Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando voltei para a Fazenda Ferrari depois de anos longe, achei que meu maior desafio seria cuidar do meu pai doente e impedir que as terras da minha família afundassem de vez. Eu estava errada. Meu problema tinha quase um metro e noventa de altura, braços cobertos por tatuagens e um sorriso irritante que parecia existir apenas para testar minha paciência. Daniel Fontana. O peão mais comentado da cidade. O homem que entrou na minha vida como uma tempestade. O homem que eu jurei nunca deixar chegar perto do meu coração. Mas enquanto segredos do passado começam a vir à tona, mentiras são reveladas e uma perigosa disputa ameaça destruir tudo o que amo, descubro que nem sempre o verdadeiro inimigo é quem parece ser. E que o homem que eu mais queria manter distante talvez seja o único disposto a permanecer ao meu lado quando a verdade finalmente aparecer.
Ler maisDona Rute empurrou um café cheiroso na minha direção e apontou para o bolo de fubá soltando fumaça em cima da bancada.
— Meu horário por hoje já encerrou, menina. Eu vou logo que Tonho tá me esperando lá fora. Me desculpa por não poder ficar.
Eu fui criada por essa mulher quase a vida inteira. Sabia muito bem que quando o assunto era o Tonho dela, ela não tinha olhos para mais nada no mundo.
Dei um sorriso de canto, deixando a mala de rodinhas encostada perto do armário.
— Vai lá, Dona Rute, não se preocupa comigo não. Tô em casa. Finalmente.
Aquela mulher me direcionou um sorriso tão caloroso que fez eu realmente acreditar nas palavras que eu tinha acabado de dizer.
Fazia anos que eu não pisava nessa fazenda, e a verdade era que tudo ali dentro parecia menor e mais silencioso do que na minha infância.
Dona Rute saiu pela porta lateral da cozinha, e o silêncio da casa antiga caiu como uma tonelada nas minhas costas.
Ficaram só eu e meus fantasmas.
Eu mal tinha levado o café à boca quando ouvi a porta de madeira abrindo de novo com um estrondo de lascar.
Dei um pulo na cadeira, quase derramando o líquido quente na minha blusa clara.
— O cheiro chegou lá no quintal, Dona Rute! Cadê minha xícara?
Virei meu corpo rápido, pronta para brigar com quem quer que estivesse entrando daquele jeito, mas as palavras sumiram da minha boca.
"Um peão todo tatuado".
Foi tudo que Celina me disse sobre o cara que ajudava meu pai a cuidar da fazenda na minha ausência.
Só podia ser esse.
Cabelos ondulados caindo na testa, tatuagens que iam até o antebraço, a cabeça quase batendo no batente da porta.
O cara atravessou a cozinha com uma postura de quem mandava no lugar, sem pressa nenhuma.
Meus olhos rastrearam o sujeito de baixo para cima: as botinas sujas de terra, o jeans surrado marcando as pernas grossas, a camisa polo preta apertada no peito e o chapéu de caubói que ele estava tirando da cabeça.
Assim que nossos olhos se encontraram, senti na hora que aquilo não ia prestar.
Ele travou os passos no meio da cozinha, me medindo de cima a baixo com um olhar tão arrogante que me fez ter vontade de voar no pescoço dele.
De um jeito ruim.
— Quem é você? — A voz dele era grossa, meio rouca, e pareceu arranhar meus ouvidos, porque me irritou na mesma hora de um jeito que não sei nem explicar.
Ele me olhava com uma certeza absoluta de que eu era uma intrusa que não devia estar ali.
— Oi? — perguntei, tomando um gole do café e me fazendo de desentendida só para ver até onde ele ia.
Mas, ao invés de repetir a pergunta, ele simplesmente me ignorou, como se eu fosse um quadro pendurado na parede ou uma planta decorativa.
Foi direto para a bancada e pegou a faca ao lado do bolo.
Fiquei observando, talvez porque estivesse curiosa, talvez porque ainda não tivesse acreditado no nível de abuso daquele homem.
Ele cortou uma fatia de bolo tão grande que eu cheguei a olhar em volta procurando as outras duas pessoas que dividiriam aquilo com ele.
Não encontrei ninguém.
O egoísmo era individual mesmo.
Depois disso, ele puxou a cadeira da mesa bem na minha frente, sentou de forma nitidamente confortável e, antes de dar a primeira mordida no bolo, me encarou de novo com aqueles olhos castanhos desafiadores.
— Você ouviu. Quem é você, e quem te autorizou a entrar nessas terras?
Nessa hora, a ficha caiu.
Entendi perfeitamente por que a Celina tinha desconversado quando perguntei o que mais ela podia me contar sobre ele.
Que cara abusado!
O ranço por peões metidos a xerife acordou com força total dentro de mim.
Mas eu não tinha estudado anos na cidade para voltar e engolir sapo de funcionário folgado. Eu vim para colocar ordem na casa.
— Sou a dona delas e te faço a mesma pergunta — disparei, me levantando da cadeira para tentar impor respeito.
— Dona? — Ele soltou um meio sorriso, mastigando o bolo sem a menor pressa, e cruzou aqueles braços enormes.
Quer dizer... normais.
Eram bíceps bem normais.
Quer dizer, todo homem que trabalha na roça tem braço daquele tamanho, né?
Enfim.
Não importava o tamanho do braço dele.
Apoiei as duas mãos na mesa de madeira, me inclinando na direção dele para encará-lo de perto.
— Sim, dona. E acho bom você mudar o tom comigo e me respeitar, já que eu posso garantir que você nunca mais trabalhe nessa propriedade a partir de hoje.
O cara deu uma risada curta, um som anasalado que fez meu sangue ferver.
O desgraçado estava achando graça do meu aviso.
— Do que você tá rindo? — cerrei os dentes.
Ele me olhou bem no fundo dos olhos, empurrou a cadeira para trás e começou a se levantar sem pressa nenhuma.
E eu descobri que discutir com alguém sentado era muito mais confortável.
O cara não parava de subir.
Conforme ele ficava de pé, fui obrigada a ir jogando a cabeça para trás.
Meus 1,68m não tinham a menor chance contra os quase 1,90m de puro músculo que agora barravam a luz da cozinha, me deixando completamente na sombra dele.
Ele se inclinou ligeiramente para a frente, invadindo meu espaço até eu conseguir sentir o cheiro de mato e terra que vinha dele.
— Dona? — ele repetiu, com aquele sorrisinho torto de canto de boca que dava vontade de esmurrar. — Até onde eu sei, o dono de tudo isso aqui é o seu Maurício.
Droga.
Tecnicamente ele estava certo, as terras ainda estavam no nome do meu pai.
Senti minhas bochechas queimarem de raiva, mas eu não tinha vindo de tão longe para perder uma discussão para um peão tatuado.
— E tudo o que é do meu pai é meu. — devolvi.
A expressão debochada dele finalmente mudou.
O sorriso arrogante sumiu devagar, e de repente ele pareceu...
Curioso? Interessado?
Não, eu devia estar interpretando errado.
Ele continuava me olhando com aquela expressão que eu não conseguia traduzir, mas, antes que eu pudesse abrir a boca para continuar a discussão, o som de passos lentos e arrastados vindo em direção à cozinha cortou o clima pesado.
— Parece que eu não vou precisar apresentar os dois... — ouvi a voz fraca do meu pai atravessando a porta que dava acesso ao corredor.
Virei no susto, e meu coração doeu quando olhei para ele.
A lágrima até voltou pra dentro do olho, só por Deus.O nó na minha garganta sumiu, substituído por uma onda pura de pura indignação.A audácia desse homem devia ser estudada pela Nasa.— Eu não estou chorando, Fontana! — rebati, limpando o canto do olho com as costas da mão de um jeito que aposto que não convenceu ninguém. — É poeira desse galpão mal cuidado que tá irritando meus olhos.— Sei. A poeira de laranja é terrível mesmo — ele ironizou, dando as costas e caminhando até uma bancada cheia de ferramentas.Respirei fundo, forçando meu cérebro a voltar a funcionar na velocidade normal.Ele estava certo sobre uma coisa: o relógio estava correndo.Eu precisava de uma estratégia, e precisava agora.Olhei para a notificação judicial e depois para o trator velho.— Certo — comecei, pisando firme até o meio do galpão. — Se o banco está executando as dívidas, qualquer tentativa de financiamento novo em nome do meu pai ou da fazenda vai ser negada na hora. Bloqueio de crédito automático.
~ { POV Isadora } ~O sangue subiu para a minha cabeça tão rápido que pensei que ela fosse explodir.Meu dedo continuava apontado para a cara cínica do Daniel, a poucos centímetros daquele nariz perfeito dele.Eu queria uma resposta.Queria que ele confessasse que tinha armado isso tudo.Mas o infeliz nem piscou.Ele apenas olhou para o meu dedo, soltou um suspiro pelo nariz e, com uma lentidão que me irritou profundamente, segurou meu pulso.Senti os calos arranhando minha pele, e fechei o punho pronta pra esmurrar ele e descarregar toda a raiva acumulada desde ontem.Ele percebeu.Abaixou meu braço devagar, mas com firmeza suficiente para me lembrar de que ele era o dobro do meu tamanho e que eu, obviamente, não ia conseguir.— Você bebeu cachaça em vez de café essa manhã? — a voz dele saiu com o mesmo tom debochado das conversas anteriores. — De onde você tirou essa ideia?Prendi a respiração.Óbvio que eu não podia simplesmente responder que suspeitava que ele e o pai estavam mano
~ { POV Daniel } ~Eu já tinha lidado com boi bravo, cavalo xucro e tempestade que isolava a fazenda por dias, mas nada disso me preparou para o furacão de menos que um metro e setenta que tinha acabado de passar pela porta da cozinha do Seu Maurício.Ajeitei o chapéu na cabeça e apertei o passo para acompanhar aquele pingo de gente, que marchava pelo pátio de terra batida como se estivesse desfilando em uma passarela de asfalto na cidade grande.Ela usava um par de botas que parecia novo demais, claramente comprado de última hora, e tentava manter a postura firme enquanto o salto afundava levemente na lama fresca da manhã.Ela achava que estava disfarçando, mas eu conseguia ver o esforço.E, confesso, era divertido demais assistir.Caminhamos até a caminhonete, e depois dirigi até o galpão em completo silêncio.Ela ficou o caminho todo olhando pela janela, e provavelmente devia estar pensando em setenta formas diferentes de se livrar de mim.E eu estava pensando em quantas vezes pode
No dia seguinte, o sol mal tinha atravessado as janelas da fazenda e eu já estava de pé.Se bem me lembrava, a rotina na roça começava muito cedo.E eu precisava começar antes ainda, porque uma certa visita inconveniente estava prestes a aparecer.E eu tinha que garantir que não fosse antes de mim.Atravessei o corredor quase correndo, do mesmo jeito que fazia quando era criança, desviando por instinto dos móveis que continuavam exatamente nos mesmos lugares.Pra minha alegria, ao chegar à cozinha, não havia ninguém além de dona Rute e seu maravilhoso pão caseiro saindo do forno.Ah, aquele cheiro...Me sentei à mesa, e ela não perdeu tempo.— Desculpa por ontem, menina. Não deu tempo nem de você me contar as novidades da cidade.— Ah, eu nem tenho tanta novidade assim pra contar... Foram só oito anos fora — brinquei, pegando uma xícara e fazendo cara de paisagem.— E os namoradinhos? — Dona Rute disparou, indo direto ao ponto.Eu sabia que aquela pergunta viria mais cedo ou mais tard
Último capítulo