Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som da porta lateral se fechando ecoou pela cozinha, mas eu continuei olhando para a madeira por alguns segundos, esperando meu coração voltar ao ritmo normal.
Dorinha o cacete.
Abusado.
— Ele é um rapaz muito prestativo, filha.
A voz fraca do meu pai me trouxe de volta à realidade.
Olhei para ele e toda a irritação que Daniel Fontana tinha conseguido despertar em mim em menos de meia hora foi empurrada para segundo plano.
O homem que estava diante de mim parecia anos mais velho do que quando nos despedimos.
Os ombros estavam caídos, o rosto pálido e as mãos, que um dia me levantavam no colo sem esforço, agora tremiam levemente sobre a mesa.
De repente, o vizinho folgado deixou de ser a maior das minhas preocupações.
— Vem, pai. O senhor precisa voltar para o quarto. Hoje quem vai cuidar do senhor sou eu.
Passei o braço dele pelos meus ombros e o ajudei a levantar.
Senti o peso do corpo dele se apoiar em mim e um nó apertou minha garganta.
Não porque estivesse pesado.
Pelo contrário.
Era leve demais.
Caminhamos devagar pelo corredor da casa, o mesmo em que eu costumava correr quando era criança para fugir das broncas da Dona Rute.
Naquela época ele parecia enorme.
Agora, com o silêncio tomando conta de tudo e o som dos passos arrastados do meu pai ecoando no piso antigo, parecia apenas triste.
Quando chegamos ao quarto, ajudei ele a sentar na cama.
— A Verona disse quando volta?
Ele ficou alguns segundos olhando para a janela antes de responder.
— Não me lembro, filha.
— Como não lembra, pai? Isso foi há uns dias só, não? — perguntei, já sentindo um frio na barriga.
Não era normal alguém esquecer algo de dois ou três dias atrás.
— Não sei... — ele me respondeu, com o olhar perdido, já se ajeitando no colchão.
Aquilo me preocupou mais do que eu gostaria de admitir.
Resolvi procurar os remédios para garantir que ele tomasse tudo certinho antes de dormir, mas a tarefa se mostrou mais difícil do que imaginei.
Abri a primeira gaveta, depois a segunda, mexi na cômoda, olhei na gaveta da mesa de cabeceira e nada.
— Pai, onde a Verona costuma guardar seus remédios?
Ele apenas balançou a cabeça.
— Ela que sabe dessas coisas.
Por um instante, pensei em ligar para Daniel.
Afinal, se ele realmente passava tanto tempo ali, talvez soubesse.
Mas bastou lembrar do sorriso debochado acompanhado daquele "Dorinha" para abandonar a ideia imediatamente.
Antes morrer soterrada por uma gaveta do que pedir ajuda para aquele homem.
Continuei procurando até encontrar uma caixinha fechada, provavelmente uma reserva que a Verona tinha guardado no fundo do armário.
Conferi rapidamente os nomes, a validade e respirei aliviada.
Pelo menos aquilo parecia estar em ordem.
Entreguei os medicamentos ao meu pai junto com um copo d'água, esperei ele tomar cada um deles e ajeitei o travesseiro pra que ele pudesse se deitar.
Ainda não eram sete horas da noite, mas ele parecia completamente esgotado, e preferi deixar ele dormir.
Saí do quarto na ponta dos pés, peguei minha mala que tinha ficado esquecida na cozinha e fui para o meu antigo quarto.
Quando abri a porta, parecia que tinha entrado em uma máquina do tempo: o cômodo estava exatamente como eu tinha deixado quase oito anos atrás.
Aquele papel de parede horroroso que eu escolhi aos nove anos.
Não é possível que eu tinha tanto mau gosto.
As cortinas rosas ainda pendiam na janela e a roupa de cama estava tão limpa e cheirosa que era impossível não imaginar Dona Rute cuidando de tudo como sempre fez.
Sentei no pequeno sofá adaptado no vão da janela, que era o meu cantinho de leitura favorito na infância.
Dali de cima, eu conseguia ver boa parte da fazenda, que agora estava totalmente tomada pelo breu da noite caipira.
Ao longe, notei algumas pequenas luzes que definitivamente não existiam antes na paisagem.
Forcei a vista contra o vidro.
Parecia ser o farol de algum carro, mas por que um veículo estaria parado no meio da estrada de terra a essas horas?
Peguei o celular antes que minha curiosidade inventasse teorias ainda mais absurdas e liguei para Celina.
Ela atendeu quase imediatamente.
— E aí? Como foi a chegada?
Nem pensei antes de responder.
— Eu vou te matar.
Do outro lado da linha, ela soltou uma risadinha.
— Nossa. Que agressividade é essa? Tá de TPM?
— Não. Conheci o nosso querido vizinho tatuado.
Deu para ouvir claramente a Celina tentando segurar uma gargalhada do outro lado da linha.
— Qual é a graça? — perguntei, invocada.
— Nada. O que você achou dele?
Bufei.
— Um abusado. Ridículo.
Passei os minutos seguintes contando absolutamente tudo o que tinha acontecido na cozinha.
O bolo roubado, a discussão, o jeito como ele andava pela casa como se fosse dono do lugar e, principalmente, a notícia de que seria obrigada a passar os próximos dias andando pela fazenda na companhia dele.
Celina escutava tudo em silêncio, interrompendo apenas para um "hum", um "entendi" ou outro comentário curto.
Quando terminei, ainda acrescentei:
— E, como se não bastasse, o abusado resolveu me chamar de Dorinha.
— Dorinha?
— Você acredita? O homem me conhece há meia hora e já tá inventando apelido.
— Isa... — a Celina finalmente falou, interrompendo o meu surto.
— O quê?
— Tem dez minutos que você só fala dele.
Engoli em seco, encarando a parede.
Errada ela não estava.
Mas eu ia deixar ela se gabar com essa sensação de vitória?
Obviamente não.
— E o que mais eu ia te contar, criatura? Dos matos crescendo na estrada? Do meu quarto que continua igualzinho ao de oito anos atrás? Aquele homem me irritou profundamente, foi só isso, tá?
— Tá bom... Tá bom... — ela respondeu, com aquele tom de voz de quem claramente não estava convencida de nada.
— Celina, vou desligar. Amanhã a rotina começa cedo aqui e quero garantir que aquele imbecil não vai chegar na minha fazenda e me achar dormindo ainda.
— E voltamos ao Daniel...
— Celina!
— Até amanhã, amiga! — ela desligou, rindo alto da minha cara.
Por mais que eu não quisesse admitir nem sob tortura, ela tinha um pouco de razão.
Aquele imbecil tinha conseguido ocupar meus pensamentos.
Mas... eu só estava indignada.
Era completamente diferente.
Olhei de novo pela janela, distraída, e notei que as luzes que antes estavam paradas na estrada começaram a se mover devagar.
Então era realmente um farol de carro.
Mas de quem?







