Mundo de ficçãoIniciar sessãoVitória saiu da cafeteria com passos firmes, mesmo sentindo o peito apertado demais para respirar direito.
O motorista abriu a porta do carro antes que ela precisasse pedir. Um sedã preto, silencioso, confortável — uma prisão disfarçada de privilégio. Assim que entrou, o cheiro de couro e o ar frio a envolveram, e a porta se fechou com um som seco, definitivo.
— Para a praia — disse, sem olhar para frente.
O carro arrancou suavemente.
Vitória encostou a cabeça no vidro e observou a cidade passar. Pessoas indo e vindo, livres o suficiente para decidir onde estar e para onde ir. Vidas simples, comuns — exatamente o tipo de vida que sempre pareceu fora do alcance dela.
Foi ali, no silêncio pesado do carro, que o passado voltou.
Ela se lembrou da primeira vez em que entendeu que não era livre.
Tinha doze anos quando ouviu o pai dizer, em uma reunião que não era para ela escutar, que filhos existiam para dar continuidade ao que os pais construíam. Naquele dia, Vitória deixou de ser apenas uma menina. Tornou-se um projeto.
Aprendeu cedo a sorrir quando era esperado. A se portar como uma Alencar. A sentar ereta, falar pouco, nunca chorar em público. Chorar era fraqueza — e fraqueza custava caro.
Quando tentou questionar algo pela primeira vez, aos quinze anos, ouviu que deveria ser grata. Grata pela vida confortável. Pela segurança. Pelo dinheiro.
Como se isso substituísse escolhas.A mãe nunca a defendeu. Nunca a abraçou depois das discussões. Apenas repetia, com a mesma frieza, que amor não sustenta nada. Contos de fadas não existem. Mulheres inteligentes aprendem a aceitar.
Vitória aprendeu.
Mas nunca aceitou de verdade.O carro seguia em frente, e o reflexo dela apareceu no vidro escuro: impecável, bonita, intocável por fora. Por dentro, era só cansaço.
Ela abriu os olhos, endireitou a postura e apagou qualquer vestígio de emoção do rosto. Foi só então que percebeu: nem o direito de ir até a praia — o único lugar que sempre foi seu refúgio — ela realmente tinha.
O carro já se aproximava do portão de casa. Vitória respirou fundo, sentindo o peso invisível sobre os ombros.
— Senhorita, o Sr. Alencar pediu para trazê-la direto para casa — disse o motorista, com a voz pesada, carregada de uma pena que não podia se transformar em atitude.
— Está tudo bem, Nando. Já estou acostumada — respondeu ela, forçando um sorriso.
Vitória saiu do carro e caminhou em direção à entrada da casa. Enquanto avançava, pensou em Rafael. No desprezo fácil. No rótulo de mimada jogado sobre ela sem esforço.
Se ao menos ele soubesse quantas vezes engoliu o choro sozinha. Quantas vontades enterrou para não desagradar. Quantos “sim” disse quando tudo dentro dela gritava “não”.Vitória respirou fundo.
O casamento ainda não tinha acontecido, mas ela já se sentia presa.
Oito meses.
Oito meses até perder até mesmo as poucas liberdades que fingia ter.
E, custasse o que custasse, Vitória não seria apenas mais uma peça obediente naquele jogo.
Ela iria jogar à sua maneira.






