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Capítulo 4 — A Casa Alencar

Vitória mal havia dado alguns passos dentro de casa quando ouviu a voz baixa e contida do secretário do pai.

— Senhorita Vitória, o Sr. Alencar pediu que a senhora vá ao escritório assim que chegasse.

 Ela assentiu, sem surpresa.

 O escritório ficava no fundo do corredor principal, longe das áreas comuns. Um espaço pensado para decisões importantes e conversas que não admitiam réplica.

 O pai já a aguardava, sentado atrás da mesa larga de madeira escura. Estava concentrado em alguns papéis, óculos apoiados no nariz, a postura rígida de sempre. Não levantou o olhar quando ela entrou.

 — Sente-se — disse, simples, como uma ordem rotineira.

 Vitória obedeceu.

O silêncio se estendeu por alguns segundos, quebrado apenas pelo leve deslizar dos dedos dele sobre o papel.

 — Fui informado de que o encontro com Rafael não terminou como o esperado — disse ele, finalmente. — Você saiu antes do previsto.

 — A conversa havia se encerrado — respondeu ela, com a voz controlada.

 — Encontros como esse não existem para conversas agradáveis — rebateu ele, sem dureza aparente, mas com firmeza suficiente para esmagar qualquer tentativa de defesa. — Existem para alinhar expectativas. E você precisa aprender a manter as aparências, independentemente do que sente.

 Vitória sentiu o estômago revirar.

 — Não houve escândalo — disse. — Ninguém nos viu discutir.

 — Ainda assim, você precisa entender o seu papel — continuou ele, apoiando os cotovelos na mesa. — O casamento com Rafael não é um teste emocional. É um compromisso estratégico. E compromissos não podem falhar por causa de temperamento.

 Ela respirou fundo.

 — O senhor fala como se fosse simples.

 — Porque é — respondeu ele, sem hesitar. — Basta fazer o que se espera de você.

 Vitória sustentou o olhar do pai.

 — E o que exatamente se espera de mim?

 Ele inclinou a cabeça levemente, como se a pergunta fosse desnecessária.

 — Discrição. Postura. Neutralidade. — Enumerou com calma. — Você não precisa gostar dele. Precisa apenas não comprometer o acordo.

 Silêncio.

 — Oito meses passam rápido — acrescentou. — E, até lá, qualquer atitude sua reflete diretamente nesta família.

 Vitória sentiu o peso daquilo se acomodar sobre os ombros.

 — Entendi — respondeu, mesmo que tudo dentro dela gritasse o contrário.

 — Ótimo. Pode ir.

 Ela se levantou e saiu sem olhar para trás.

 No corredor, encontrou a mãe parada perto da escada. Verônica parecia ter escutado parte da conversa — ou talvez apenas reconhecesse o olhar da filha depois de anos convivendo com aquele silêncio forçado.

 — Ouvi vozes — disse baixo.

 — Está tudo bem — respondeu Vitória automaticamente.

 Mentira.

A mãe hesitou, depois tocou de leve o braço da filha.

— Você sabe que tudo isso é para o seu bem… não sabe?

 Vitória olhou para ela.

Quis perguntar quando exatamente o sofrimento virou sinônimo de cuidado. Mas não disse nada.

Vitória apenas assentiu.

Subiu para o quarto. O relógio marcava pouco depois das cinco da tarde.

Assim que entrou, algo sobre a cama chamou sua atenção.

 Uma pequena caixa clara, cuidadosamente posicionada, contrastava com a organização impecável do quarto. Vitória se aproximou devagar, como se aquele objeto pudesse desaparecer se ela se movesse rápido demais.

 Ao abriu a caixa, havia um colar delicado repousava sobre o veludo. A corrente fina sustentava uma pedra de tom esverdeado suave, translúcida, que refletia a luz de maneira serena — uma água-marinha, fria e calma, como o mar que ela tanto amava.

 Vitória tocou a joia com cuidado. Já sabendo quem mandará esse presente.

 Ela pegou o celular em sua bolsa para mandar uma mensagem de agradecimento, mas viu uma chamada perdida. 

Vovó Vera.

 O coração dela apertou e, ao mesmo tempo, se aqueceu. Ligou de volta imediatamente.

 — Minha menina! — a voz da avó veio animada do outro lado da tela. — Estávamos com saudade.

 — Eu também — respondeu Vitória, e dessa vez o sorriso foi verdadeiro.

 O avô apareceu ao fundo da chamada, ajeitando os óculos.

 — Gostou do presente? — perguntou ele.

 — É lindo… — disse ela, a voz um pouco embargada. — Perfeito.

 — Vimos a pedra e lembramos dos seus olhos — disse a avó, com carinho. — Essa cor combina com você. Sempre achamos.

 — Queria que vocês estivessem aqui… — Ao disser isso Vitória sentiu o nó na garganta apertar.

 — Um dia estaremos — respondeu o avô com suavidade. — Enquanto isso, estamos sempre com você. Não esqueça disso.

 Conversaram por alguns minutos. Coisas simples. O clima no país deles. As caminhadas curtas que agora faziam, as lembranças da praia, as risadas que vinham fáceis, sem esforço.

Quando a chamada terminou, Vitória apoiou o celular sobre a cama e levou a mão ao colar, ainda dentro da caixa.

O coração estava mais leve.

Mas o peso das palavras do pai ainda permanecia.

Ela se sentou à beira da cama, olhando para o quarto que nunca sentiu como seu.

O casamento ainda não tinha acontecido.

Mas tudo ao redor já a lembrava de que o tempo estava correndo.

E que, cedo ou tarde, ela teria que decidir até onde estava disposta a ir — e o que estava disposta a perder.

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