5 - Toquinho

~ { POV Daniel } ~

Eu já tinha lidado com boi bravo, cavalo xucro e tempestade que isolava a fazenda por dias, mas nada disso me preparou para o furacão de menos que um metro e setenta que tinha acabado de passar pela porta da cozinha do Seu Maurício.

Ajeitei o chapéu na cabeça e apertei o passo para acompanhar aquele pingo de gente, que marchava pelo pátio de terra batida como se estivesse desfilando em uma passarela de asfalto na cidade grande.

Ela usava um par de botas que parecia novo demais, claramente comprado de última hora, e tentava manter a postura firme enquanto o salto afundava levemente na lama fresca da manhã.

Ela achava que estava disfarçando, mas eu conseguia ver o esforço.

E, confesso, era divertido demais assistir.

Caminhamos até a caminhonete, e depois dirigi até o galpão em completo silêncio.

Ela ficou o caminho todo olhando pela janela, e provavelmente devia estar pensando em setenta formas diferentes de se livrar de mim.

E eu estava pensando em quantas vezes poderia chamar ela de Dorinha antes que ela tentasse me bater.

Pela cara dela, com toda certeza não seriam muitas.

Quando entramos no galpão principal, o cheiro de óleo e a poeira antiga nos recebeu.

O sol entrava por pequenos buracos no telhado, que demonstravam que aquele era mais um dos muitos pontos da fazenda que não recebiam manutenção adequada há algum tempo.

Parei em frente ao velho trator da fazenda, um modelo antigo que já tinha visto dias melhores, e dei duas batidas leves na lataria desgastada.

Não dava pra confiar que ele aguentaria mais do que isso.

Aquela máquina era o coração da colheita de laranjas deles, mas acho que esse coração estava a ponto de infartar.

— Bom, doutora, o negócio é o seguinte — comecei, tirando o chapéu e ajeitando o cabelo antes de encarar aqueles olhos castanhos desafiadores. — A safra de laranja este ano veio muito maior do que a gente esperava.

Eu vi o semblante dela relaxar um pouco.

— A produção aumentou muito? — perguntou.

Uma frase inteira sem nenhuma acusação.

Acho que estamos avançando.

— Os pomares estão carregados. — continuei a conversa, enquanto ela observava o trator. — A logística vai ter que ser cirúrgica se a gente não quiser perder fruta no pé, e eu to achando que esse guerreiro aqui atrás de mim não vai dar conta de tudo. O que você sugere que a gente faça?

Isadora cruzou os braços, medindo o trator com um olhar analítico.

Ela deu uma volta lenta ao redor da máquina, com aquela pose imponente de quem usa o cérebro, e depois parou bem na minha frente, sustentando o olhar com uma segurança que quase me fez sorrir.

— Se a produção está tão grande assim, acho que não compensa remendar essa lata velha — ela disparou, a voz firme. — Vai sair mais caro consertar e mesmo assim perder parte da produção do que investir em outro.

Eu pensei em interromper, mas ela parecia segura demais do que estava falando.

Fiquei curioso pra ouvir.

— Tem modelos novos muito mais eficientes para nosso tipo de terreno. Eu vi vários durante a faculdade.  Nós só precisamos pedir um financiamento no banco para comprar a máquina e fazer a colheita. É simples. Como você não pensou nisso?

Encarei aquela expressão confiante por alguns segundos, sentindo um peso incômodo no estômago.

Ela realmente entendia do assunto.

Pena que ainda não entendia da situação.

Estava sendo delicioso provocar a patricinha, mas o que eu tinha para dizer agora não tinha graça nenhuma.

Ia doer.

Soltei o ar devagar e dei um meio passo à frente.

— Dorinha, acho que você vai ter que pensar em outra solução.

Ela fechou a cara imediatamente e levantou a sobrancelha em uma expressão de puro desafio.

— Por quê? Acha que eu não sou capaz de conseguir um financiamento?

— Não — respondi, seco.

— Você está me subestimando, Fontana.

— Não, não estou. É você que ficou muito tempo fora.

— O que você quer dizer com isso? — Os olhos castanhos dela semicerraram, a defensiva ativada na velocidade da luz.

Olhei bem no fundo dos olhos dela, deixando todo o deboche de lado.

— As terras do seu pai estão prestes a ir a leilão.

O silêncio que caiu no galpão foi violento.

Daria para ouvir até uma abelha se ela passasse voando a três quilômetros de distância daqui.

Isadora piscou, a cor sumindo do rosto dela num piscar de olhos, mas o orgulho não ia deixar ela cair nem se ela quisesse.

— O quê? Não... Isso não é possível — ela soltou uma risada nervosa, balançando a cabeça. — Meu pai sempre foi um excelente administrador dessas terras. Ele não ia deixar isso acontecer.

Em vez de responder, apenas dei as costas para ela e caminhei até a minha caminhonete parada na entrada do galpão.

Não era exatamente assim que eu queria que ela descobrisse mas, já que chegamos nesse assunto, melhor esclarecer as coisas.

Abri a porta do carona e puxei do porta-luvas o envelope pardo que tinha chegado na semana passada.

Voltei para dentro do galpão, parei bem na frente dela e entreguei o documento na sua mão.

— Você pode conferir com seus próprios olhos, eu não tenho porque mentir.

Ela pegou o papel com as mãos trêmulas.

Vi os olhos dela correrem pelas linhas da notificação judicial, fixando-se nos carimbos do banco, nos valores de sete dígitos com juros acumulados e, finalmente, no prazo de execução que estava correndo contra o relógio.

Isadora abaixou o papel devagar.

A vulnerabilidade que vi no rosto dela por um milésimo de segundo sumiu, sendo substituída por uma fúria cega.

E lá vamos nós de novo...

Ela deu um passo na minha direção, me encarando de baixo para cima com os olhos faiscando de puro ódio, e disparou com o dedo na minha cara.

— Isso é culpa sua, não é?

Olhei pra aquele toquinho de amarrar jegue tentando me enfrentar e respirei fundo.

Fudeu.

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