2 - Daniel Fontana

Meu pai estava tão pálido, com uma aparência tão abatida, que por um segundo me fez esquecer completamente do desconhecido tatuado que tinha acabado de invadir a nossa casa.

— Pai! Você devia estar na cama. Cadê a Verona?

Corri ao encontro dele.

O braço dele parecia mais magro sob a camisa de algodão, o que tornou a tarefa de levar ele até a mesa pra se sentar mais fácil do que eu esperava, só que de um jeito ruim.

Pelo canto do olho, percebi que o peão acompanhava cada movimento nosso, com o rosto sério, difícil de decifrar.

O deboche dele tinha sumido.

— Ela precisou viajar às pressas por uns dias, filha... Foi para o velório de um parente da família dela — meu pai explicou, respirando um pouco cansado.

— E te deixou sozinho nesse estado? — Eu estava indignada, sentindo o sangue subir.

Como a companheira do meu pai sumia assim, sabendo muito bem do estado delicado de saúde dele?

Que tipo de consideração era aquela?

— Ele não tá sozinho. Eu estou aqui.

A voz grossa do peão voltou a arranhar meus ouvidos, me trazendo de volta para a realidade daquela cozinha.

Olhei para ele de canto, sentindo uma onda de ranço e indignação crescer no meu peito.

— Ah, tá. E você é o famoso quem mesmo? — perguntei, cruzando os braços.

Muito folgado.

O cara tinha chegado depois de mim e já estava querendo posar de cuidador exemplar da família?

Me poupe.

— Daniel Fontana. Vizinho do seu pai.

Ele deu um passo à frente e estendeu a mão na minha direção.

O couro do sapato dele rangeu no chão da cozinha.

Olhei para a mão dele e pensei seriamente se deveria deixar ele no vácuo, mas meu pai me olhou de um jeito pidão, claramente esperando que eu fosse educada.

Só por causa disso, engoli meu orgulho e estendi a mão.

O aperto dele foi firme.

Firme até demais.

Parecia que uma corrente elétrica esquisita estava subindo pelo meu braço.

Sustentei o olhar.

— Isadora Ferrari — respondi, economizando nas palavras pra não dar muito assunto.

Ele soltou minha mão devagar, mas não recuou.

Olhou para os meus dedos e deu um sorrisinho de lado.

— Que mãos delicadas, Isadora. Acho melhor você não sair apertando as mãos dos funcionários da fazenda por aí, senão o pessoal vai achar que você é só uma patricinha mimada da cidade que nunca pegou no pesado.

Ah, não.

Não acredito que esse abusado teve a audácia de falar isso na frente do meu pai!

O sangue ferveu na hora.

— É porque enquanto uns trabalham só com as mãos, outros preferem usar o cérebro — rebati na mesma moeda, estampando um sorriso puramente sarcástico na cara.

Toma essa!

Daniel arqueou as sobrancelhas.

Ele entendeu a alfinetada perfeitamente, porque o sorriso dele aumentou, e o desgraçado mordeu de leve o cantinho do lábio inferior.

E que lábio, meu Deus...

Desviei os olhos correndo para a parede, xingando mentalmente até a quinta geração dele, só para não dar o gostinho de me ver reparando naquela boca que parecia ter sido desenhada à mão.

Conheço muito bem esse tipinho de homem.

Sabem que são bonitos, têm essa pose de marrentos e adoram ver uma mulher babando pelos cantos.

Mas comigo não se cria.

Eu tô mais do que vacinada contra agroboys e seus joguinhos de sedução barata.

Meu pai, alheio à faísca que quase incendiava a cozinha, esboçou um sorriso fraco e fez um sinal com a mão para o Daniel se sentar na cadeira.

Ele puxou a cadeira com calma e se sentou, apoiando os antebraços tatuados na mesa com uma naturalidade que continuava me dando nos nervos.

Meu pai limpou a garganta, olhando de mim para ele, parecendo aliviado por nos ver na mesma mesa.

— Eu fico muito feliz que você tenha finalmente voltado, minha filha — meu pai começou, a voz ainda mansa e um pouco arrastada. — Mas muita coisa mudou por aqui desde que você foi embora.

Olhei para o meu pai, sentindo um aperto no peito, de saudades, mas também de culpa.

— Pouco tempo depois que você se mudou, — ele prossegiu — o pai do Daniel comprou a fazenda vizinha, a antiga Santa Fé. Eles vieram até aqui se apresentar, foram muito gentis... Mas logo em seguida a minha saúde começou a falhar.

Aquela linha do tempo fez um alerta acender na minha cabeça.

— Como eu não estava mais dando conta do recado, o Daniel se ofereceu para me ajudar no cuidado das terras — continuou meu pai, olhando para o peão com gratidão. — Ele passou a orientar os nossos funcionários, a manter toda a rotina da fazenda funcionando.

Prendi a respiração por um segundo, olhando de relance para o Daniel. Ele ouvia tudo em silêncio, com uma expressão tranquila, quase angelical.

— Se não fosse pelo Daniel, Isadora, essa fazenda aqui estaria caindo aos pedaços. Eu não teria conseguido segurar tudo sozinho.

Ah, fala sério. Agora ele é o seu anjo da guarda?

Uma faísca de desconfiança, fria e certeira, começou a queimar dentro do meu peito.

Imagina só que grande coincidência.

O vizinho compra a propriedade ao lado da nossa e, de repente, do nada, o meu pai adoece.

Aí o filho do vizinho, o herdeiro das terras coladas nas nossas, aparece feito um salvador, se oferecendo generosamente para cuidar de tudo e controlar os nossos funcionários?

Sei bem como esse povo do agronegócio funciona quando quer expandir território.

Um velho doente e sozinho era o alvo perfeito.

Olhei bem para a cara do Daniel, tentando ler o que estava por trás daqueles olhos castanhos, mas ele era como uma parede de pedra.

— Eu fico muito feliz que você queira assumir a fazenda de agora pra frente — meu pai disse, cobrindo a minha mão com a dele, interrompendo meus pensamentos conspiratórios. — Mas como você está por fora de tudo, a partir de amanhã, o Daniel vai acompanhar você pela fazenda para te ajudar no que for necessário.

Quase engasguei com o resto de café que tinha acabado de levar à boca.

Tossindo levemente, encarei meu pai, desacreditada.

— Ele vai fazer o quê?

O sorriso largo e vitorioso que apareceu no rosto do Daniel naquela hora me deu uma vontade genuína de cometer um crime ali mesmo, na cozinha da fazenda.

Ele se encostou na cadeira, cruzando as mãos atrás da nuca.

E lá estavam eles de novo. Os bíceps. Os malditos bíceps.

— Parece que vamos passar bastante tempo juntos... Dorinha.

Dorinha?

O sangue subiu para a minha cabeça com tanta força que achei que minhas bochechas iam explodir de calor.

Desgraçado! Quem te deu essa intimidade toda para me colocar apelido?

— Para você, é Isadora — disparei, a voz saindo cortante, os olhos faiscando na direção dele.

Daniel não pareceu nem um pouco abalado com o meu coice.

Pelo contrário, o sorriso dele só aumentou, mostrando que tinha adorado ver o tamanho da minha irritação.

Ele empurrou a cadeira para trás com um som seco, ficando de pé com toda aquela imponência que de repente fazia a cozinha parecer pequena de novo.

Depois deu um tapinha leve e respeitoso no ombro do meu pai.

— Seu Maurício, vou deixar o senhor descansar. A gente se fala amanhã.

Ele caminhou em direção à mesma porta lateral por onde tinha entrado.

Pegou o chapéu de caubói em cima do balcão, colocou na cabeça e parou bem no vão da porta.

Então virou o rosto levemente para trás, me encarando por baixo da aba do chapéu com aquele olhar magnético e perigoso que fazia meu estômago dar voltas.

— Até amanhã... — Ele fez uma pausa — Dorinha.

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