Saulo Prado
Angelina estava diferente.
Não era só o horário da ligação, duas e quinze da madrugada. Era o modo como sua voz entrou no meu ouvido: cortante, baixa, quase sussurrada, como se implorasse socorro sem confessar fraqueza. Me acordou num susto. O peito apertou antes mesmo de eu ver seu nome na tela.
O mais estranho?
Ela não chorava.
Saiu de casa como quem abandonava a própria.
Usava uma camisa branca social, a mesma que usa no trabalho. Uma calça verde escura, um pouco larga, como se o