Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV CHARLOTTE
O toque agudo e insistente do celular perfurou os meus tímpanos, estraçalhando o resto do meu acesso de sono. Abri os olhos com dificuldade, sentindo a claridade do quarto de hotel queimar as minhas pupilas. Minha cabeça parecia um bloco de concreto prestes a rachar, e a minha boca exalava um gosto amargo. Atendi a ligação sem nem olhar para o visor.
— Onde é que você está, Charlotte? — A voz do meu progenitor trovejou do outro lado da linha, carregada de uma fúria fria. — Se você não aparecer no almoço em trinta minutos, eu juro que você vai se arrepender pelo resto da sua vida.
— Estou indo. Manda o endereço. — Respondi com a voz rouca, cortando a ligação antes que ele continuasse a gritar.
Levantei-me da cama em um solavanco, sentindo o mundo girar violentamente e uma onda de náusea subir direto para o meu peito. Minha pele ardeu. Olhei no espelho do banheiro e encarei os passarinhos recém-tatuados no meu pescoço e clavícula e a argola de prata no meu nariz. As memórias do dia e da noite passada vieram em borrões confusos na minha mente. Lembrei de mim e da Moon bebendo vinho, muito vinho depois que ela furou a pepeka e eu o nariz.
Engoli duas aspirinas a seco, virei um copo de água e vesti aquela roupa preta larga e esquisita com uma pressa desesperada.
Corri pelas ruas de Porto Alegre dentro de um táxi e praticamente saltei para fora dele antes mesmo de o motorista terminar de estacionar. Eu já estava atrasada.
Muito atrasada.
Entrei no restaurante chique quase sem fôlego, atravessando o corredor de acesso em disparada. O piso de granito brilhava tanto que parecia um espelho.
E mais do que brilhava, escorregava. Meu sapato resolveu me trair.
— Ah, não!
Abri os braços no puro instinto para evitar um tombo humilhante. Minhas mãos encontraram as costas de um garçom que passava carregando uma bandeja repleta de copos e bebidas.
O homem foi para a frente com o empurrão das minhas mãos.
Por um segundo, achei que ele conseguiria recuperar o equilíbrio.
Não conseguiu.
A bandeja inteira foi de encontro ao peito de um homem que vinha logo atrás. Copos voaram, bebidas espirraram em todas as direções e o estrondo de vidro se quebrando fez metade do restaurante virar a cabeça.
Meu Deus...
Mas... espera.
O sujeito também não estava olhando por onde andava? O garçom estava bem na frente dele!
A culpa dele.
— Olha por onde anda, seu idiota! — gritei, antes mesmo que meu cérebro resolvesse me lembrar de um detalhe importantíssimo: eu tinha acabado de empurrar o garçom.
Ignorei solenemente essa informação. Se eu fingisse convicção suficiente, talvez até minha consciência acreditasse que a culpa não era minha.
Sem esperar qualquer resposta, saí praticamente correndo em direção à área privativa, rezando para que ninguém tivesse decorado a minha cara de pau.
Comecei a procurar meu pai pelo salão aristocrático. Até que o encontrei. Ao lado dele estava meu avô, Alfonso. E, sentada entre os dois como se tivesse saído da capa de uma revista de luxo, havia uma mulher incrivelmente jovem e bonita. Nova até demais. Ela usava roupas de grife impecáveis e segurava um cachorrinho minúsculo dentro de uma bolsa.
Meu avô Alfonso me olhou assustado, com a sobrancelha arqueada diante do meu visual gótico, e o meu pai sibilou entre os dentes, com o rosto vermelho de raiva.
— O que aconteceu? — Meu pai me puxou com agressividade pelo braço, me colocando à força ao seu lado.
— Resolvi mudar um pouco o visual. — Disse, sorrindo com deboche na cara dele.
Meu avô limpou a garganta, ajeitou a postura na cadeira e começou a falar com aquela voz mansa da aristocracia.
— Esta é a minha neta, Charlotte... — Ele iniciou, mas eu não deixei o velho terminar a apresentação.
Dei um passo à frente, fugindo do aperto dos dedos do meu pai, caminhei em direção à mulher e agarrei a mão dela antes de qualquer formalidade. Sacudi o braço dela de forma totalmente desnecessária, usando toda a grosseria que consegui reunir.
— Nossa... eu jurava que a senhora fosse bem mais velha. — Soltei, sem nenhum filtro.
O silêncio engoliu a mesa. Meu pai paralisou. Olhei bem para a cara dela e continuei.
— Tipo... bem mais velha mesmo.
Carlos Fronckowiak fechou os olhos, parecendo que ia infartar ali mesmo. Meu avô Alfonso ficou rígido como uma estátua. A mulher apenas manteve um sorriso leve nos lábios, inabalável.
— Olá, você é uma graça. — Ela me respondeu, a voz mansa, mas sem que o sorriso chegasse aos olhos, enquanto media cada pedaço das minhas mechas roxas e azuis.
Desviei o olhar para a bolsa dela, focando no bicho que estava espremido ali dentro. Fiz uma careta de repulsa.
— Nossa... isso é um cachorro? — Perguntei, arqueando a sobrancelha. Ela olhou para o colo. — Achei que fosse um rato vestido. Desculpa. Agora olhando de perto parece um morcego também.
Meu progenitor passou a mão na cara, o rosto dele transfigurado pelo constrangimento. Meu avô se mexeu na cadeira, desconfortável enquanto coçava a garganta.
A mulher recolheu a mão devagar. Ela levou os dedos longos à boca para disfarçar um início de riso e continuou me mapeando com o olhar clínico.
— Sente-se, Charlotte. Fico feliz que tenha conseguido vir. Eu sou a Betânia Zeiberg. Gostaria de ouvir um pouco sobre você, sobre os seus gostos e a sua trajetória. — A mulher disse, apontando os dedos para a cadeira do outro lado da mesa.
Puxei a cadeira com um estrondo ruidoso que ecoou pelo espaço reservado e desabei no estofado com as pernas abertas, mantendo uma postura totalmente relaxada e largada.
Olhei para a mesa e vi um copo bem na frente dela. Sem pedir licença e sem o menor pudor, peguei o vidro e bebi o líquido de uma vez só. Era Martini com azeitona. Senti o gosto forte e amargo rasgar a minha garganta, então cuspi novamente o resto do líquido no copo.
— Credo... — Resmunguei, limpando a boca com as costas da mão de um jeito porco. Olhei para o copo com desdém. — Quer beber?
Coloquei o copo exatamente no mesmo lugar onde ele estava, como se nada tivesse acontecido.
Betânia me encarou fixamente, e depois desviou os olhos direto para o meu pai. O meu progenitor colocou a mão no braço da minha cadeira com força e me arrastou para perto do seu lado.
— Desculpa por ela... — Carlos disse, com a voz esganiçada de ódio. — Fale de você para ela, Charlotte.
Ajeitei o corpo na cadeira.
— Bom, eu sou uma pessoa um pouco instável. — Comecei, inflando o peito.
— Excelente. — Betânia rebateu na hora, a voz calma.
Piskei, confusa com a reação, mas continuei.
— Coloquei fogo nas instalações da minha faculdade de elite na Suíça e fui acusada por isso.
— Espírito de liderança. — Ela comentou, ajeitando os anéis de luxo sem piscar.
— Também precisei refazer o teste da carteira de motorista três vezes porque atropelei o meu próprio instrutor na autoescola e, em uma outra vez, esqueci a marcha e o carro atropelou um cachorro... Ah, e eu passo as minhas noites em baladas pesadas de música eletrônica, bebendo até apagar.
— Acontece. — Betânia soltou um estalo com a língua, totalmente entediada com os meus crimes.
O pânico começou a bater no meu peito. Como aquela mulher não estava horrorizada? Forcei a barra ainda mais.
— Ah, e eu sou viciada em heroína e... é... — Me deu um branco completo com nomes de substâncias. Minha mente travou. Olhei para o teto do restaurante chique tentando lembrar o que os criminosos usavam. — Heroína... Cocaína... Maconha em pó... e cheiro tinta. — Soltei, sem fazer a mínima ideia se existia maconha em pó ou se cheirar tinta era um vício.
— Uau... — Ela apenas disse, passando os dedos longos para alisar o pelo do bicho na bolsa.
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kkkkkkkkkkkkkkk
LOUCURA NÃO É?!







