Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV/ CHARLLOTE
— Não liga para ela. — Meu pai sorriu constrangido, abanando a mão no ar, o suor do desespero escorrendo pelas suas entradas calvas.
Apoiei os braços na mesa, olhando de um para o outro com um deboche ácido.
— Pensando bem... — Desenvolvi a ideia, medindo os dois com o olhar. — Vocês dois gostam de mandar nos outros. Gostam de dinheiro. Gostam de assustar as pessoas. Nossa... vocês dois fazem muito mais sentido juntos do que eu com esse tal filho. Acho que vocês deveriam ficar juntos.
Betânia soltou uma risada baixa e genuína por trás da mão fina, quebrando completamente a minha expectativa de um escândalo. Ela se inclinou na minha direção, diminuindo a distância entre nós, e estendeu os dedos para passar a palma da mão com uma lentidão torturante pela lateral do meu rosto pálido, raspando de leve perto do piercing fresco do meu nariz.
— Você é muito divertida, Charlotte. Não sabia que você tinha esse senso de comédia afiado. — O tom dela continuava calmo, perigoso e inabalável. — Mas as coisas não funcionam assim no nosso mundo. O que importa para as nossas famílias é a união dos nossos sobrenomes e o pacto de sangue que firmamos no passado. A sua aparência, o seu comportamento ou os seus vícios inventados não mudam o valor das ações da holding.
Apertei o forro da mesa, sentindo as minhas unhas escorregarem no tecido de linho. O meu plano perfeito estava desmoronando na minha frente. Nada funcionava.
— O casamento já foi decidido há muito tempo e nada do que você faça vai cancelar esse acordo. E, por favor, corrija o seu vocabulário: ele não é um rato, é um Spitz Alemão legítimo de linhagem campeã. — Betânia se levantou com uma elegância irritante, acomodou direito o cachorro minúsculo dentro da bolsa de grife e olhou para trás por um segundo antes de andar. — Por pouco você não conheceu o meu filho, e acho que foi melhor assim. A gente se vê em alguns dias.
Ela virou as costas e caminhou em direção à saída do ambiente. Meu pai se levantou em um solavanco para ir atrás dela, tentando limpar o chão das minhas mancadas, mas não antes de se inclinar e chocar as palavras direto no meu ouvido, a voz trêmula de ódio.
— Em casa vamos conversar.
Fiquei estática na cadeira, sentindo o peso da derrota esmagar o meu peito. Assisti à silhueta de Betânia se afastar com elegância, mas ela parou logo na saída da ala privativa, esperando o meu pai alcançá-la. Ela passou a mão na cabeça do cachorro e disse a ele, com a voz clara e um pouco alta demais para o ambiente:
— Gostei dela. Ela tem personalidade. Talvez consiga lidar com meu filho.
Virei o rosto para o lado, vendo o meu avô Alfonso se levantar da mesa enquanto me olhava com uma cara feia e irritada. Ele caminhou apressado para se juntar aos dois, e vi os três sumirem de vez pelo corredor principal do restaurante.
Pronto. Acabou. A sabotagem tinha falhado miseravelmente em absolutamente tudo.
Fiquei completamente sozinha na ala privativa do restaurante. Desabei o peso do meu corpo contra o encosto estofado da cadeira, sentindo o ar fugir dos meus pulmões por alguns segundos. Levei as duas mãos à cabeça, afundando os dedos nas mechas coloridas do meu cabelo e pressionando as minhas têmporas com força.
Minha cabeça latejou com uma batida dolorosa que misturava o resto da ressaca com o desespero de ver o meu plano de sabotagem falhar de forma tão humilhante. Aquela mulher simplesmente não se importava com os meus vícios inventados ou com o meu visual rebelde; ela só queria o raio do nosso sobrenome.
Um garçom de jaleco branco se aproximou devagar, segurando uma bandeja limpa sob o braço. Ele olhou para a bagunça na mesa e hesitou antes de falar comigo.
— A senhora deseja mais alguma coisa? — Ele perguntou, a voz baixa e cautelosa.
— Não, não quero nada. — Respondi de imediato, sem tirar as mãos da testa.
O funcionário se afastou com passos silenciosos pelo granito. Enfiei a mão na minha bolsa de grife, tateei o aparelho e o puxei para fora. Meus dedos trêmulos abriram o W******p e digitei um texto rápido para a Moon.
"Foi um fracasso total. A mulher nem ligou para o meu visual ou para as mentiras que eu contei sobre as drogas e a faculdade. Ela disse que o acordo de sangue continua valendo e que a minha imagem não muda o valor das ações. Não tenho escolha, Moon. Vou ter que pegar todo aquele dinheiro vivo que eu saquei no banco e fugir de Porto Alegre antes que o meu pai me arraste para o altar."
Bloqueei a tela e joguei o aparelho em cima da mesa. Não se passaram nem dois minutos antes que o celular começasse a vibrar e a tocar de forma insistente sobre a madeira. Era a Moon. Atendi no primeiro toque e levei o aparelho ao ouvido.
— Lottie, você enlouqueceu? — A voz da Moon veio alta do outro lado da linha, cortando qualquer drama. — Fugir com esse dinheiro não vai adiantar nada a longo prazo. O seu pai e o seu avô têm investigadores, eles vão caçar você até no inferno por causa daquela multa milionária da Receita Federal. Você vai virar uma fugitiva miserável.
— E o que você quer que eu faça? — Perguntei, sentindo um bolo amargo travar a minha garganta e dificultar a minha respiração. — Pensei em escolher algum cara aleatório qualquer e perder a porra da minha virgindade com o primeiro cara que aparecesse na minha frente, gravar um vídeo e depois postar na internet.
— Isso não vai impedir contrato nenhum, Lottie. Em pleno século vinte e um, ninguém liga se a noiva é virgem ou não, se ela é uma estrela ascendente do Xvídeos para assinar papéis de fusão de holding. Eles querem o patrimônio. Em compensação, tem uma coisa que pode travar esse casamento de forma definitiva. Uma barreira jurídica real que eles não podem quebrar.
Ajeitei o meu corpo na cadeira, prestando atenção no tom sério dela.
— Que barreira? — Indaguei, limpando o suor frio da minha testa com as costas da mão livre.
— No Brasil, a bigamia é um crime previsto pelo Código Penal. Ninguém pode se casar duas vezes no civil. Se você já for legalmente casada com outra pessoa...
— Casar? — perguntei incrédula.
— Sim, única coisa que eu pensei.
— E onde é que eu vou arrumar um marido de uma hora para a outra, Moon? Eu não tenho namorado, não tenho pretendentes e os únicos homens que conheço são os velhos engomados amigos do meu pai que me entregariam para ele no primeiro segundo.
Moon ficou em silêncio por um instante do outro lado da linha. Ouvi o barulho dela puxando o ar com força antes de responder.
— Um tempo atrás, a minha irmã passou por uma situação e acabou contratando um gigolô. Não era bem um gigolô, mas eles ficam na Erotic's Boys.
— Gigolô?
Fiquei encarando a parede por alguns segundos, processando o tamanho do absurdo. Eu estava mesmo cogitando resolver um casamento arranjado com outro casamento?
Meu Deus. A minha vida tinha virado uma novela mexicana escrita por alguém completamente alcoolizado.
— Sim. — ela fez uma pausa do outro lado do telefone. — Quer o endereço?
— Um gigolô... — Repeti a palavra em voz baixa, sentindo a ideia se fixar na minha mente. — Se eu oferecer dinheiro para um desses caras para ele assinar um contrato de fachada rápido no civil e virar o meu marido de aluguel, você acha que ele aceitaria o negócio?
— Bom, os caras trabalham por dinheiro, Lottie. E você tem uma bolsa cheia de notas e não tem nada a perder a essa altura do campeonato.
— Me manda o endereço desse lugar. — Exigi, levantando-me da cadeira em um movimento rápido e pegando as minhas coisas.
— O nome do clube é Erotic's Boys. Fica no coração do Quarto Distrito. Estou te mandando a localização exata pelo aplicativo agora. Toma cuidado, Charlotte.







