Mundo ficciónIniciar sesiónPOV ARTHUR
O lustre de cristal pendurado no teto do restaurante espalhava uma luz dourada sobre as mesas cobertas por linho. Meus passos ecoaram pelo granito polido, e o peso das minhas botas quebrou o silêncio daquele ambiente fútil. Um almoço ali valia o salário do mês de um trabalhador médio, o tipo de desperdício que embrulhou o meu estômago.
— Por aqui, senhor. A sua mesa reservada fica na ala privativa dos fundos. — O garçom se aproximou, abaixando a cabeça.
— Não me chama de senhor. — Cortei de imediato, a voz saindo grossa.
As mangas da minha camisa de linho preta estavam dobradas até os cotovelos, deixando o braço esquerdo inteiro com as tatuagens à mostra, além dos primeiros botões abertos expondo o peito. Eu não pertencia a esse mundo de aparências e nem fazia questão de me esconder para agradar ninguém. Cruzei o salão com passos largos e avistei o alvo.
Betânia Zeiberg ocupava o centro do espaço reservado, com aquela postura impecável de quem se julgava dona do mundo. Ela não estava sozinha. Dois homens de terno escuro dividiam a mesa com ela; um homem mais velho com cabelos grisalhos e cara de bilionário e um mais novo segurando uma pasta sob o peito.
A presença desses dois urubus fez o meu maxilar travar na hora.
— Arthur, meu filho. Você veio. — Betânia se levantou, abrindo os braços e inclinando o corpo para me dar um beijo no rosto.
Girei o pescoço de leve, desviando do contato. Os lábios dela alcançaram apenas o ar frio. Sentei-me na cadeira vaga da ponta, apoiando os braços no tampo e encarando a mulher que tinha me largado na infância.
— Desembucha o que você quer, Betânia. Achei que era um almoço entre nós dois, não uma reunião com sei lá quem.
— Quanta agressividade, Arthur. Eu queria te apresentar esses dois senhores aqui, eles representam a holding dos Fronc...
— Eu não quero ouvir o sobrenome de ninguém e nem me interessa quem eles são. — Interrompi, e o homem mais velho se mexeu na cadeira, desconfortável. — Fala logo o motivo de ter me procurado.
Betânia parou as duas mãos espalhadas na mesa com os olhos fixos nos meus, recuperando a postura autoritária.
— Nós temos um acordo comercial de muito tempo atrás, Arthur. O seu pai Hendrik Zeiberg faleceu alguns anos atrás e agora está na hora de você assumir os seus negócios e o legado das pedras preciosas.
— Não chama aquele sujeito de meu pai. — Apontei o indicador na direção dela, sentindo o sangue ferver. — O único homem que me criou, que me deu um teto e a quem eu chamava de pai não é aquele sujeito.
— Você sabe muito bem que o seu tio é apenas o seu tio, Arthur. Você é um Zeiberg. Mesmo que você tenha tirado o sobrenome paterno, você continua sendo o meu filho. — Minha mãe respondeu, passando a mão na cabeça do seu cachorrinho de estimação que estava dentro da bolsa ao lado.
— Eu não quero o dinheiro. Pega essa riqueza e some da minha vida, Betânia. Faz exatamente o que você fez quando eu era uma criança.
Ela continuou me encarando com uma seriedade gélida.
— Até quando essa birra, Arthur? Para você assumir o seu legado e a empresa, o contrato exige uma cláusula. Você precisa se casar.
Soltei uma gargalhada sarcástica, o som ecoou pela área reservada.
— Você só pode estar ficando louca.
— Eu estou falando muito sério. Você vai se casar, e vai se casar com a filha dele. — Ela apontou para o homem que segurava a pasta.
Me levantei da cadeira num salto, o móvel arrastando contra o chão com um ruído estridente. O ódio comandou os meus movimentos.
— Você perdeu o juízo. Eu não vou me casar com ninguém... Estou saindo. — Virei as costas e comecei a andar.
— Eu estou com câncer, Arthur. — A frase dela saiu num sussurro, travando os meus passos.
Girei o corpo devagar. O rosto de Betânia estava um pouco mais pálido que o normal.
— Estou com câncer de mama, estágio dois. Eu vou morrer se o tratamento não funcionar. Só quero deixar você encaminhado antes de partir.
O ar travou na minha garganta por um segundo, mas controlei a reação de imediato. Sorri de lado, cínico. Ignorando as batidas aceleradas e desconfortáveis do meu coração.
— Você é mestre em manipulação, Betânia. Acha que vou cair nessa história de doença para aceitar casamento arranjado?
Ela enfiou a mão em uma bolsa de couro, puxou un envelope pardo e entregou na minha direção. Peguei o papel. Meus dedos abriram o lacre e arrancaram as folhas lá de dentro. Meus olhos correram pelas imagens escuras da ressonância e travaram direto nas palavras impressas do laudo técnico: carcinoma, nódulo, estágio dois.
O ar sumiu dos meus pulmões por um segundo e a minha garganta fechou por completo. Engoli em seco, apertei os papéis com força entre os dedos e forcei o meu olhar de volta para o rosto pálido dela, prendendo o tremor que ameaçava subir pelos meus ombros.
— Se você vai morrer, Betânia, pega esse dinheiro da mina e doa tudo para a caridade ou enterra junto com você dentro do caixão. Eu não ligo para a porra do seu dinheiro. Você não manda na minha vida e eu só vou me casar quando eu quiser, com a mulher que eu escolher.
Empurrei o envelope de volta na mesa com brutalidade e dei dois passos firmes em direção à saída da ala privativa.
— Arthur! Volta aqui! — Betânia se levantou, a voz subindo de tom e perdendo a pose aristocrática. — Você não pode fugir das suas responsabilidades! Você não pode simplesmente fugir de mim!
Parei bem na divisa do corredor, olhando por cima do ombro. Dei um riso curto, cortante e carregado de desprezo.
— Eu já estou fugindo. E se você me incomodar de novo com essa palhaçada, eu sumo de um jeito que você nunca mais vai me achar.
Dei as costas em definitivo, deixando ela falando sozinha na mesa. A minha cabeça latejou com força perto das têmporas. Meus passos aceleraram pelo piso de granito polido, e o falatório das outras mesas virou um zumbido confuso e acelerado nos meus ouvidos. Sempre a mesma coisa. Só aparecia para me dar notícia ruim ou encher a porra do meu saco.
Eu segui de cabeça baixa, completamente perdido nos próprios pensamentos, marchando em direção à saída do restaurante.
Senti quando algo bateu em mim e me molhou, uma bandeja de metal bateu violentamente contra o meu peito, arrancando o ar dos meus pulmões e me fazendo cambalear um passo para trás. No mesmo instante, copos, talheres e pratos voaram para todos os lados. Um líquido escaldante escorreu pela gola da minha camisa aberta, atravessando o tecido e queimando minha pele. O estrondo de vidro se partindo contra o granito ecoou pelo salão inteiro.
Ergui o rosto tentando entender que porra aconteceu.
Um garçom de jaleco branco estava ajoelhado no chão encharcado, cercado por cacos de vidro e bandejas espalhadas.
— Me desculpa. Me desculpa. Senhor. — A expressão dele era de completo desespero.
Virei a cabeça ainda atordoado pelo susto e vi, alguns metros adiante, uma garota disparando pelo corredor. Ela tinha passado correndo e esbarrado no garçom com tanta força que praticamente o lançou contra mim.
— Olha por onde anda, seu idiota! — ela gritou, sem sequer diminuir o passo, a voz fina carregada de uma audácia irritante.
Eu já estava com os nervos estourados.
— Sua louca! — berrei de volta.
Nem sei se ela ouviu. Continuou correndo em direção à ala das mesas como se nada tivesse acontecido.
Mas, por um breve segundo, uma lufada do perfume dela ficou no ar.
Amêndoas... flores silvestres... um aroma doce e diferente que cortou o cheiro forte do álcool derramado.
Estreitei os olhos, registrando apenas o suficiente para guardar a imagem daquela maluca: uma roupa preta larga e esquisita, parecendo um espantalho gótico, enquanto os cabelos castanhos cacheados balançavam revelando mechas roxas e azuis escondidas entre os fios.
Que desastrada abestalhada.
Entrei no banheiro praguejando baixo. Joguei água gelada no peito para aliviar a ardência, mas bastou olhar para a camisa encharcada para concluir que ela estava completamente perdida.
Enfiei a mão no bolso, peguei o celular e digitei uma mensagem rápida para Betânia.
"Uma desastrada derramou bebidas em mim no corredor. Vou para casa. Depois a gente termina essa conversa."
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
#O que acharam do nosso protagonista?







