indiferença.
O jantar seguiu nesse ritmo: elegante, tenso, calculado. Cada frase parecia medir o terreno antes de avançar. Cada olhar carregava algo que não podia ser dito.
— Esperam mais envolvimento da sua parte — comentou Rafael, como quem fala de negócios. — Principalmente agora.
— Envolvimento não se fabrica — respondeu Vitória.
— Quase tudo se fabrica — rebateu ele. — Com tempo suficiente.
Ela o encarou.
— Oito meses, não é?
— Oito meses — confirmou. — Passam rápido.
— Rápido demais para quem não está preso neles.
Segunda mina.
Nenhum dos dois recuou.
Quando o jantar terminou, Rafael se levantou primeiro. Vitória fez o mesmo.
Saíram de mãos dadas, próximos o suficiente para parecer natural, íntimos o bastante para alimentar narrativas. Vitória percebeu o brilho rápido de uma lente refletindo na vidraça.
Rafael também percebeu.
Não soltaram as mãos.
Já no carro, ele abriu a porta para ela novamente antes de dar a volta e sentar-se ao volante. Assim que ligou o motor, o silêncio se instalou por alguns segundos.
— Vou te deixar em casa — disse ele. — Depois mando alguém da empresa levar seu carro.
Vitória virou o rosto lentamente.
— Não vai precisar.
— Não?
— Meu motorista me deixou na sua empresa hoje — respondeu, tranquila. — Não faria sentido gastar gasolina só para vir te ver.
Ele soltou uma breve risada nasal.
— Econômica.
— Prática — corrigiu ela. — Qualidades valorizadas em acordos longos.
Rafael lançou-lhe um olhar de lado antes de voltar a atenção para a rua.
— Você é mais estratégica do que aparenta.
— E você é mais previsível do que pensa.
O carro seguiu em silêncio.
Mas nenhum dos dois confundiu aquilo com paz.
Era apenas o som de duas pessoas andando cuidadosamente por um campo minado — conscientes de que, cedo ou tarde, alguém pisaria no lugar errado.







