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Capítulo 8 — Intervalo

O trajeto até a casa de Vitória foi silencioso.

Nenhuma música. Nenhuma tentativa de conversa. Apenas o som regular do motor cortando a cidade adormecida. Rafael manteve os olhos na estrada, mãos firmes no volante. Vitória olhava pela janela, sem realmente ver nada.

Quando o carro parou diante do portão, ela não disse boa noite.

Abriu a porta, saiu e a fechou com mais força do que o necessário. Não olhou para trás. Rafael também não a chamou.

Caminhou devagar pelo jardim, respirando fundo. O ar era limpo, fresco, diferente do ambiente sufocante em que parecia viver nos últimos dias. As luzes suaves iluminavam as plantas bem cuidadas, as flores alinhadas, tudo exatamente onde deveria estar. Pela primeira vez naquela noite, sentiu algo parecido com silêncio dentro de si.

Pensou no jantar. Em Rafael. Nas palavras medidas. Nas armadilhas invisíveis. Em como tudo estava acontecendo rápido demais — e, ao mesmo tempo, parecia não sair do lugar.

Ao entrar em casa, encontrou a mãe sentada na sala, folheando distraidamente uma revista.

— Chegou tarde — comentou, sem levantar os olhos.

— Compromisso — respondeu Vitória, largando a bolsa sobre a mesa lateral.

— Imagino. — A mãe a analisou rapidamente. — Funcionou?

Vitória arqueou uma sobrancelha.

— Se “funcionar” significa manter as aparências, sim.

— Isso é importante — disse a mãe, com aquele tom calmo que sempre escondia cobrança.

— Só se for para vocês — devolveu Vitória.

O silêncio se instalou por um segundo.

— Você podia tentar parecer menos… distante — acrescentou a mãe.

Vitória respirou fundo.

— Se eu tiver que fingir ser quem não sou por mais tempo, eu deixo de existir.

Antes que a conversa avançasse para um terreno conhecido demais, o celular vibrou em sua mão.

Ela olhou a tela.

Vovó.

O coração apertou, e, ao mesmo tempo, se aliviou.

— Vou subir — disse, já se afastando. — Boa noite.

No quarto, atendeu a chamada quase correndo.

— Meu amor — a voz da avó veio quente, cheia de cuidado. — Estávamos falando de você agora, e isso nos deu vontade de ligar.

— E estávamos falando do casamento — completou o avô, ao fundo. — Confessamos que ficamos surpresos. Pensamos que você nunca aceitaria se casar com ele.

Vitória sentou-se na beira da cama, os ombros finalmente relaxando.

— Eu também fiquei — respondeu, com um sorriso que eles não podiam ver. O sentimento de derrota ainda estava ali, apesar do sorriso.

Conversaram por alguns minutos. Nada invasivo. Nada acusatório. Apenas carinho. Perguntas suaves. Comentários cheios de memória, de afeto, de um tempo em que as coisas pareciam mais simples.

— Você parece… quieta demais — disse a avó, com delicadeza. — Quando a gente aceita algo com o coração inteiro, costuma soar diferente.

Vitória engoliu em seco.

— Eu estou bem — disse ela, mentindo.

— Vamos nos ver em breve — falou o avô, decidido. — Temos a sensação de que você vai precisar da gente.

A chamada terminou com promessas e saudade.

Vitória ficou alguns segundos olhando para a tela apagada, sentindo o peito mais leve do que estivera o dia inteiro.

 Tomou um banho demorado, deixando a água cair sobre os ombros tensos, como se pudesse lavar parte do peso que carregava. Quando se deitou, fechou os olhos com um pensamento simples e raro:

Ainda existe um lugar onde não preciso fingir.

Adormeceu com isso.

___________________

Os dias da semana passaram rápido demais.

Faculdade. Leituras. Trabalhos. Compromissos. Rafael, ocupado com a empresa. Ela, ocupada demais para pensar nele. Não se viram. Não trocaram mensagens. E, para Vitória, aquele afastamento foi um alívio silencioso.

Respirou melhor. Pensou menos. Dormiu mais leve.

Mas a trégua durou pouco.

No sábado pela manhã, enquanto tomava café, a mãe quebrou o breve equilíbrio.

— Amanhã vamos almoçar na casa dos Herculano.

Vitória ergueu o olhar, surpresa.

 — Para quê?

— As duas famílias querem conversar sobre o casamento. Ajustes. Detalhes.

Vitória assentiu.

— Tanto faz — respondeu. — Sei que meu dever é estar vestida de noiva no dia e horário que vocês marcarem.

A mãe suspirou, mas não rebateu.

O sábado seguiu arrastado. Vitória passou horas na biblioteca, perdida entre livros. Em determinado momento, foi até o espaço reservado para pintura. Observou as telas em branco. Pegou um pincel. Largou logo depois.

Não havia inspiração.

____________________

A casa dos Herculano era imponente, mas acolhedora de um jeito calculado.

A mãe de Rafael foi quem os recebeu, sorriso aberto, postura impecável. Assim que viu Vitória, aproximou-se com atenção quase excessiva. 

— Fico feliz que tenha vindo, querida — disse, tocando-lhe levemente o braço. — Espero que se sinta à vontade aqui.

Vitória sorriu.

— Obrigada. É muito gentil.

À mesa, a conversa girou em torno do previsível: datas, convidados, cerimônia, expectativas. Os pais falavam. Decidiam. Projetavam.

Em determinado momento, a mãe de Rafael interrompeu.

— Vitória — disse, com suavidade. — Você também precisa opinar. É o seu casamento.

Os olhares se voltaram para ela.

Vitória manteve o sorriso. 

— Está tudo bem — respondeu, com calma. — Sei que vocês estão escolhendo o que consideram melhor.

Era verdade.

Só não era o melhor para ela.

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