MEU PORTO SEGURO

MEU PORTO SEGUROPT

Romance
Última actualización: 2026-02-02
Cris Silva  Completo
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Resumen
Índice

Drew Hopkins é um jogador profissional de futebol americano com um histórico de problemas familiares. Primeiro ele perde a cabeça diante de toda a imprensa por conta desses problemas, depois agride um companheiro de equipe e é suspenso do time. Para ajudá-lo a esfriar a cabeça, um amigo oferece uma viagem a Drew para Porto de Galinhas, uma praia paradisíaca no litoral sul de Pernambuco e é lá que ele conhece Helena. Filha de pescadores, autodidata, Helena fala três idiomas e, junto com o irmão, é uma espécie de atração local. Eles se conhecem e se apaixonam, mas algo acontece e depois disso, a vida deles muda completamente. Drew e Helena nos ensinam muitas lições. Dentre elas a de que “Estar no lugar certo na hora certa faz toda diferença.” Entre encontros e desencontros vamos aprendendo mais sobre amor e perdão e família.

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Capítulo 1

CAPÍTULO 1

Helena

Eu prendi bem o meu rabo de cavalo com a ajuda de um elástico preto e olhei minha imagem no espelho quebrado que ficava na porta do guarda-roupas velho. A camisa com a propaganda do restaurante de Seu Bidú parecia mais um quebra-cabeças por causa das rachaduras no velho espelho. Ele estava assim há um bom tempo. Desde sempre, eu acho. Não me lembro dele sem essas rachaduras. As tiras do biquíni em volta do meu pescoço incomodavam um pouco. Acho que eu apertei demais.

Seria uma longa caminhada pelo chão de barro até chegar perto do centro de Porto de Galinhas. O tubo de protetor solar que eu havia pedido a Dona Zefa já havia acabado, apesar de eu economizar bastante. Seria uma nova luta para convencê-la a comprar outro. Sempre era. Felizmente ela não podia se dar ao luxo de me dispensar. Eu e Toninho éramos como uma celebridade da praia, sendo que sem o dinheiro.

Ri com esse pensamento.

A página do jornal com a reportagem sobre a gente estava pendurada na parede com uma moldura de vidro que mainha comprou na vidraçaria central. Duas crianças que viviam em uma das mais belas praias do nordeste brasileiro, em meio aos turistas e que aprenderam a falar três idiomas fluentemente sem nunca terem feito um curso de idiomas. Todo mundo da cidade sabia disso desde sempre, mas nunca deram importância. Até que uma professora, que morava no Recife e passava férias em Porto, nos ouviu falando com alguns turistas. Leonor era o seu nome. Ela puxou conversa e descobriu que, além do inglês fluente que ela nos viu falar, nós falávamos também italiano e espanhol. Sabíamos algumas frases em alemão, mas não muitas e não tão bem.

Dias depois, uma equipe de um dos jornais de grande circulação do estado estava à nossa procura. Eles queriam saber quem era Helena e Toninho, as duas crianças que eram poliglotas sem nunca terem estudado os idiomas. Isso era algo que nem nós, nem os nossos pais sabiam explicar. Minha mãe não tinha estudo e trabalhava fazendo faxina nas casas de veraneio e meu pai era pescador. Nós passávamos o dia soltos pela praia brincando ou ajudando os comerciantes locais em troca de alguns trocados, puxando conversa com os gringos que frequentavam a nossa praia e, quando vimos, éramos capazes de manter uma conversa com eles. Eu tinha doze anos na época e meu irmão nove.

O prefeito do município se aproveitou da cobertura que o jornal estava dando para se autopromover. Logo passou a exigir dos nossos pais a nossa assiduidade na escola, que era comprometida por causa dos trabalhos que às vezes precisávamos fazer para ajudar em casa e a promessa de um possível intercâmbio quando estivéssemos no ensino médio.

Eu concluí o ensino médio no início daquele mês e o tal do intercâmbio nunca veio. Embora eu tivesse me empenhado mais em aprender o inglês depois de todo o circo midiático, na esperança de estar preparada quando a hora chegasse. É claro que o prefeito não era mais o mesmo, no entanto, era um parente seu. 

A decepção, porém, não foi tão grande para mim como foi para Toninho. Eu sempre fui muito cética sobre tudo isso. Mas ele realmente queria ir morar fora e começou a se preparar para isso. Enquanto eu investia cada centavo que eu conseguia na melhoria da nossa casa e das nossas condições de vida no presente, Toninho guardava quase tudo para quando ele fosse embora do Brasil. No começo ele fazia isso em latas de leite. Depois que ele juntou três latas de moedas e pequenas notas, mainha o levou até uma agência da Caixa e abriram uma poupança no nome dele.

Eu também tinha minhas economias, mas era muito mais para estar segura do que para viajar. Eu já havia perdido essa esperança no primeiro ano do ensino médio. Meu irmão, no entanto, permanecia firme em seu sonho, e até havia me convencido a fazer minha inscrição em algumas universidades norte-americanas e também em um programa que a embaixada americana tinha aqui no Brasil, o Jovens Embaixadores. Mas eu não me iludia com isso.

Depois da tal matéria jornalística em mídia impressa veio uma equipe de tv e o burburinho só aumentou. Os comerciantes locais começaram a querer a nossa presença nos estabelecimentos, pois os visitantes vindos de outros estados do Brasil e mesmo da capital pernambucana, que ouviram falar a respeito, sempre perguntavam como podiam nos conhecer, tirar fotos, e assim esses estabelecimentos atraíam mais clientes e ganhavam mais dinheiro. O problema era que eles ganhavam isso. Nós não ganhávamos nada mais além da fama e alguns trocados, que guardávamos e fazíamos render mais do que tudo. Era um verdadeiro malabarismo financeiro.

No começo nós não entendíamos a grandiosidade do que podíamos fazer, mas com o tempo, ficamos orgulhosos de poder falar várias línguas sem nunca ter estudado ou nunca ter deixado o país.

Seis anos depois, tudo não passava de uma boa história. Mas eu não estava reclamando. As coisas haviam melhorado um pouco também. Eu trabalhava no restaurante de seu Bidú duas vezes na semana e, além de servir mesas, também saía pelo menos duas vezes ao dia na lancha deles para levar os clientes em um passeio para ver os corais. Todos queriam ver a pedras que tinha o formato do mapa do Brasil. Os gringos queriam ver a variedade de peixes que moravam nos corais e eu e Toninho fazíamos as vezes de intérpretes. Eu na lancha de Seu Bidú e ele na lancha de uma pousada local.

Sempre conseguíamos algumas gorjetas generosas dos turistas estrangeiros. Isso não acontecia muito com os nacionais. Não, gorjetas não eram uma prática no nosso país. Mesmo os dez porcento dos garçons era suado, quando não eram os clientes a não querer pagar, eram os donos dos restaurantes a se apropriar e não repassar o valor. Mas pela experiência, descobrimos que os estrangeiros tinham isso bem definido em sua cultura.

À noite, eu trabalhava em um bar na praia do centro e graças à internet consegui vários trabalhos de tradução. Toninho fazia uma coisa ou outra que rendia algum dinheiro. Com todos esses bicos que nós fazíamos conseguimos juntar uma boa renda e fazer algumas melhorias em casa ao longo dos anos. Nada muito significativo, mas o pouco que fizemos deixou mainha e painho satisfeitos.

Sempre moramos em uma casa muito simples em uma área mais afastada do centro e numa rua de barro, sem asfalto. Nossa casa ficava mais perto do mangue do que da praia e era uma boa caminhada que sempre terminava com as nossas canelas cinzentas. Mas, embora o cenário em volta não fosse tão belo como as paisagens naturais de Porto, fomos aos poucos ajeitando nossa casa. Substituímos as telhas por uma laje, construímos um primeiro andar, colocamos cerâmica, trocamos portas e janelas. Devagarzinho, os eletrodomésticos foram aparecendo e melhorando e agora nós tínhamos até dois computadores que recebemos de um projeto do governo. O que foi muito útil para mim que comecei a pegar alguns trabalhos de tradução em um site de serviços que uma professora minha do ensino médio indicou. Ela disse que eu poderia ganhar algum dinheiro com isso e era verdade. De vez em quando aparecia algum trabalho ou outro e eu fazia.

Mainha não tinha mais que fazer faxinas e podia se dedicar a cuidar da sua casa que agora era mais bonita do que na minha infância. Exceto pelo meu guarda-roupas com o espelho rachado na porta. – Leninha, tu “tais” atrasada, menina. Bidú daqui a pouco liga pra saber de tu. – Minha mãe falou encostada na porta do meu quarto, com um pano de prato pendurado no ombro.

Eu me abaixei para pegar o livro sobre a cama e colocar na minha bolsa de palha igual à que as turistas traziam para o fim de semana, mas que feria meu ombro, deixando claro que era um acessório excelente para se fotografar e colocar em uma rede social, mas péssimo para o dia a dia – Já vou, mainha. Deixa eu só arrumar a minha bolsa.

- Tu e teus livros... – minha mãe resmungou enquanto voltava para cozinha. Não era uma crítica. Ela sempre brincava por eu gostar tanto de livros. Eu nunca tive dinheiro sobrando para comprar tantos quanto eu gostaria. Mas eu sempre pegava emprestado na biblioteca da escola ou ganhava um usado de alguém. Eu também consegui comprar alguns em um sebo no centro do Recife. Eu não ia muito para à Capital, mas nas poucas vezes que eu ia, sempre reservava um trocadinho para o sebo que tinha por trás da Agência Central dos Correios.

Peguei meu celular que estava carregando num cantinho do quarto e desci as escadas correndo. Mainha já tinha colocado um pouco de macaxeira com charque pra mim. Mas se eu fosse comer não sairia tão cedo. Ao invés disso, peguei um pacote de bolacha, dei um gole no café e saí comendo pelo caminho. Quando fechei o portão ainda ouvia as reclamações da minha mãe por sair sem comer e desperdiçar a comida que ela fez – Eu como alguma coisa em Bidú, mainha. Guarde a macaxeira na geladeira que eu como quando voltar – foi a minha desculpa.

Era dezembro e a cidade estava em polvorosa. Porto, nos finais de semana em geral, era sempre badalada. Mas na alta temporada era impraticável. Até proibiram que veículos de grande porte circulassem dentro da cidade. Porque ela não tinha infraestrutura para suportar tantos carros. Dona Zefa estava com cara de poucos amigos na cozinha do restaurante quando eu cheguei. – Atrasada de novo, Heleninha.

- Foi mal, Dona Zefa. É que eu tive que ajudar mainha antes de sair. – Isso era a desculpa padrão. A verdade era que eu fiquei distraída mexendo no computador e conversando com uma prima minha que morava em Suape.

- Guarda tuas coisas e vem descascar esses camarões pra mim que eu vou fazer um creme pro almoço.

As próximas horas passaram correndo. Eu ajudei a servir as mesas para o almoço e no final da tarde dei duas viagens na lancha até os corais. Enquanto os turistas mergulhavam com Júnior, mergulhador profissional que ensinava aos turistas, eu me sentei na parte de trás da lancha e fiquei esperando Toninho aparecer. Eu não tinha visto ele ainda naquele dia. Mainha disse que ele saiu muito cedo com meu pai para pescar.

A lancha da Pousada Marisol apareceu bem longe. Ela ficava um pouco distante do centro, quase em Muro Alto, e Toninho sempre caminhava muito para chegar até lá. Meu irmão estava com quinze anos agora recém-completados e eu já começava a me preocupar que ele não conseguiria sua bolsa para o ensino médio no exterior. Ele tinha a pele bronzeada e os cabelos pretos um pouco longos, quase no queixo. Mainha não gostava, mas eu achava lindo. Ele sorriu quando me viu e manobrou a lancha até parar.

Eu tirei o short e a camiseta e desci da lancha e ele, que estava de short só pulou e me encontrou no meio do caminho. – E aí magricela, é a tua primeira viagem do dia?

- Não, a segunda. Seu Bidú ainda queria que eu desse uma terceira, mas eu não quis. Senão eu vou me atrasar para o bar de noite. Eu ainda tenho que passar em casa para tomar um banho e trocar de roupa. Na semana passada eu tive que trabalhar a noite com o cabelo duro da água do mar. – Ele riu. Meus cabelos eram longos e cacheados nas pontas, mas eu passava a maior parte do tempo com ele preso em um rabo de cavalo ou coque e protegido em baixo de um chapéu. Só que eu adorava mergulhar e às vezes eu me rendia quando levava alguns turistas para um passeio. – E tu? Já terminasse?

- Marquinhos deu a primeira viagem pra mim, então eu só tenho mais essa. Tu “visse” se chegou alguma coisa pra mim dos correios? – ele me fazia essa pergunta todos os dias e era frustrante ter que responder sempre a mesma coisa.

- Não até a hora que eu saí.

- Eu acho que se tivesse chegado alguma coisa mainha teria ligado, né?

- Sim, ela definitivamente teria ligado, Toninho. – Ele riu, mas não era um sorriso verdadeiro. Era só para me tranquilizar. Eu me preocupava tanto que ele se decepcionasse.

- Eu vou te buscar hoje depois do bar.

- Não precisa.

- Precisa sim. Tu “sabe” que Porto nessa época do ano tá cheia de turista metido a engraçadinho. Eu não quero ninguém agarrando minha irmã por aí. Além disso, ainda tem os ratosratos era como ele chamava os ladrões que aproveitavam para roubar nessa época do ano quando a praia estava cheia de turistas. Minha casa ficava muito afastada do centro, eu tinha que ter cuidado mesmo.

- Tá bom. Deixa eu ir que Júnior já terminou por aqui.

Eu ajudei o instrutor de mergulho a guardar os equipamentos e voltamos para o restaurante. Lá eu recebi meu pagamento do dia e fui pra casa caminhando. Mais canelas cinzentas. Mainha estava preparando o jantar quando cheguei. Mas, apesar do cheiro bom de sopa, eu sabia que ia sobrar a velha macaxeira com charque que eu desprezei pela manhã. Mainha não esquecia de nada e se revoltava com desperdício de comida.

Subi correndo para me arrumar para mais um turno de trabalho. O bar ia ficar lotado, eu sabia. Chegou um micro-ônibus cheio de turistas hoje à tarde e o filho do atual prefeito estava na cidade. Ele era um cara mimado e exibido. Morava no Recife, onde estudava, mas vinha aos finais de semana, férias e feriados com uma turma de baderneiros e fazia a maior algazarra na cidade. Ele tinha tentado me agarrar uma vez, mas Marquinhos, um amigo de infância, me defendeu e depois me acompanhou até em casa.

O bar não exigia uniforme, mesmo assim eu vesti um short jeans e a velha camiseta do bar. Para os pés, um par de sandálias baixas. Meus cabelos tinham passado o dia inteiro em um rabo de cavalo apertado e como eu molhei ele no mar e tive que lavar, optei por deixa-lo solto pelo resto da noite.

Depois de comer a macaxeira com charque que me esperou o dia inteiro, eu voltei para a praia caminhando como sempre.

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