Mundo de ficçãoIniciar sessãoO salão estava cheio demais.
Vitória percebeu isso no instante em que atravessou as portas de vidro do evento. Luzes quentes demais para serem acolhedoras. Música baixa demais para ser ignorada, alta demais para permitir silêncio. Pessoas impecavelmente vestidas, taças sempre cheias e conversas que nunca diziam exatamente o que pensavam.
Ela odiava aquele tipo de ambiente.
Ainda assim, manteve a postura intacta quando sentiu os olhares recaírem sobre si. Vestido elegante, expressão neutra, passos calculados. O colar de água-marinha repousava delicadamente sobre a pele clara, refletindo a luz — e a atenção — sem esforço.
Rafael já estava lá, encostado próximo à mesa principal, conversava com alguns convidados. Ao vê-la, interrompeu a conversa e se aproximou, o sorriso social perfeitamente ensaiado no rosto.
— Chegou atrasada — murmurou, inclinando-se o suficiente para que só ela ouvisse.
Vitória sorriu para quem observava de fora.
— Prefiro chamar de pontualidade seletiva.
— Lembre-se — disse ele, enquanto caminhavam em direção a um pequeno grupo. — Não precisamos conversar. Apenas sorrir.
Ela lançou-lhe um olhar rápido.
— Fique tranquilo. Fingir não é novidade para mim.
— Que alegria ver vocês dois juntos! — exclamou uma mulher mais velha, erguendo a taça. — Esse casamento já é o assunto do ano.
— Imagino — respondeu Vitória, com um sorriso contido.
— Oito meses passam voando — comentou outro convidado. — Há tanta coisa para organizar.
— Estamos cuidando de tudo com atenção — respondeu Rafael, automático.
Vitória segurou o braço dele, com o sorriso ensaiado, como se aquilo fosse natural.
— Atenção é uma palavra gentil — murmurou, apenas para ele. — Controle talvez seja mais honesto.
Rafael inclinou minimamente a cabeça.
— Não comece.
— Você começou quando decidiu sorrir como se estivesse feliz.
— Isso se chama estratégia.
— Para mim parece encenação — disse ela, soltando o braço dele.
Para quem observava de fora, eram apenas dois noivos trocando palavras baixas e olhares próximos demais para serem decifrados.
— A noiva é linda — comentou alguém. — Você tem sorte, Rafael.
A mão dele pousou firme na cintura de Vitória.
— Sei disso — respondeu em voz alta.
Ela virou o rosto lentamente para ele, mantendo o sorriso impecável.
— Cuidado — sussurrou. — Vão achar que você gosta de mim.
— Deus me livre — devolveu ele, no mesmo tom. — Já basta me casar com você. Me apaixonar seria o fim.
Vitória sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário.
— Engraçado — murmurou, segurando novamente o braço dele, doce por fora. — Normalmente, é assim que as pessoas perdem o controle.
O sorriso dele não vacilou.
— Não existe nada aqui que valha a pena me fazer perder o controle.O aperto no braço dele se intensificou por um instante, discreto demais para ser notado, claro demais para ser sentido.
— Não precisa apertar — provocou ele, ajeitando uma mecha do cabelo dela com delicadeza calculada. — Não vou fugir.
Aos olhos dos outros, pareciam o casal mais apaixonado do salão.
— Vamos aguentar só mais algumas horas — continuou ele, baixo. — Depois disso, só nos veremos perto do casamento.
Vitória não respondeu. Seus olhos diziam tudo: o desejo de que aquela noite acabasse logo.
— Você tem muita sorte, querida — comentou uma senhora, aproximando-se. — Rafael é um ótimo partido.
Vitória sorriu.
— Sorte é um conceito relativo.
Os comentários continuaram. Planos. Expectativas. Sugestões que ninguém pediu. Até que, mais adiante, surgiu o comentário inevitável:
— Dizem que Vitória não é fácil de lidar… será que o Rafael vai sobreviver a esse casamento?
Ela respirou fundo, já pronta para responder à altura.
Rafael não hesitou e falou antes dela.
— Dizem muitas coisas — respondeu, calmo. — Mas nem todas merecem atenção.
O tom foi educado. Firme. Público.
O rapaz se apressou em se desculpar e se afastou. Murmurinhos começaram a circular. Olhares de admiração. Alguns, de inveja.
Vitória o encarou de lado.
— Defendendo minha honra agora?
— Defendendo a imagem do casal — corrigiu ele. — Não confunda.
— Que alívio — respondeu ela. — Quase achei que estivesse criando consideração.
— Não se empolgue.
— Não é do meu feitio.
— Você devia sorrir mais — comentou ele, próximo ao ouvido dela.
— E você devia falar menos.
— Isso não combina com uma futura senhora Herculano.
Vitória revirou os olhos.
— E você soa como um manual corporativo.
Ele a encarou por um segundo, sério.
— Pelo menos eu sei o meu papel.
— Eu também — disse ela, baixa e firme. — Só não finjo gostar dele.
E completou: — E nunca vou mudar meu sobrenome. Alencar é melhor.Rafael não respondeu. Concordava, mas jamais diria isso em voz alta — preferia provocá-la insistindo no contrário.
Continuaram encenando o casal perfeito. Toques breves. Distância calculada. Sorrisos estrategicamente distribuídos.
Quando o evento terminou, Rafael ofereceu o braço.
Vitória aceitou.
Para todos os outros, eram o retrato da harmonia.
Mas, enquanto caminhavam juntos, ela pensou que aquele casamento seria uma guerra fria — travada em sorrisos, ironias e pequenas provocações.
E Rafael, ao seu lado, acabara de provar que seria um adversário à altura.







